Duas imagens fortíssimas que circularam estes dias retratam momentos da curta vida de um menino da favela. Na primeira, crianças choram a morte de um amigo, criança igual. Na segunda, o olhar do pai que enterra o filho revela a dor sem delícia de ser protagonista de uma malvada inversão na ordem natural das coisas.
Os tiros vieram da polícia. O policial, segundo familiares, atirou quando o menino já estava caído no chão. A corporação deu três versões diferentes para a história, alternando entre primeiro criminalizar o garoto e por fim dizer que seus homens reagiram a disparos vindos da moto em que ele estava.
Recebi as notícias com a tristeza de ver, mais uma vez, o mesmo tipo de personagem virar estatística - daquelas que, de perto, têm rosto, passado, nome e sobrenome.
Lembrei de quando, nestas peças que a vida prega, as estatísticas saem do noticiário para sentar no sofá, bem do nosso lado.
Rezei um pouco mais pelos meus para que, dentro do possível, sigam uma caminhada longa, pacífica e feliz. Pensei na dor dos que tinham o menino em boa conta.
Refiz mentalmente o raciocínio de um tempo atrás, de quando a notícia de outra morte nos mesmos moldes comoveu muitos de nós. A conclusão se manteve, sem tirar nem pôr: o racismo é perverso, agarrado na estrutura para além das pessoas. Ele opera diariamente, não apenas no olhar e nas práticas de gente comum, mas no olhar e nas práticas do mercado, da polícia, do sistema de saúde, da Justiça, e não é coincidência que a maioria das vítimas da violência tenha a pele silenciosamente da mesma cor.
“A esperança da criança - em especial preta e periférica - é permanecer viva. É pouco, e nem isso estamos fazendo”. A frase escrita pelo advogado Thiago Amparo em sua coluna de jornal, pouco depois da morte do xará da Cidade de Deus, resume bem o abismo em que estamos metidos.
Enquanto alguns de nós sonhamos com um domingo de sol, uma casa de campo, um carro novo, um jardim feito de plantas bem cuidadas, um amor verdadeiro ou quem sabe passar férias em Nova York, há crianças que têm o dia seguinte, a semana seguinte, o mês seguinte como metas.
A esperança da criança preta periférica: ficar viva. O garoto da Cidade de Deus que sonhava ser jogador de futebol não chegou longe na missão. Sua caminhada, interrompida por tiros vindos do lugar que devia proteger e preparar para o futuro, mostra que o preconceito venceu de novo e nós, como sociedade, perdemos de lavada.