Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 06:09
O escândalo do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, deverá desembarcar de vez no Congresso Nacional após o Carnaval. >
O comando da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS aceitou o pedido feito pela sua defesa na terça-feira (3/2) para adiar o seu depoimento, previsto para a quinta-feira (5/2).>
Se nada mudar até lá, será a primeira vez que Vorcaro falará diante dos holofotes da opinião pública. Até então, ele só havia prestado depoimento de forma reservada à Polícia Federal e a portas fechadas, na sede do Supremo Tribunal Federal (STF), onde o caso tramita.>
Oficialmente, Vorcaro foi convocado na condição de testemunha e não na de investigado. Dessa forma, ele tem obrigação de comparecer ao depoimento sob pena de ser levado a depor com o auxílio policial.>
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Procurada pela BBC News Brasil sobre a ida de Vorcaro à CPMI do INSS, a assessoria de imprensa do banqueiro disse que não comentaria o assunto.>
De acordo com o requerimento que aprovou a sua convocação, Vorcaro vai à CPMI falar sobre a atuação do Banco Master no mercado de empréstimos consignados a aposentados e pensionistas, objeto da investigação da comissão.>
Mas deputados e senadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que as perguntas a serem feitas pelos parlamentares não deverão se restringir apenas a possíveis irregularidades no empréstimo consignado.>
Isso se explica pelo fato de que, ao longo dos últimos meses, Vorcaro se tornou o pivô de um escândalo financeiro com possíveis ramificações no mundo empresarial, político e judiciário.>
Vorcaro era o controlador do Banco Master e do Will Bank, ambos liquidados pelo Banco Central nos últimos meses por problemas quanto à liquidez e suspeitas de violação das leis que regem o sistema financeiro no Brasil.>
A liquidação gerou um rombo de aproximadamente R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que permite o reembolso de parte dos clientes que investiram nas duas instituições.>
Vorcaro também é suspeito de ter sido um dos responsáveis por transações fraudulentas envolvendo a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito para o Banco de Brasília (BRB), vinculado ao governo do Distrito Federal. Sua defesa, no entanto, alega inocência.>
Ao longo dos últimos meses, reportagens apontaram que Vorcaro mantinha ligações próximas com políticos tanto da oposição como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), quanto com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, ligado ao PT, além do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).>
Reportagens também revelaram que Vorcaro firmou contratos com familiares de ministros e ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), levantando suspeitas sobre a influência que o banqueiro teria sobre a cúpula do Judiciário brasileiro.>
Parlamentares ouvidos pela BBC News Brasil apontaram quais deverão ser os principais tópicos durante o depoimento de Vorcaro à CPMI do INSS.>
Para o vice-presidente da CPMI do INSS, deputado federal Duarte Jr (PSB-MA), um dos principais temas a serem questionados a Vorcaro será a sua suposta ligação com ministros e ex-ministros do STF.>
"Ele vai ter que explicar qual o nível de vínculo que ele tinha ou ainda tem com os ministros do Supremo", diz o parlamentar.>
Os primeiros indícios da proximidade de Vorcaro com magistrados do STF surgiram no final do ano passado quando a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicou uma reportagem informando que o Banco Master havia contratado por R$ 129 milhões o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.>
Poucos dias depois, o jornal publicou que Moraes teria conversado com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, por quatro vezes fazendo "pressão" em favor do Master antes de o banco ser liquidado.>
Em nota divulgada sobre o assunto, a assessoria do STF afirmou que Moraes teve duas reuniões com o presidente do BC para tratar dos efeitos da Lei Magnitsky — "a primeira no dia 14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/07; e a segunda no dia 30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no dia 22/09. Em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente a aquisição do Master pelo BRB".>
