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Crônica

Marzia Figueira e um jeito suave de ver a vida pela janela

Marzia Figueira foi uma das primeiras escritoras que conheci em carne e osso, anos antes de eu mesma trilhar o caminho da crônica. Aprendi com ela um pouco do malabarismo de escrever leve apesar da pressão do prazo

Publicado em 27 de Agosto de 2023 às 00:30

Públicado em 

27 ago 2023 às 00:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Autora
Capa de livro de Marzia Figueira Crédito: Reprodução/Facebook
Outro dia, durante a reorganização de uma estante no trabalho, me deparei com um livro que não via há alguns anos. Na capa branca, as marcas do tempo e a sombra da saudosa autora, do modo elegante como eu lembrava que ela era, com seus traços finos, figurino clássico, olhar delicado e curioso.
Marzia Figueira foi uma das primeiras escritoras que conheci em carne e osso, anos antes de eu mesma trilhar o caminho da crônica. Aprendi com ela um pouco do malabarismo de escrever leve apesar da pressão do prazo e também a tática da avó esperta que levava meias ao cinema para o caso de sentir frio durante o filme.
Naquele momento, éramos provavelmente mais concentrados e menos afoitos, mais compasso e menos pressa, mais volume e menos peso. Havia menos informação disponível, mas também mais tempo e temperança no jeito de tratar as coisas. Problema também havia, mas, graças ao filtro falho da memória, hoje eles parecem ligeiramente menores.
Na redação do jornal, como lá fora, corríamos muito, mas a velocidade e a multifuncionalidade que o mundo exige de nós atualmente consegue superar até mesmo o ritmo acelerado que a temida hora do fechamento nos impunha.
Não é que tenhamos nos tornado menos eficientes, menos hábeis, escreve um terceiro cronista. Em tudo o que nos exige comunicação e agilidade, ele diz, talvez nunca tenhamos sido tão funcionais. Mas e quando a virtude que buscamos vai no caminho oposto? O que fazer com a agenda abarrotada de deveres quando o que se quer passa pela contemplação, pela serenidade, pela profundidade, pela pausa?
Marzia, possivelmente, saberia desacelerar quando fosse preciso ou então apontar um caminho para nós, que aprendíamos com ela. O livro que reencontrei durante a reorganização de uma estante no trabalho, num dia de preocupações e cansaço acumulado, estava ali para lembrar que sim, ela saberia, possivelmente - era ”Os Inocentes”, que Marzia lançou antes de partir de forma precoce.
As crônicas reunidas naquele volume são Marzia em estado puro: um jeito suave de ver a vida pela janela e traduzir o que via, firme, romântica e generosa; um olho no passado e outro no futuro, como quem sabe que o filósofo tem razão quando diz que, quando alguém inventa o navio, também inventa o naufrágio.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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