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Grupos de apoio e promessas ajudam a controlar vício em celular e jogos

No ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou o vício em jogos online como distúrbio mental

Publicado em 07 de Dezembro de 2019 às 13:30

Redação de A Gazeta

Publicado em 

07 dez 2019 às 13:30
Pessoa jogando vídeo game Crédito: pixabay
FOLHAPRESS- Regras para a família em casa, uso de ferramentas do celular, busca por grupos de apoio e até promessa. Para colocar limites no uso de tecnologias, e aplacar a ansiedade, usuários dependentes do mundo digital e familiares adotam diferentes estratégias. 
Neste domingo (8), é realizado o Desafio Detox Digital Brasil, campanha do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos para incentivar os brasileiros a passar 24 horas longe da internet.
A psicóloga Paula Penteado, 50, mãe de três filhos de 20, 18 e 7 anos, estabeleceu regras para uso de tecnologias.
Na hora das refeições, mexer em aparelhos eletrônicos nem pensar. E a filha caçula, Laura, só pode assistir a vídeos no tablet depois de jantar e do banho, por 45 minutos. 
A psicóloga nem sempre foi rígida quanto ao uso das tecnologias. Quando os dois filhos mais velhos eram pequenos, colocar limites era mais difícil. Brigas eram constantes. A preocupação maior era o videogame. "A gente não sabia lidar na época, não tinha tanta informação disponível. Hoje, sabemos o quanto o excesso faz mal", afirma.
No ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou o vício em jogos online como distúrbio mental.
Foi por causa do vício do filho em jogos online que Maria (nome fictício) procurou o Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). 
O filho, no início da adolescência, costumava passar muitas horas na frente do computador e tinha ataques de fúria quando ela tentava restringir o uso. Nas férias, por exemplo, chegava a passar um dia inteiro imerso em jogos. Começou a apresentar mau rendimento na escola. 
"[As pessoas não costumam perceber o vício] porque é muito cômodo o filho ficar quietinho lá no computador sem amolar ninguém, está seguro dentro de casa. A questão é: até que ponto vai ficar de frente para a tela sem curtir a vida, tomar sol, sair com amigos, jogar bola?"
Buscou uma psicóloga, mas não deu certo. Em meio a pesquisas sobre o assunto, um amigo indicou o grupo na USP. O lugar oferece atendimento e orientação a pacientes ou pais dos que desenvolveram dependência tecnológica. 
A experiência de ouvir outros pais falando sobre suas histórias e erros e acertos foi um divisor de águas para Melina. Os encontros são a cada 15 dias e incluem pessoas de diferentes idades. Ela os frequentou por cerca de dois anos. 
A solução encontrada para conter o filho foi encher a rotina dele com atividades físicas e na escola.
Hoje o rapaz tem 16 anos. Ainda joga, mas menos do que antes. Só não pode ir mal na escola. "São os pais que devem colocar ordem. Quem paga a internet somos nós. Mas, quando você está dentro da situação, tem medo da reação do filho", diz ela. 
Crianças e adolescentes são mais suscetíveis a desenvolver dependência tecnológica, porque o córtex pré-frontal, parte do cérebro ligada ao controle dos impulsos e concentração, ainda não está completamente formado, explica o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do grupo da USP. 
Ele conta que já houve casos de pacientes no Instituto de Psiquiatria que urinavam nas calças e não dormiam porque não conseguiam abandonar os jogos. Um deles ficou conectado por 55 horas. "Não tem mais 'game over'. Se você sai do jogo, desassiste colegas e sofre represálias", diz. 
O jogo libera dopamina no cérebro, substância que dá sensação de prazer e bem-estar, explica a psicóloga Anna Lucia King, fundadora do Instituto Delete, núcleo especializado em "detox" digital da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
O cérebro aprende de onde obteve as sensações e quer voltar a repetir o comportamento. "O jogo foi feito para viciar. E as redes sociais são como um joguinho --ganhar uma curtida é como ganhar a etapa de um jogo. Dá muito prazer", explica a especialista. 
A advogada Ana Luisa Guerra, 31, adotou uma tática diferente: apaga o Instagram de tempos em tempos no celular e faz promessa para não usar. "Se baixar, terei que doar dinheiro para uma instituição de caridade", diz. 
Ansiedade, depressão e fobia social são algumas das consequências do uso excessivo de tecnologias, segundo os especialistas.
Deixar de fazer atividades da rotina, usar o celular em todos os lugares, ficar irritado quando não há sinal, noites mal dormidas, distração e ansiedade ao não postar são alguns sinais indicativos de que há um exagero no uso.
Em alguns casos, é considerado vício. Mas, em outros, é apenas falta de educação e etiqueta digital, diz King, autora de um livro sobre o assunto. 
Neste ano, o Google apresentou iniciativa curiosa para promover o "detox" digital: o Paper Phone, espécie de agenda de papel com informações como contatos, jogos e previsão do tempo impressas.
"Detox não é se livrar da tecnologia, mas usá-la de forma sensata", diz Nabuco. "É preciso fazer com que ela me sirva, e não eu a ela."
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