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Prevenção

Precisamos tirar os óculos cor-de-rosa

As chances de se ter um câncer de mama são o resultado de uma soma de fatores internos e externos, não modificáveis e modificáveis, individuais e comunitários

Publicado em 05 de Outubro de 2020 às 11:30

Públicado em 

05 out 2020 às 11:30
Adrieli Borsoe

Colunista

Adrieli Borsoe

Outubro Rosa
Prédios e pontes iluminados em tons de rosa, camisetas, corridas...  Neste mês todos estão voltados para o câncer de mama. Crédito: Fernando Madeira
Outubro é um mês com perfume de rosas, além de ser o mais colorido. Prédios iluminados em tons de rosa, camisetas, corridas, participação de pessoas, entidades, organizações e empresas. Todos com o foco voltado para a conscientização do câncer de mama. É o mês mais conhecido pelas ações relacionadas ao tema representado por esta cor.
Ao longo dos anos acompanhando como profissional da saúde e, no último ano, observando como paciente diagnosticada com câncer de mama, vejo que o assunto gira principalmente em torno do acesso às mamografias e do autoexame da mama. Um gasto energético e movimentação de um mês inteiro voltado para prevenir por exames. Fato no mínimo curioso, uma vez que detectar e evitar a doença são coisas diferentes.
Neste contexto, é importante entender o que são fatores de risco e de proteção, definir o que é prevenção primária e secundária, discernir questões de políticas públicas da visão da indústria da “saúde”. É preciso tirar os óculos cor-de-rosa e talvez não estejamos preparados para esta conversa.
Podemos dizer que fatores de risco são as coisas que aumentam o risco de um indivíduo desenvolver uma determinada doença ou sofrer uma piora. Ao contrário disso, temos os fatores de proteção como aqueles que reduzem esse risco. As chances de se ter um câncer de mama são o resultado de uma soma de fatores internos e externos, não modificáveis e modificáveis, individuais e comunitários.
Dados mostram que nos Estados Unidos, pelo menos dois terços das mortes por câncer no geral estão relacionadas com quatro fatores principais: tabagismo, alimentação, obesidade e sedentarismo. E adivinha? Todos podem ser modificados. Quando se fala em câncer de mama especificamente, o consumo de álcool, idade, fatores hormonais, história reprodutiva, fatores ambientais e fatores genéticos/hereditários são acrescentados aos anteriores como fatores de risco. Como fator de proteção, temos a amamentação, essa manifestação poderosa que é intuitiva e primária, mas que promete resolver tantos problemas de saúde pública.
Por ser uma doença multifatorial, é difícil colocar apenas um dos fatores como causador, mas estima-se que aproximadamente 10% dos casos de câncer de mama vêm dessas questões genéticas e hereditárias, que não conseguimos modificar, infelizmente. Ainda assim, ter genes que favorecem o surgimento da doença não significa que irá desenvolvê-la.
Quando se fala em prevenção primária de doenças - reforçando que este é o maior objetivo desse texto a despeito da crítica aos meses coloridos - pensamos em ações voltadas para evitar a exposição aos fatores de risco citados previamente quando possível, e esse tipo de prevenção é uma estratégia extremamente barata. Já no caso da prevenção secundária, dizemos que é feita por meio de rastreamento e exames para diagnóstico precoce da doença, tornando maiores as chances de cura.
É muito importante dar visibilidade ao câncer que mais mata no mundo, isso não está em questão. Imagina que incrível levantar a bandeira dos bons hábitos de saúde e ter a possibilidade de ensinar a não ter câncer ao invés de achar em assintomáticos e tratar cedo? Precisamos aprender a manter a saúde ao invés de olhar tanto pra doença. Não quero esperar outubro que vem pra isso.

Adrieli Borsoe

É Fisioterapeuta, acupunturista e especialista em avaliação e tratamento de dor crônica pela USP. Entende a saúde como um estado de equilíbrio para lidar com as adversidades da vida de forma mais harmônica

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