Bolsonaro virou refém do Centrão. Apostou no hiperpresidencialismo e perdeu. Abraçou a velha política. Carlos Pereira foi cirúrgico: “quem venceu foram as regras do jogo do sistema político”. Há muitos anos, venho dizendo que o nosso sistema político contém o vírus da ingovernabilidade e da recorrência de crises políticas.
As eleições das Mesas do
Congresso mostram o recorrente problema estrutural do sistema político brasileiro: ele não permite a formação de maiorias estáveis e estimula a fragmentação política e administrativa, o pragmatismo exacerbado e a instabilidade constante nas condições de governança e governabilidade. O problema central não é o Centrão, o MDB, o
PSDB, o
DEM ou as esquerdas. É o sistema político esquizofrênico.
O Centrão existe há muitos anos. No governo Bolsonaro, apoiou
Rodrigo Maia.
Lira ganhou com 302 votos. Maia ganhou com 334 votos. Aliás, Bolsonaro também apoiou Maia e Alcolumbre. O Centrão é produto de nosso sistema presidencialista com uma Constituição parlamentarista. Do nosso sistema eleitoral que estimula a fragmentação partidária. Do nosso sistema partidário que estimula o poder das oligarquias partidárias. E da composição da
Câmara dos Deputados, que sub-representa os Estados mais urbanizados e de maiores colégios eleitorais, como
São Paulo, e super-representa os Estados do Norte e do Nordeste.
É a fragmentação partidária que faz com que os partidos tenham dificuldade de coesão e produção de consenso no Congresso. É isto, no contexto da esquizofrenia do sistema político, que está na raiz estrutural do Centrão. Mas o Centrão não tem força para formar uma coalizão majoritária. Esta coalizão de agora, como apontou Carlos Pereira, é minoritária. Significa que o Centrão terá poder de vetar o impeachment, mas não o poder de formar maiorias qualificadas para reformas e pautas transformadoras.
Bolsonaro vai ter que conviver com o pragmatismo da “realpolitik” do centrão, se quiser se reeleger. E o Centrão vai ter que formar maiorias para votar, costurando acordos “ad hoc” com outros partidos. O presidencialismo multipartidário é mais forte do que Bolsonaro. Mas desta vez a coalizão é minoritária.
Dadas a urgências da vacinação, da pobreza e da recessão, o presidente vai ser levado a escolhas de Sofia. O pragmatismo do “status quo” versus a necessidade de crescimento. Os conflitos aparecem já, pois o orçamento de 2021 precisa ser aprovado. Vai ter auxílio emergencial? O teto de gastos vai desabar? Que reforma será possível aprovar?
O
Brasil pode ter outro crescimento pífio. A esperança da vacina precisa se concretizar. A sociedade civil e a mídia precisam “empurrar” o governo para decidir e o Congresso para votar. E, quem sabe, lembrar que ainda há reformas políticas a serem feitas, a começar pelo sistema eleitoral e partidário. Politicamente, estamos enxugando gelo.
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