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Documentário

Filme sobre Belchior ilumina o papel da arte em tempos bicudos

Produção não chega a retratar este renascimento nem o sumiço de Belchior nos capítulos finais da vida. Sua missão parece ser, ao invés, revelar a maneira como o compositor encarava seu ofício

Públicado em 

23 abr 2023 às 00:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

O cantor Belchior
O cantor Belchior Crédito: Divulgação
Qual o caminho do fazer artístico? Quanto de seu resultado nasce da inspiração e quanto se faz de transpiração? Por quais vias passa a transformação de inquietudes, contradições, subjetividades e conversas de bar em música, filme, quadro, poema? Onde o cidadão e o artista se encontram e qual deles decide por onde seguir? Qual a responsabilidade de um e do outro na construção de um mundo melhor?
As questões do filme “Belchior – Apenas um Coração Selvagem” ajudam a compreender o espírito do cantor e compositor que morreu em abril de 2017, 70 anos vividos, 18 discos lançados e uma dezena de versos que atravessam os anos.
Mais do que isso, como convém às boas perguntas, elas se mostram reveladoras do papel da arte em tempos difíceis e de seu encontro com a política e a contestação.
A história é mais ou menos conhecida: Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nasceu em Sobral, no Ceará, em 1946. No início dos anos 1970, partiu para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo, em busca do êxito como compositor. Venceu festival, foi gravado por Elis Regina, fundou a própria produtora, colecionou sucessos.
Depois sumiu, andou recluso nos últimos anos de vida, envolvido em polêmicas.
Um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior; um cidadão comum, de bons modos, feito aquela gente honesta, boa e comovida que caminha para a morte pensando em vencer na vida, para citar duas de suas letras.
Um sujeito de sorte, para usar o título de outra composição, responsável por apresentar Belchior às novas gerações, em 2019, quando Emicida sampleou e amplificou o trecho que se tornaria um hino nos tempos difíceis da sequência.
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro.
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.
O filme não chega a retratar este renascimento nem o sumiço de Belchior nos capítulos finais da vida. Sua missão parece ser, ao invés, revelar a maneira como o compositor encarava seu ofício, o fazer artístico, suas influências e o próprio mundo.
Ray Charles e Beatles, Luiz Gonzaga, João do Vale e Jackson do Pandeiro, de Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire e João Cabral de Melo Neto, a filosofia e os estudos em colégio de padres, o olhar de retirante, a fome e o aperto financeiro, as utopias de seu tempo: Belchior via tudo com intensidade transformada em letra, política e música.
É disso que trata especialmente o filme de Camilo Cavalcanti e Natália Dias, não do homem e sua intimidade, mas do artista, seu fazer e o papel da arte em tempos bicudos.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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