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Resistência

De O Pasquim a Milson Henriques, o humor se mostra invencível

As alterações do humor ou a perda da capacidade de lidar com elas são o centro nevrálgico dos sintomas que se espalham pelas neuroses, psicoses e demências, para citar apenas três eixos.

Publicado em 22 de Fevereiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

22 fev 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

É a arte de fazer cócegas no raciocínio do outro. Talvez tenha sido a definição de humor pelo que me lembro, dada por Leon Eliachar. Rir do que não é falado, mas sempre sob metáforas. Uma ingênua anedota reserva para o final, que leva ao burlesco, à construção do texto. Na verdade, o humor nem sempre produz risos explicitamente. O humor de um modo geral leva ao impacto do que não é óbvio, criando algo que não foi dito, só fica metaforicamente subentendido. E assim vai.
Na minha pretensiosa experiência como psicanalista, constatei que as alterações do humor ou a perda da capacidade de lidar com elas são o centro nevrálgico dos sintomas que se espalham pelas diferentes modalidades de alterações do Ser, como as neuroses, as psicoses, as demências, para citar apenas três eixos.
O humor, minha senhora, é invencível em suas diversas formas.
Foi o apogeu da ditadura de 1964 no Brasil quando, por exemplo, o orador da turma de formatura da medicina da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Julinho Prattes de Mattos, avisado claramente pelos vigilantes do mal de que não poderia usar o espaço e a ocasião para pregar contra os raivosos elementos da repressão, teve que usar a criatividade, até porque o discurso era aprovado previamente pela censura. Melancólica profissão a de qualquer censura..
O documento a ser lido por Julinho estava bem ao gosto da rapaziada da repressão, militar e civil.
Porém – ah porém - na hora de falar, o orador emprestou a sua voz e realizou um discurso repleto de elogios ao sistema imposto a ferro e fogo durante a invasão do próprio país, usando como arma um baita tom de ironia, que é a forma desesperada e consistente do humor.
“Neste país onde não existia a liberdade de expressão, a violência…”. Julinho utilizou da ironia, sem mudar uma única palavra oficial do texto, foi até o fim “elogiando” o regime imposto. A censura presente não sabia fazer o de costume, usar a força bruta contra a inteligência. Eis uma das consagrações do humor que presenciei.
Eu vi o humor mostrar sua força em todo o país impregnado por torturas, sequestros e assassinatos oficiais através do semanário “O Pasquim”, editado no Rio de Janeiro para todo o Brasil. Um irretocável conjunto de gênios acertaram em cheio na inteligência nacional. Montaram o quartel general da lucidez, em um pequeno espaço de Ipanema. Deixa eu ver se me lembro de todos, ou quase. Dá-lhe memória traiçoeira.
Millôr Fernandes, Sergio Jaguaribe, Jaguar, Nara Leão, Ziraldo, Flávio Rangel, Zélio, Estela Freitas, Luiz Carlos Maciel, Henrique Filho, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sergio Augusto, Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta, Miguel Paiva, Prósperi, Claudius, Fortuna, Fausto Wolff, Rui Castro e muitos outros. E Leila Diniz, a musa do dourado Pasquim. O símbolo do hebdomadário era o ratinho Sig, criado por Jaguar, inspirado no nome de Sigmund Freud, este impossível de ser preso.
O Teatro de Arena, do grupo Geração, com o palco no centro da roda de espectadores, foi outra manifestação da arte, onde as metáforas denunciavam o que estava acontecendo no país. No mágico espetáculo “Arena conta Zumbi”, baseado na vida e morte de Zumbi, líder negro assassinado pelo governo imperial, apresentado no momento do golpe militarizado, tinha à frente Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, que criaram o modelo para todo o país. Na verdade, uma estratégia para enfrentar a censura, já que suas peças no teatro haviam sido proibidas.
Em Vitória, mais precisamente o jornal A Gazeta, punha em seu Segundo Caderno a “Opinião do Pessoal”, onde diferentes jornalistas davam sua colaboração em pequenas e bem humoradas notas importantes politicamente que obviamente teriam que ter certo cuidado para serem publicadas, sempre eram. A ditadura com seus grilhões não poupou nenhum rincão brasileiro de sua estupidez no mando tupiniquim.
Toninho Neves, o grande Milson Henriques, Claudio Lachini, Sheyla Bandeira, Zélia Stein, Cidinho Vasconcelos e grande elenco montaram o “Arena” no teatro Rubens Gomes, no centro da cidade, perto da Catedral. Os componentes dos movimentos de resistência capixaba lotavam a arena.
Senhoras e senhores contei, um conto, quem souber que conte outro.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, prefere comida.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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