É Fisioterapeuta, acupunturista e especialista em avaliação e tratamento de dor crônica pela USP. Entende a saúde como um estado de equilíbrio para lidar com as adversidades da vida de forma mais harmônica

Vazio interior: o que é essa sensação que 'rasga' o peito?

Não queremos sentir esse vazio interno, inútil, por isso o cobrimos, de forma doentia, com excesso de trabalho, comida, sexo, jogos ou qualquer outra coisa que preencha

Publicado em 25/01/2021 às 02h01
Homem dor no peito
Para atingir um estado de vazio que não rasgue o peito, é preciso ressignificar a solitude. Estar aberto e permitir uma meditação sem julgamentos dos pensamentos que virão. Crédito: Freepik

Há uma série de sentimentos que surgem ao experimentarmos a condição de vazio interior. Uma visão ocidental e cristã atribui esta condição totalmente humana a algo muito ruim, e relaciona à solidão e à depressão, ou ainda a uma sensação de não pertencimento e até alienação. Uma expressão que reforça esse sentimento é: “Uma mente vazia é oficina do diabo”. E a visão capitalista que nos torna ocupados demais para sentir qualquer ausência, alimenta a sensação negativa.

No luto naturalmente surge a experiência do vazio transmitido pela ausência da perda, e este é só mais um exemplo de como relacionamos a condição a algo a ser evitado, pois nos dilacera. Não queremos sentir esse vazio interno, inútil, por isso o cobrimos, de forma doentia, com excesso de trabalho, comida, sexo, jogos ou qualquer outra coisa que preencha.

Sob a ótica taoista e budista, o vazio é a natureza do caminho e a harmonia é a manifestação desse caminho. Há uma realização em encontrar-se presente na ausência, no não fazer, e isso se reflete em sabedoria para beneficiar a todos através de compaixão e liberdade. Diferentemente do olhar ocidental que pratica um evitar a circunstância do vazio, na visão oriental observa-se um estado de receptividade completa, há espaço para o bom entrar.

Fazendo um exercício de observação da natureza humana, comecei a prestar atenção no comportamento das pessoas quando estão desacompanhadas. Afundam-se em seus celulares, imediatamente. Dificilmente alguém contempla o ambiente em que está, visivelmente ninguém entra em si, frequentemente completam-se de qualquer companhia sem muitos critérios e evitam a própria presença.

No processo de adoecimento, segundo a medicina tradicional chinesa, quando nossa energia correta (representada de certa forma pela imunidade numa visão ocidental) está fraca ou deficiente, os fatores patogênicos se internalizam e a doença se aprofunda e se instala. Isso também ocorre quando estamos repletos de sentimentos nocivos, como raiva, frustração e insegurança. Tanto na deficiência quanto na repleção estamos susceptíveis. Quando estamos no Tao (via ou caminho) em busca da saúde, entendemos que o equilíbrio envolve a retidão de estar vazio para se completar, vigiando os pensamentos e as emoções e melhorando assim a imunidade.

Curiosamente, um dos sinônimos de vazio é a palavra livre. O vazio que sentimos é a percepção de uma liberdade sem freios. Quando nos curvamos, permitimos a plenitude, quando nos esvaziamos, consentimos o preenchimento. Para atingir um estado de vazio que não rasgue o peito, é preciso ressignificar a solitude, estar aberto e permitir uma meditação sem julgamentos dos pensamentos que virão. É ser livre.

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