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Crônica

Quando a vida nos lembra que certos clichês são verdadeiros

Assim, não mais que de repente, uma figura que antes ocupava um espaço imenso não significa mais nada, um incômodo que parecia imbatível simplesmente desaparece, uma angústia grandona dorme e acorda mansa, como se não houvesse existido

Publicado em 30 de Julho de 2023 às 00:30

Públicado em 

30 jul 2023 às 00:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

O tempo foi desde sempre um dos meus personagens favoritos. Um bom amigo, um santo remédio, um escudeiro fiel como o Sancho Pança de Dom Quixote, ele cura tanta coisa que acaba se redimindo dos pesos que carrega - da idade, das ausências, das dores de ambas, dos arrependimentos, das saudades e das rugas.
Assim, não mais que de repente, uma figura que antes ocupava um espaço imenso não significa mais nada, um incômodo que parecia imbatível simplesmente desaparece, uma angústia grandona dorme e acorda mansa, como se não houvesse existido.
Nos momentos difíceis, a gente às vezes esquece, mas a verdade é que quase tudo cabe no tempo. Doze meses de um ano, trinta dias de um mês, uma vida inteira de ginga, sereno e palavras inventadas, um esquecimento que faz um bem danado ao andar da carruagem.
Quase tudo cabe no tempo. Vírgulas, pontos finais, exclamações e as interrogações de um mundo silencioso à espera de respostas cabem no tempo; e da mesma forma saudade, apego, desejo, chá de sumiço, ressaca, cheiro no travesseiro, coração partido, recomeços, reformas e renovações; cabe quase tudo.
A digestão das coisas cabe no tempo, a compreensão e a transformação também. O amor, o trabalho, o cansaço, a esperança, as tensões, o vazio, o riso, a raiva, os afetos e os desafetos cabem no tempo. Eles se moldam à passagem dos anos, se acostumam às mudanças de temperatura e pressão, se contraem e distendem um dia depois do outro.
Close-up de mãos segurando ampulheta
O tempo Crédito: Freepik
É aquela história: cedo ou tarde, depois de um período e a certa distância, os pesos pesam menos e, passadas seis, sete ou oito horas de sono, dá até para reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso. Passadas quatro ou cinco semanas, a gente entende o que de fato precisa e que talvez devesse mudar aqui e ali. Passados dois ou dez anos, a gente nota, simplesmente, que acabou.
Apesar das rugas e das expectativas desfeitas, o tempo coloca diante de nós a possibilidade de distrair a mente com a música, cuidar do corpo com a respiração, suavizar os medos com o movimento. Apesar dos desgastes e das amarguras, o tempo coloca diante de nós a compreensão de que, depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.
Vez ou outra a vida nos lembra do quão verdadeiros são certos clichês.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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