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Crônica

Pequena crônica sobre o profundo da pele

Talvez os afetos sejam mesmo o avesso da pele. Talvez seja de fato ali que o mundo interior se manifesta, no escancaro da superfície

Publicado em 24 de Agosto de 2025 às 04:00

Públicado em 

24 ago 2025 às 04:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Às vezes vejo marcas de tristeza em olhos fundos e sem brilho. Encontro finais infelizes em rugas insistentes e marcas de expressão. Desconfio de tropeços e corações partidos nos pés de galinha que cobrem rostos ligeiramente conhecidos.
Suspeito quando enchem os vincos com pó compacto e filtro solar fator de proteção 50, como se pó e filtro fosco fossem o bastante para eliminar incômodos e dúvidas.
Avalio aborrecimentos, pequenas alegrias da vida adulta e conquistas pelas minhas próprias reações. Estranho quando o tom de voz e a falta de brilho na boca desmentem as palavras de uma casca que responde sim à pergunta “tá-tudo-bem?” mesmo que não esteja.
Olhar alguém com atenção diz mais do que muita frase. O silêncio fala mais do que a gente gostaria de ouvir.
Em tempos como os nossos, assistir aos discursos vendidos pela rede social em busca de informações que o texto não dá é de uma riqueza sem fim.
Dá pra notar a diferença da postura acuada à grandeza, em cenários mais e menos desconfortáveis. O jeito arredio vira sorriso largo, o que era opaco se acende. Até o movimento muda de lado. Os nãos ditos são enormes.
O contrário também vale. A firmeza que uma mulher livre de amarras exala, a força da voz de quem confia no processo e em si mesmo, a luz muito particular de quem não sente dor são recados do que vai dentro.
A linguagem do corpo então nem se fala: espinha ereta indica mente quieta e coração tranquilo como na canção; ombros retraídos e movimento descoordenado no geral refletem desânimos variados.
Será que é por isso que dizem que o mais profundo é a pele?
Gosto de pensar na frase daquele poeta, na contradição entre a superfície do maior órgão do corpo e a profundidade da vida. O olhar, a expressão, a timidez, o arrepio, a lágrima podem ser profundamente reveladores, um ponto de encontro entre o dentro e o fora. Uma inversão completa dos valores. Parece superficial, significa muito.
Talvez os afetos sejam mesmo o avesso da pele. Talvez seja de fato ali que o mundo interior se manifesta, no escancaro da superfície.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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