Quando uma livraria fecha as portas, um mundo todo se fecha com ela
Crônica
Quando uma livraria fecha as portas, um mundo todo se fecha com ela
Conheço gente que descobriu por lá que a própria companhia era boa. Gente que se entendeu como adulto, que encontrou um sentido, que criou laços e se desfez de nós
Livraria Cultura situada no Conjunto Nacional, em São PauloCrédito: Divulgação
A Livraria Cultura do Conjunto Nacional era um oásis, um respiro bem acabado na acelerada vida de São Paulo, um refúgio feito de pufes, escadas, rampas, carpetes coloridos e muitos, muitos livros.
Perdi as contas de quantas horas passei entre aquelas estantes, descobrindo ou redescobrindo autores, reencontrando velhas ideias ou desenhando novos projetos, refazendo mentalmente a refazenda toda enquanto folheava volumes, escolhia leituras, criava pedaços das minhas próprias histórias.
Na segunda-feira, a loja da Avenida Paulista, pertinho da Augusta, do metrô da Consolação, da Alameda Santos e de pelo menos uma dúzia de boas histórias, fechou oficialmente as portas, quase cinco meses passados de sua anunciada falência.
Três dias depois, uma liminar judicial autorizou a reabertura da loja, esticando por mais alguns capítulos a expectativa sobre o futuro e o sucesso ou fracasso da recuperação judicial da empresa.
O desfecho da livraria instalada em 1969 pela família da judia alemã Eva Herz no Conjunto Nacional segue aberto enquanto escrevo este texto.
Uma coisa, no entanto, é certa como a felicidade de ler um bom livro: quando uma livraria fecha as portas, um pedaço da história se fecha com ela. Quando uma livraria fecha as portas, um mundo todo de aventuras, momentos e memórias se encerra também.
Foi assim com A Edição do Centro de Vitória em que comprei, com o primeiro pagamento do primeiro estágio, um volume novinho de "O Amor nos Tempos do Cólera". A capa azul, hoje desbotada como certas lembranças, segue na prateleira, guardando a espera de Florentino Ariza por Fermina Daza durante 51 anos, 9 meses, 4 dias e respectivas noites.
Foi assim com a Dom Quixote, a Livraria da Ilha, a Logos perto de casa e tantas outras que vimos encerrar as atividades nos últimos anos. Conheço gente que descobriu por lá que a própria companhia era boa. Gente que se entendeu como adulto, que se formou como leitor, que encontrou um sentido, que criou laços e se desfez de nós.
As livrarias são fortes solitários, espalhando luz sobre a calçada, diz o escritor americano John Updike. Visitá-las e celebrar sua existência, para muitos de nós, ultrapassa o desejo ou a necessidade de comprar um livro.
Elas nos mostram saídas e possibilidades, até nos dias em que tudo parece perdido.
Ana Laura Nahas
É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura