O caminho que faço a pé ou de bicicleta sempre que possível dá a letra: gente espremida no ônibus depois de um longo dia de trabalho, o cansaço estampado no rosto de quem mora longe e demora mais do que devia para chegar em casa.
Do lado de fora, olho o trânsito parado na boca da ponte e os carros engarrafados em um processo que estica ainda mais o tamanho do expediente.
Penso no privilégio que é não precisar pegar ônibus diariamente nos horários de pico. Na calçada, os obstáculos também me lembram a sorte de poder caminhar livremente, sem restrições de movimento ou mobilidade, apesar de um ou outra dorzinha aqui e ali.
Já contei uma vez sobre
o experimento proposto pela escritora nigeriana Luvvie Ajayi aos participantes de uma palestra, em 2017, durante um encontro entre líderes de negócios, entretenimento, tecnologia e finanças. A autora convocou brancos, pretos, jovens, idosos, gays, transexuais, heterossexuais e pessoas com deficiência para subirem ao palco, formando uma linha, um com a mão no ombro do outro.
Ajayi fez aos integrantes do grupo perguntas sobre facilidades e dificuldades encontradas ao longo da vida. Dependendo da resposta, eles eram orientados a dar um passo adiante ou atrás. No final da ação, alguns estavam bem à frente dos outros, distantes o bastante para não conseguirem mais manter um a mão no ombro do outro.
Com raras exceções, o que se viu ali reproduzia a vida de todo dia e o quanto as diferenças separam apenas pelo gênero, raça ou orientação sexual. Homens à frente das mulheres, pretos e pretas sempre atrás, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIA + excluídos da maioria das oportunidades que homens heterossexuais brancos acessavam antes de todos.
O experimento da escritora nigeriana mostrou também que, entre os ocupantes das posições dianteiras, havia diferentes graus de clareza dos próprios privilégios. Os mais conscientes sabiam do poder de sua voz para reduzir o abismo que os separava dos outros.
Não basta não ser racista; é preciso ser antirracista, ensina Ângela Davis. Não basta “ter um primo gay ou um amigo preto” para se dizer livre de preconceitos; é preciso se posicionar claramente para defender o direito de existir com leveza e segurança dos negros e dos LGBTQIA +.
É preciso estimular a presença de pessoas com deficiência nos lugares e rotinas, criar alianças com as mulheres para combater a cultura da competição que nos ensinam desde muito cedo.
Privilégios, afinal, são permissões para executar determinadas atividades ou acessar áreas restritas, geralmente concedidas pelo gênero, pela cor da pele, pela orientação sexual ou pelo fato de que podemos nos movimentar livremente, enxergar, ouvir, pedalar ou caminhar para casa na volta do trabalho.
O modo como lidamos com eles diz algo importante sobre nós e nossa passagem pela Terra.