Angela Belchior, irmã do cantor e compositor Belchior (1946-2017), está incomodada. O desconforto tem a ver com o que está impresso nas páginas de Belchior Apenas um Rapaz Latino-Americano, biografia do músico cearense escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros.
A obra, recém-lançada, é a primeira biografia do artista morto em abril deste ano. Até a notícia do seu falecimento, nada se sabia do paradeiro do compositor de sucessos como Paralelas e Como Nossos Pais, desaparecido há quase uma década.
Achei algumas abordagens (do livro) inconvenientes, resume a socióloga. O mal-estar a levou, ao lado do seu advogado Estêvão Zizzi, paulista que reside em Vila Velha, a escrever e divulgar uma nota de esclarecimento aos fãs e amigos de Belchior.
Segundo Zizzi, o texto foi produzido em razão de e-mails que ele recebeu de fãs questionando informação presentes no livro de Jotabê. Fizemos a nota porque ele (Jotabê) fala inverdades, completa Ângela, citando que, numa das passagens do livro, o autor dá a entender que a matriarca da família não havia feito parte do coral da Igreja de Sobral, cidade cearense onde nasceu Belchior.
Claro que ela cantou! Há pessoas em Sobral ainda vivas e que cantaram com ela, enfatiza. O Bel dizia que a influencia maior dele na hora de cantar era a mãe. E ela tinha isso como orgulho, critica ela.
Jotabê Medeiros explica que não colocou em descrédito o passado musical da mãe do artista. O que houve, ao seu ver, foi um problema de interpretação. O que eu disse foi que não acredito que a tradição de cantar na Igreja sirva de influência. Eu não acho isso uma influência decisiva, mas eu nenhum momento eu disse que ela (a mãe) mentiu, explica.
Outros equívocos
A entrada de Estevão Zizzi (que se diz amigo de Belchior desde a década de 1970) nesse imbróglio se deu, segundo ele, a pedido da família do músico. Eles me ligaram e pediram para que eu desse uma olhada no livro. O li de cabo a rabo e fiz uma postagem indicando os absurdos que encontrei, explica ele, que diz ter detectado outros equívocos na obra.
Um deles, de acordo com Zizzi , está na página 194 do livro. Nela há uma foto de uma criança sentada num balanço que o autor apresenta sendo Belchior. Na verdade, a foto é de Nilson, irmão dele.
Na mesma página, o registro fotográfico que indica ser a primeira comunhão do músico é, na verdade, de acordo com o advogado, Belchior com 14 anos recebendo o diploma do ginásio, em Sobral.
Angela agora quer tirar o livro de Jotabê de circulação. Tenha a maior vontade disso. A falta de respeito é desumana, enfatiza ela. O advogado engrossa o coro: Por enquanto, não tenho interesse em o processar o autor. No máximo tirar o livro do mercado, explica Estêvão, que diz estar escrevendo, ao lado de Angela, uma biografia oficial do músico.
Até o momento, de acordo com Jotabê, nenhum familiar ou representante do artista o procurou. Caso isso aconteça, ele diz estar disposto a ajudar. Se ela (Angela) apontar alguma questão, eu vou perfeitamente fazer a revisão e trocar a informação, reforça.
Nova biografia
Já com 300 páginas redigidas, a biografia de Belchior escrita por Angela Belchior e Estêvão Zizzi, já tem data para ser lançada. Pretendo lançar no ano que vem, no dia 26 de outubro, data em que ele completaria 72 anos, adianta a socióloga.
Há na obra, como conta Estêvão, uma entrevista inédita feita por ele em 2005 com o artista. Uma entrevista extensa, relembra o bate-papo. Ele me contou muita coisa da pessoa dele, como ele era, continua.
Como autor da primeira biografia do músico, Jotabê não vê com maus olhos o fato de a dupla estar escrevendo um novo livro. Eles têm o direito de fazer o livro deles. Vou ler com certeza, conclui, lembrando que grandes artistas como Frank Sinatra e Jim Morrison possuem inúmeras biografias, todas com abordagens diferentes acerca de suas respectivas vidas.