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Saúde

O autogerenciamento da dor e a terceirização da saúde

O que você faz para sair de uma crise de dor? E o que você faz para não ter uma nova crise?  Perguntas como estas devem ser lançadas por quem sente a dor, e a direção do questionamento deve ser para dentro

Publicado em 19 de Outubro de 2020 às 17:46

Públicado em 

19 out 2020 às 17:46
Adrieli Borsoe

Colunista

Adrieli Borsoe

Dor nas costas
Buscar um profissional da área da saúde para ajudar a cuidar da nossa dor, não nos isenta do papel de agente ativo no nosso próprio bem-estar  Crédito: Arquivo A Gazeta
O que você faz para sair de uma crise de dor? E o que você faz para não ter uma nova crise de dor? Há algo que esteja fazendo ou que não esteja fazendo que pode estar desencadeando ou perpetuando a sua queixa? Perguntas como estas devem ser lançadas por quem sente a dor, e a direção do questionamento deve ser para dentro. Assim como a resposta deve vir de dentro também.
Num primeiro momento, livre de qualquer racionalização do que permeia o sofrimento, queremos sedar a dor, fazer cessar. Para isso, buscamos profissionais da área da saúde quando adoecemos e esperamos que façam alguma coisa para atingir este objetivo. Quando fazemos isso, terceirizamos a responsabilidade do cuidado e nos isentamos do papel de agente ativo no próprio bem-estar.
Está tudo bem buscar um profissional da área da saúde para ajudar a cuidar da nossa dor, desde que este seja um facilitador no processo, alguém que motiva e orienta no desenvolvimento de competências para se conhecer melhor e encontrar nosso maior potencial. Ouvir os chamados do corpo, entender seu funcionamento, adaptar-nos ao ambiente e as tarefas costumam ser ações intuitivas quando buscamos o autoconhecimento, mas este pode ser um ato compartilhado com alguém que tenha mais conhecimentos em saúde e consiga colocar-se ao seu lado neste caminho.
O autogerenciamento da dor tem como base, dentre outros aspectos, o monitoramento da própria condição de saúde e o desenvolvimento de habilidades a serem utilizadas na rotina de vida para manejo dos sintomas, do tratamento, das consequências físicas, psicológicas e dos hábitos diários.
Existem algumas habilidades em saúde que podem ser desenvolvidas, como o empoderamento do individuo que sente dor no aprendizado de estratégias de alivio da queixa, como alongamentos, exercícios específicos e relaxamento. Chamamos isso de resolução de problemas através da modulação da dor, o que envolve conhecer fatores de piora e melhora da dor em questão.
Após entender quais estratégias podem ajudar na resolução do problema, cabe ao paciente ter o poder da tomada de decisão. Ele precisa torna-se capaz de escolher no dia-a-dia quais medidas ensinadas o beneficiará, bem como definir quais recursos utilizará de forma prática para reproduzir na rotina. Sua escolha deve contemplar sua preferência e prazer em desempenhar as mudanças.
Assim que são definidos os recursos e as estratégias para resolução da queixa, são formulados os planejamentos com relação à frequência e o tempo de dedicação aos novos hábitos, buscando manter-se bem e não entrar novamente em crise de dor.
Por fim, chega o momento da autoadaptação, em que o indivíduo escolhe comportamentos espontaneamente com base na aprendizagem de habilidades estruturadas e nas experiências, individualizando a gestão da dor de acordo com sua realidade, refletindo questões financeiras, de ambiente de trabalho, relações interpessoais e de lazer.
A origem da palavra medicina deriva-se do latim “mederi”, que significa “escolher o melhor caminho”. A escolha do seu caminho em direção à saúde pode ser supervisionada, mas essencialmente necessita de um mergulho interno e muito autoconhecimento. A dor é um sinal. Sinais são manifestações que nos mostram algumas coisas. Sinais geram perguntas. Sempre sabemos as respostas.

Adrieli Borsoe

É Fisioterapeuta, acupunturista e especialista em avaliação e tratamento de dor crônica pela USP. Entende a saúde como um estado de equilíbrio para lidar com as adversidades da vida de forma mais harmônica

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