Comoções coletivas me comovem e vez ou outra me intrigam.
Com a partida de Preta Gil foi igual. Sem ser propriamente uma fã do seu trabalho, fiquei tocada pelo modo como tanta gente se emocionou com a vulnerabilidade dela e passou a celebrar a ousadia, a alegria e a coragem com que ela cuidou da própria vida.
É bonito ver um mundo conservador, machista, racista e gordofóbico valorizar uma mulher em tantos sentidos atrevida.
Há tempos admirava o jeito que ela se mostrou vulnerável diante da traição no casamento e do câncer, a forma como desprezou as convenções inatingíveis a respeito do corpo perfeito, a escolha de exaltar o amor pelos outros e por si mesma, a liberdade e a vida solar tão naturais na biografia dela. Testemunhar o quanto suas pequenas transgressões tocaram o grande público renovou minha abalada fé na humanidade.
Enquanto aprendi com o Gil pai que mistérios sempre há de pintar por aí e que ter potência é melhor do que ter poder, Preta revigorou a ideia de que as coisas do cotidiano são de alguma forma importantes, mesmo as ruins. Elas ensinam algo que seja, reforçam a casca, contrariam as idealizações, reduzem as expectativas.
Acreditar na vida como ela se apresenta, por mais difícil que seja, às vezes é a única saída.
Alguém disse, com toda razão, que a existência de Preta Gil reuniu vivências e adjetivos que são o contrário do que imaginamos sobre a morte. Que, especialmente quando alguém de características tão solares morre, o nosso cérebro e o nosso coração ficam ainda mais confusos para assimilar. Que a falta de controle da finitude nos bagunça.
Por outro lado, a partida pública daquela mulher parece nos levar a repensar o medo, a entrega e a força das fragilidades. Sua perda, mais principalmente a forma como ela escolheu caminhar diante da vida e da morte, nos estimula a refletir sobre as delícias de uma travessia sem tantas amarras e sobre como isso tende a tornar as partidas e os adeuses um pouco menos pesados.
Fácil não é, mas não deixa de ser um belo desafio.