Até onde vai a maldade humana? Quanto longe somos capazes de chegar com o objetivo explícito de ferir alguém? Como, ao contrário, medir quanto de inabilidade houve num gesto, numa escolha, numa ferida, numa palavra, numa voz acima do tom? Em que lugar o mal deixa de ser trapalhada e vira intenção, projeto, desejo, método, cálculo, propósito?
Hiroshima, Vietnã, Ruanda. Não topar taxar os super-ricos. O tarifaço que veio do norte. Quando a única preocupação é salvar a própria pele. Negligência. Egoísmo. Fogo amigo. Notícia falsa. Esparadrapo na boca, legislar em causa própria. Morde-e-assopra. Traição.
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Quanto precisa de dor para satisfazer um selvagem?
Ser malvado significa colocar interesses e desejos individuais acima da moral universal. Um modo de operar que pode vir da vaidade, da sede de poder, da ditadura do umbigo, da ausência de reflexão, do exagero das paixões, de uma visão torta sobre o mundo e sobre si mesmo.
Auschwitz, Gaza, o massacre dos que estavam aqui antes de nós, defender a tortura, a fome de tanta gente. Humor de gosto duvidoso. As investidas pensadas sob medida para desestabilizar o outro. As conversas que fazem a gente se sentir minúsculo. 715 mil mortos e o deboche de onde se esperava proteção e providências.
Quanto horror pode se esconder atrás de um número?
Por outro lado, quantas batalhas a gente enfrenta pra escapar da maldade alheia e - pior - das crueldades mais íntimas, pessoais e intransferíveis? Como ser bom, a despeito dos estímulos contrários? Que atalhos pegar pra voltar ao prumo quando as coisas desandam por inteiro e sentimentos pouco nobres nos empurram pro abismo?
Certas caminhadas são de uma existência inteira. O plano é simples e complexo ao mesmo tempo. É manter a vida em movimento contínuo sem perder a medida do que importa. É não fazer com os outros o que a gente não gostaria que fizessem com a gente. É seguir a máxima de velhos tempos, atualíssima ainda, como uma Odete Roitman às avessas, de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém.