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Crônica

Quando uma livraria fecha as portas, um mundo todo se fecha com ela

Conheço gente que descobriu por lá que a própria companhia era boa. Gente que se entendeu como adulto, que encontrou um sentido, que criou laços e se desfez de nós

Publicado em 02 de Julho de 2023 às 00:20

Públicado em 

02 jul 2023 às 00:20
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Livraria Cultura situada no Conjunto Nacional, em São Paulo
Livraria Cultura situada no Conjunto Nacional, em São Paulo Crédito: Divulgação
A Livraria Cultura do Conjunto Nacional era um oásis, um respiro bem acabado na acelerada vida de São Paulo, um refúgio feito de pufes, escadas, rampas, carpetes coloridos e muitos, muitos livros.
Perdi as contas de quantas horas passei entre aquelas estantes, descobrindo ou redescobrindo autores, reencontrando velhas ideias ou desenhando novos projetos, refazendo mentalmente a refazenda toda enquanto folheava volumes, escolhia leituras, criava pedaços das minhas próprias histórias.
Na segunda-feira, a loja da Avenida Paulista, pertinho da Augusta, do metrô da Consolação, da Alameda Santos e de pelo menos uma dúzia de boas histórias, fechou oficialmente as portas, quase cinco meses passados de sua anunciada falência.
Três dias depois, uma liminar judicial autorizou a reabertura da loja, esticando por mais alguns capítulos a expectativa sobre o futuro e o sucesso ou fracasso da recuperação judicial da empresa.
O desfecho da livraria instalada em 1969 pela família da judia alemã Eva Herz no Conjunto Naci­onal segue aberto enquanto escrevo este texto.
Uma coisa, no entanto, é certa como a felicidade de ler um bom livro: quando uma livraria fecha as portas, um pedaço da história se fecha com ela. Quando uma livraria fecha as portas, um mundo todo de aventuras, momentos e memórias se encerra também.
Foi assim com A Edição do Centro de Vitória em que comprei, com o primeiro pagamento do primeiro estágio, um volume novinho de "O Amor nos Tempos do Cólera". A capa azul, hoje desbotada como certas lembranças, segue na prateleira, guardando a espera de Florentino Ariza por Fermina Daza durante 51 anos, 9 meses, 4 dias e respectivas noites.
Foi assim com a Dom Quixote, a Livraria da Ilha, a Logos perto de casa e tantas outras que vimos encerrar as atividades nos últimos anos. Conheço gente que descobriu por lá que a própria companhia era boa. Gente que se entendeu como adulto, que se formou como leitor, que encontrou um sentido, que criou laços e se desfez de nós.
As livrarias são fortes solitários, espalhando luz sobre a calçada, diz o escritor americano John Updike. Visitá-las e celebrar sua existência, para muitos de nós, ultrapassa o desejo ou a necessidade de comprar um livro.
Elas nos mostram saídas e possibilidades, até nos dias em que tudo parece perdido.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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