A nota também dizia que o escritório de Viviane Barci de Moraes não atuou na tentativa de o BRB comprar o Master, transação que não se concretizou e que levou à abertura de uma investigação criminal sobre o assunto.>
Os parlamentares também querem questionar Vorcaro sobre sua possível ligação com o ministro Dias Toffoli, que é o relator da investigação no Supremo.>
Toffoli assumiu a relatoria do caso em dezembro do ano passado, já depois da liquidação do Master. Desde então, sua atuação no caso vem gerando polêmica.>
Sua primeira medida foi atender a um recurso dos advogados de Daniel Vorcaro pedindo que as investigações da Operação Compliance Zero fossem remetidas para o Supremo, após a PF ter identificado indícios de transações comerciais entre Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA).>
Logo depois, Toffoli impôs sigilo sobre a tramitação do caso.>
As polêmicas se ampliaram no dia 7 de dezembro, depois que o jornal O Globo revelou que o ministro viajou em um jatinho privado para Lima, no Peru, com o advogado Augusto de Arruda Botelho, que defende o executivo do Banco Master Luiz Antônio Bull. À época, Bull já havia sido alvo da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master.>
Uma semana depois, Toffoli deu mais uma decisão favorável à defesa de Vorcaro e determinou que os dados das quebras de sigilo bancário e fiscal de Vorcaro, determinadas pela CPMI do INSS fossem retirados da comissão e encaminhados para a Presidência do Senado.>
Toffoli também determinou a acareação entre executivos do Banco Master e o diretor de fiscalização do Banco Central, Aílton de Aquino Santos, o que causou surpresa junto à cúpula do BC.>
No início de janeiro a pressão sobre a condução de Toffoli sobre o caso aumentou depois que veículos como o jornal Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e Metrópoles revelaram que irmãos de Toffoli teriam vendido ações de um resort no interior do Paraná em uma transação milionária com um fundo de investimento ligado à gestora Reag, que mantinha vínculos com o Banco Master.>
Uma reportagem do portal Metrópoles apontou que, desde dezembro de 2022, Toffoli passou 168 dias no resort.>
Desde que os vínculos da família Toffoli com o resort Tayayá foram revelados, o ministro não se manifestou publicamente sobre o assunto.>
"Nós vamos questionar sobre as relações dele com o ministro Toffoli, o contrato com a esposa de Alexandre de Moraes e sobre o qual os ministros não falam nada. O Brasil precisa entender o que está acontecendo", diz o senador Eduardo Girão (PL-CE), que é membro da CPMI do INSS, à BBC News Brasil.>
Outro ponto que deve entrar no radar dos parlamentares é a relação de Vorcaro com outros políticos. Em depoimento à PF, Vorcaro admitiu que recebia integrantes de "todos os poderes" em sua mansão avaliada em R$ 34 milhões em Brasília.>
"Eu tenho alguns amigos de todos os poderes. Não consigo nominar aqui individualmente quem frequentava a minha casa", disse o banqueiro.>
Em Brasília, Vorcaro é apontado como próximo ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e ao presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda.>
Um dos indícios da atuação de Nogueira em favor de Vorcaro no Congresso Nacional é uma emenda parlamentar apresentada por ele que aumentava o limite de ressarcimento do FGC de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ para R$ 1 milhão em caso de liquidação de instituição financeira.>
A emenda tem sido apontada por analistas do mercado financeiro como favorável ao Banco Master pois, segundo Vorcaro em seu depoimento, o modelo de expansão do seu banco se baseava em captar recursos pela emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando taxas de retorno acima do mercado e oferecendo o ressarcimento do FGC como garantia.>
"O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo", disse Vorcaro em depoimento.>
Procurado pela BBC News Brasil, Nogueira não respondeu ao contato.>
Outro político com o qual Vorcaro teria contato é o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.>
Em seu depoimento à PF, o banqueiro afirmou ter conversado com Ibaneis sobre a tentativa de venda do Master para o banco público BRB, do governo do Distrito Federal.>
