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STJ deve afastar ministro acusado de assédio após abertura de sindicância

STJ deve afastar ministro acusado de assédio após abertura de sindicância

Marco Buzzi se defendeu em sessão, mas titubeou sobre nome da vítima; ele apresentou atestado médico e disse que alegações "não correspondem aos fatos"

Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 16:53

BRASÍLIA - Ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) afirmam que o magistrado Marco Buzzi deve ser afastado como consequência da acusação de importunação sexual de que foi alvo. A tendência é que os integrantes da corte votem em maioria para que o ministro seja aposentado compulsoriamente do tribunal após conclusão de uma sindicância.

Buzzi apresentou sua defesa aos pares em sessão secreta da corte nesta quarta-feira (4). Falando no início do encontro, ele negou as acusações, disse que que foi pego de surpresa pela denúncia e que não sabia o motivo pelo qual a jovem de 18 anos, filha de um casal de amigos, estaria fazendo aquilo. Ele titubeou sobre o nome da garota, o que causou estranhamento em parte dos ministros.

Oito dos 29 ministros votantes foram contra a abertura da sindicância. Integram a corte 33 magistrados.

Marco Buzzi, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
Marco Buzzi disse ter sido pego de surpresa pela denúncia Crédito: STJ/Divulgação

Em nota, a defesa de Buzzi disse que existe uma tentativa de julgar e condenar o ministro "antes mesmo do início formal de uma investigação". Afirmou ainda que espera o momento oportuno para esclarecer os fatos.

A Folha de S.Paulo ouviu quatro magistrados que estavam presentes na reunião na quarta e que discutiram o tema com os pares nos últimos dois dias.

Depois do seu pronunciamento, o ministro saiu da sessão antes do fim. Nesta quinta-feira (5), ele foi internado no hospital DF Star, em Brasília, e apresentou um atestado médico ao tribunal. Segundo informou o STJ, não há previsão de alta.

Ainda nesta quinta (5), a jovem de 18 anos prestou novo depoimento ao CNJ no qual confirmou e detalhou as acusações anteriores.

Antes de a sessão de quarta (4) começar, houve um acordo entre os magistrados para que o resultado sobre a abertura ou não de um procedimento contra Buzzi fosse declarado de forma unânime, para evitar expor os magistrados.

Houve divergências. A ala contrária à instauração da apuração argumentou que a medida seria prematura e que seria melhor aguardar as conclusões da investigação criminal, que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal) sob a relatoria do ministro Kassio Nunes Marques, e do procedimento administrativo já em curso no CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Os processos administrativos têm como consequência a aposentadoria compulsória. Nesse cenário, Buzzi perderia o cargo de ministro, mas continuaria recebendo seus proventos. No STF, uma eventual condenação pelo crime de importunação sexual pode gerar pena privativa de liberdade – de um a cinco anos – e a perda dessa aposentadoria.

Nos bastidores do STJ, a situação é classificada como "a pior possível" para Buzzi, conforme narrou um ministro à Folha. Esse magistrado destacou não ver "clima para impunidade". Essa percepção é aguçada pelo fato de a mãe da vítima ser uma advogada conhecida e respeitada pela comunidade jurídica, com bom trânsito no STJ. O caso é considerado sem precedentes no tribunal.

A expectativa da cúpula do STJ é a de que a sindicância seja concluída em até 30 dias. Os ministros Antônio Carlos Ferreira, Isabel Gallotti e Raul Araújo foram sorteados para conduzir a apuração. A corte quer decidir por si o futuro de um de seus ministros, sem "terceirizar" isso para o CNJ.

De acordo com a denúncia, a família da jovem estava hospedada na casa de praia de Buzzi, no litoral catarinense. Ela foi tomar um banho de mar quando o ministro já estava na água. Ele teria tentado agarrá-la, mas ela conseguiu se soltar. Logo na sequência, narrou o acontecido aos pais. Todos deixaram a casa. Um boletim de ocorrência foi registrado.

Em nota, Buzzi informou que "foi surpreendido com o teor das insinuações" e que essas alegações "não correspondem aos fatos". O ministro disse que "repudia toda e qualquer ilação de que tenha cometido ato impróprio". A defesa da família diz que aguarda "rigor nas apurações e o respectivo desfecho perante os órgãos competentes".

O CNJ informou que o caso tramita na Corregedoria Nacional de Justiça sob sigilo, como determina a lei, "para preservar a intimidade e a integridade da vítima, além de evitar a exposição indevida e a revitimização". Em nota, disse que os depoimentos já foram colhidos na manhã de quarta-feira (4).

O ministro, de 68 anos, está na corte desde 2011. Antes, foi desembargador em Santa Catarina.

A defesa do ministro disse, na nota desta sexta (6), que é inaceitável o que chamou de "tentativa de julgar e condenar uma pessoa antes mesmo do início formal de uma investigação".

"Tribunais, com magistrados experientes e ritos depurados ao longo de séculos, não podem ser substituídos por 'juízes' e opiniões inflamadas e quase sempre anônimas no noticiário", disseram os advogados de Buzzi, no comunicado.

"Não é demais pedir serenidade e respeito ao devido processo legal. A defesa aguarda o momento oportuno para esclarecer os fatos e apresentar suas provas".

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