São pouco mais de sete da noite, sete anos e uns dias depois de sua partida. O vento frio que bate na janela embala a memória a meio caminho entre a melancolia e o poema. O Mestre Álvaro indica que vai chover, e muito em breve chegaremos ao Dia Fora do Tempo.
Você certamente se lembraria que os ciclos dos maias se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. Que o dia 25 de julho não pertencia nem a um ciclo nem ao outro. E que, nas horas compreendidas entre o final do dia 24 e o início do dia 26, as tarefas seriam meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, dedicar-se à cultura para alimentar a mente e simplesmente respirar.
Quantas vezes passamos pelo Dia Fora do Tempo?
Gostaria de ter recebido uma visita sua nesta semana. É possível que conversássemos sobre as celebrações e o futuro, sobre livrar os pés dos sapatos que apertam, sobre tempos que pedem menos incendiários e mais bombeiros.
Pode ser que falássemos dos que vieram antes de nós e de como aprendemos com eles a rever e reaver nosso lugar no mundo.
Quem sabe falássemos sobre gostar mais de mesa do que de palco, sobre o pecado favorito do diabo e sobre o imperador que, depois de duas décadas de grandes conquistas, encontrou a felicidade em uma pequena horta na sua terra natal, avisando aos que pediam que ele voltasse ao poder:
- Se você visse meus lindos repolhos, não me pediria uma coisa dessas.
Certamente falaríamos do melhor remédio de todos e de como o tempo cura quase tudo, quase sempre. Desta vez evitaríamos mencionar os dias em que falta coragem. Não tocaríamos em assuntos ligados ao medo do futuro, às sessões de quimioterapia, aos mesquinhos, às saudades mais fundas e ao fundo do poço.
Talvez a conversa fosse mais uma vez sobre exílios, sobre lembrar os ausentes ou então sobre o destino ser menos importante que o deslocamento, na maioria das vezes.
É provável que falássemos também do alegre cortejo de despedida de Zé Celso Martinez Corrêa, da dança das bonitas lembranças e do que escreveram sobre ele no dia de sua morte. Quem sabe - acho que sim - concluiríamos que aquela frase boa de doer que disseram dele poderia ser também sobre você: "Não há morte que o morra".