"Já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença (...), também", disse.>
Ibaneis, por sua vez, negou, ao portal UOL, ter conversado sobre a transação com Vorcaro.>
"Eu nunca tratei com ele (Vorcaro) sobre a operação BRB-Master. Todas as tratativas foram feitas pelo Paulo Henrique (Costa, então presidente do BRB)", disse ao portal.>
Veículos de imprensa também revelaram que Vorcaro manteve reuniões com outros políticos, inclusive com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).>
Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Vorcaro teve um encontro fora da agenda oficial com Lula em dezembro de 2024 intermediado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuou como consultor do Banco Master.>
No depoimento dado por Vorcaro à Polícia Federal, o banqueiro negou que tivesse contado com a influência de políticos em suas transações.>
"Eu queria só dizer o seguinte: se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", disse o empresário.>
Outro político com proximidade a Vorcaro é o ex-presidente Michel Temer (MDB).>
Outras possíveis relações políticas de Vorcaro são com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Isto porque seu cunhado, Fabiano Zettel, que também foi alvo da Operação Compliance Zero, foi o maior doador individual para as campanhas de Bolsonaro e Tarcísio em 2022.>
Cunhado de Daniel Vorcaro, e um dos alvos da operação desta quarta-feira (14/1), foi o maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022.>
Casado com Natália Vorcaro Zettel, irmã do banqueiro, ele transferiu R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a do governador de São Paulo.>
As conexões políticas de Vorcaro são o que motivou a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) a fazer um requerimento de informação junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre os voos de três jatinhos particulares usados pelo banqueiro.>
"A gente quer saber quem é que voou nos aviões do Vorcaro. Esses dados vão nos ajudar a descobrir quem é que era próximo ao banqueiro e usava desses favores", disse o senador Eduardo Girão.>
Para o professor Marco Antonio Teixeira, os indícios são de que Vorcaro teria informações o suficiente causar um abalo significativo no universo político brasileiro.>
"O que todo mundo diz é que o Vorcaro tem arsenal para afetar a República e não apenas um grupo político. Era alguém com desenvoltura em todos os poderes. Não à toa há uma parte dos congressistas tentando blindá-lo", alerta o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marco Antônio Teixeira.>
O deputado federal Duarte Jr diz à BBC News Brasil que ainda não é possível falar abertamente sobre a atuação de parlamentares tentando proteger Vorcaro no Congresso.>
"Não dá pra falar disso nesse momento, mas é nos próximos dias que a gente vai ver se haverá deputados ou senadores saindo em defesa de Vorcaro ou tentando blindá-lo".>
O terceiro ponto que deverá ser alvo de questionamentos na CPMI do INSS será a atuação do Banco Master junto a o mercado de empréstimos consignados com desconto na folha de pagamento de aposentados e pensionistas.>
O Master, assim como outros bancos, atuava neste segmento que é o alvo principal das investigações da CPMI do INSS.>
A comissão começou após reportagens e investigações revelarem um esquema ilegal de descontos em folha de pagamento feito por associações supostamente sindicais e que desviaram pelo menos R$ 6 bilhões.>
"Nós já temos documentos apontando um prejuízo de R$ 92 milhões sobre aposentados que tinham vínculo com o Banco Master. A gente quer saber se o Vorcaro afetou ou não a aposentadoria dos brasileiros", afirmou o vice-presidente da CPMI do INSS, Duarte Jr.>
Na segunda-feira (2/2), o portal G1 publicou uma reportagem informando que o INSS vem cobrando que o Banco Master apresente provas de que seus clientes com empréstimos consignados autorizaram essas operações antes do início dos descontos em folha.>
A suspeita é de que essas operações tenham sido feitas sem o consentimento de pelo menos 250 mil clientes.>
Desde novembro, o INSS bloqueou repasses de R$ 2 bilhões em parcelas que deveriam ser destinadas a Banco Master.>
Em nota citada pela reportagem, o Master disse que "sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento".>
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