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Justiça mantém anulação de expulsão de aluno da USP acusado de importunação sexual

Justiça mantém anulação de expulsão de aluno da USP acusado de importunação sexual

Victor Henrique Ahlf Gomes, 23, teve sua matrícula encerrada em outubro de 2024 por acusações de calúnia, difamação e importunação sexual, contra a ex-namorada, além de racismo

Publicado em 5 de dezembro de 2025 às 14:09

Cartaz instalado por estudantes da Faculdade de Direito da USP
Cartaz instalado por estudantes da Faculdade de Direito da USP Crédito: Divulgação/Centro Acadêmico XI de Agosto

A Justiça de São Paulo ratificou em segunda instância a anulação da primeira expulsão da Faculdade de Direito da USP e determinou que a instituição diplome o aluno afetado. Victor Henrique Ahlf Gomes, 23, teve sua matrícula encerrada em outubro de 2024 por acusações de calúnia, difamação e importunação sexual, contra a ex-namorada, além de racismo. Desde então, recorria da decisão. Em março deste ano, a juíza Gilsa Elena Rios, da 15ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, anulou o PAD (Processo Administrativo Disciplinar) contra o estudante. A USP recorreu. Nesta quarta-feira (3), o Tribunal de Justiça paulista negou o recurso.

A 5ª Câmara de Direito Público, em julgamento unânime, entendeu que a expulsão foi "desproporcional" aos fatos apresentados. Para os desembargadores, o caso "não ultrapassa os limites acobertados pela liberdade de manifestação" e a suposta importunação sexual teria ocorrido fora do ambiente universitário. Assim, nada teria a ver com a instituição. Segundo a decisão, a Faculdade de Direito deve realizar a colação de grau e conceder o diploma a Ahlf. A advogada dele, Alessandra Parmigiani, comemorou a decisão, dizendo ter sido muito importante ter enfrentado todas as questões.

A USP ainda pode recorrer ao STJ (Superior Tribunal de Justiça). Questionada se pretende fazer isso, a universidade não respondeu até publicação deste texto.

Entenda

O caso começou em meados de 2022, quando o então graduando terminou com a namorada, que havia conhecido no início do curso, dois anos antes. Ele relatou que a jovem teria começado a espalhar os motivos da separação, afirmando ter sido agredida e abusada sexualmente. Gomes tomou duas medidas contra a ex: registrou um boletim de ocorrência e pediu à USP uma sindicância por calúnia, difamação e perseguição.Durante a investigação, conduzida por um grupo de professores, a junta suspeitou de que o acusador seria o autor dos delitos referidos e ainda praticaria violência psicológica contra a companheira.

Foi anunciada, então, a abertura de um processo administrativo contra o jovem. Alegando ser vítima, o estudante apresentou capturas de tela com mensagens que mostrariam, na verdade, agressividade de sua parte, segundo a apuração. Além da garota, ele também teria ameaçado e ofendido amigas dela.

O relatório da USP recolheu depoimento afirmando que Gomes também teria realizado "depreciação jocosa da aparência e da residência de uma estudante negra à luz de seus — olhos arianos'", por ela não ter "o sangue puro dos alemães". Em sua defesa preliminar, Gomes argumentou padecer de imaturidade afetiva inerente à sua juventude e que buscava apenas uma retratação pública da ex-companheira, a qual acusou de espalhar mentiras por ciúmes.

Vinte testemunhas foram ouvidas e sustentaram a versão de que o aluno seria agressivo. Nas suas alegações finais, o graduando chamou as testemunhas de mentirosas e defendeu anulação do processo administrativo contra ele.

Em setembro de 2024, a comissão decidiu pela sua expulsão da USP por atentado aos bons costumes e perturbação dos trabalhos escolares e da administração, ilícitos previstos no código de ética da universidade. Para os responsáveis pelo processo, os atos dele foram extremamente graves e, além de violarem preceitos éticos fundamentais da universidade, abalaram a comunidade acadêmica.

A decisão foi referendada pela Procuradoria Geral da instituição e oficializada pela congregação da Faculdade de Direito, em outubro ."DRs [discussões de relação] são fatos normais e aceitáveis na vida de casais, o que ocorreu não é normal nem aceitável, embora talvez seja tristemente frequente", escreveu o professor Rafael Mafei na ata da congregação. Ao final do processo, o graduando já estava no último semestre, com sua colação de grau marcada.

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