Publicado em 10 de julho de 2021 às 20:24
As promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile decidiram deixar a investigação sobre o mandante do homicídio da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes. >
As duas atuavam no caso desde outubro de 2018, quando foi adotada a linha de investigação que culminou na prisão dos dois acusados pelos assassinatos. A dupla formava a força-tarefa instituída pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para esclarecer a existência de mandantes do crime. >
De acordo com o jornal O Globo, que revelou o caso neste sábado (10), a saída se deve a divergências causadas pelo acordo de colaboração premiada fechado pelo MP-RJ com Júlia Lotuffo, viúva do ex-capitão da Polícia Militar Adriano da Nóbrega, miliciano também envolvido no suposto esquema de "rachadinha" no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ). >
Júlia afirmou ao MP-RJ que tinha pistas para indicar sobre os mandates do crime. As promotoras, porém, se sentiram alijadas na negociação com a viúva do miliciano. Simone e Letícia apontaram, segundo o jornal, "risco de interferência externa" na condução do caso. >
>
A dupla foi uma das responsáveis pela linha de investigação que levou à prisão do policial militar aposentado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz, acusados pelo crime. Elas atuavam no Gaeco (Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado) e passaram a integrar a força-tarefa montada para atuar na continuação do caso depois que deixaram o grupo especializado. >
A saída das duas da força-tarefa foi confimada pela Promotoria, que não descreveu a razão da decisão. >
"O Ministério Público confirma que as promotoras de Justiça Simone Sibílio e Letícia Emile optaram voluntariamente por não mais atuar na força-tarefa que investiga o caso Marielle Franco e Anderson Gomes. A Procuradoria-Geral de Justiça do MP-RJ reconhece o empenho e a dedicação das promotoras ao longo das investigações, que não serão prejudicadas. O MP-RJ anunciará em breve os nomes dos substitutos das promotoras na força-tarefa", afirma a nota. >
Essa é a primeira mudança relevante na condução do caso dentro do MP-RJ. A Polícia Civil, por sua vez, trocou pela quarta vez o titular da Delegacia de Homicídios, também responsável pela apuração. >
O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), de quem Marielle foi assessora antes de se tornar vereadora, cobrou explicação sobre a saída das promotoras do caso. >
"Uma delação premiada é importante. Mas ela pode estar querendo proteger alguém, desviar alguma coisa. As promotoras estavam há três anos no caso, com muita dedicação. Elas saíram por alguma razão. É preciso saber qual", disse o deputado. >
Pivô da demissão, a delação de Júlia Lotuffo ainda não foi homologada pela Justiça. A viúva do miliciano está atualmente em prisão domiciliar por decisão do ministro Reynaldo da Fonseca, do STJ (Superior Tribunal de Justiça). >
Ela ficou um mês foragida após a deflagração da Operação Gárgula, na qual é acusada de comandar a lavagem de dinheiro dos bens do miliciano, morto há um ano numa operação policial na Bahia. >
Júlia também é mencionada na investigação do caso das "rachadinhas". Ela teria intermediado o contato entre Adriano, na ocasião foragido, e a família de Fabrício Queiroz, apontado como operador do esquema de Flávio. >
Como a Folha mostrou, a Operação Gárgula confirmou o método de contato apontado pelo MP-RJ entre pessoas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro e o miliciano, quando Adriano já estava foragido, em dezembro de 2019. >
A apuração do caso das "rachadinhas" mostrou que Márcia Aguiar, mulher de Fabrício Queiroz e ex-assessora de Flávio, e Luiz Botto Maia, advogado do senador, foram até o interior de Minas Gerais se encontrar com Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano e também ex-funcionária do filho do presidente Jair Bolsonaro. >
Trocas de mensagens no celular de Márcia indicam que o objetivo do encontro era estabelecer contato com Adriano, em fuga sob acusação de comandar a milícia de Rio das Pedras. >
As mensagens também sugerem que Júlia Lotuffo também participou do encontro. Esse foi um dos argumentos para prisão de Queiroz em junho do ano passado, atualmente revogada. >
Adriano era amigo e foi companheiro de batalhão de Fabrício Queiroz, amigo do presidente Jair Bolsonaro e apontado como operador financeiro da "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro (Repiblicanos-RJ) na Assembleia do Rio. >
O miliciano teve a ex-mulher e a mãe lotadas no gabinete de Flávio, ambas denunciadas junto com o senador sob acusação de envolvimento no esquema de desvio de dinheiro público. >
O ex-capitão foi morto num sítio em Esplanada (170 km de Salvador) em 9 de fevereiro de 2020 numa operação da Polícia Militar da Bahia com a participação de agentes fluminenses. >
A polícia da Bahia afirma que ele disparou contra os agentes quando foi localizado. Ele estava foragido havia um ano sob acusação de comandar a milícia da favela Rio das Pedras.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta