Os escândalos do abjeto caso Epstein e das novas informações a respeito das relações, no mínimo comprometedoras, entre o ministro Toffoli e Vorcaro/Banco Master, a despeito das diferenças evidentes de natureza e gravidade, têm um ponto em comum incontornável: o poder. Não apenas o poder institucional, mas o poder como estrutura invisível de influência, proteção e blindagem.
No episódio norte-americano, exploração sexual contra crianças e adolescentes, tráfico humano, perversidades com tons ritualísticos e crueldade aparecem como faces monstruosas de um sistema muito maior. Não se trata apenas de crimes individuais, mas de uma engrenagem sustentada por influência política, lobby, conexões empresariais e acesso privilegiado a centros decisórios globais.
O que choca não é somente a brutalidade dos atos, mas a rede de proteção que os envolvia. Seletos barões de uma elite que não apenas acumulam riqueza, mas circulam em esferas onde a responsabilização parece sempre improvável. A sensação que se impõe é a de que há camadas sociais para as quais as regras comuns simplesmente não se aplicam.
Aqui, em terras brasilis, em outro campo de perversidade e corrupção (ainda que de natureza distinta), desnuda-se também uma rede de domínio econômico e político que se beneficia da proximidade com o poder institucional. A relação entre interesses financeiros e decisões jurídicas sempre suscita questionamentos éticos profundos. O problema não é apenas jurídico; é moral e simbólico. Quando há suspeita de conflito de interesses, a confiança pública é abalada. E confiança é o capital invisível que sustenta qualquer democracia.
O irônico, ou melhor, desesperador é ouvir de seus pares, ministros do STF, a afirmação de que não haveria nada que desabonasse Toffoli como relator de um caso e que sua saída teria sido um ato livre e individual de consciência. Em situações que envolvem possível comprometimento, não basta agir dentro da formalidade técnica; é preciso considerar também a dimensão ética e a percepção pública.
A legitimidade das instituições depende não apenas de decisões corretas, mas de transparência inequívoca. Na verdade, se houvesse um compromisso ainda mais rigoroso com a lisura institucional, a hipótese de inclusão como investigado seria, ao menos, debatida com maior seriedade.
Influência, manobras, injustiça, perversidade e, dependendo do nível de capital econômico dos envolvidos, impunidade são componentes recorrentes nos espaços de poder. A história demonstra que sistemas fechados tendem a se autopreservar. Sejam em negócios milionários, em conluios financeiros ou em esquemas de violência sexual, para alguns que dominam as engrenagens institucionais, as atrocidades parecem não encontrar limites proporcionais às suas consequências.
Como diz o sábio: “Quem ama o dinheiro jamais se farta…” (Eclesiastes 5.10a). A advertência antiga permanece atual. O desejo desmedido por controle, influência e acumulação cria zonas cinzentas onde a ética se dissolve. Alguns passam a agir como se fossem donos do sistema (e, em certa medida, tornam-se).
O ponto de convergência não está na identidade dos crimes, mas na estrutura que os permite prosperar. Onde há poder sem fiscalização rigorosa, há risco de degradação moral. Onde há riqueza sem responsabilidade, há espaço para abuso.
Que haja justiça. Efetiva, dura e radical justiça. Porque, sem ela, o poder deixa de ser instrumento público e se transforma em mecanismo de dominação.
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