Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 18:09
Quando a missão Artemis II pousar na Lua, nos próximos anos, sua tripulação terá de lidar com um ambiente hostil e com um isolamento extremo. >
O que será necessário para prosperar em uma base lunar solitária?>
"O Espaço é bastante desafiador", diz Victor Glover, astronauta da Nasa, a agência espacial americana. "É mais difícil do que parece. E isso não é algo que dizemos com frequência.">
A BBC conversou com Glover um pouco antes da missão fatídica da nave Starliner da Boeing à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). >
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Mais tarde, quando o sistema de propulsores da cápsula falhou durante a atracação, a tripulação acabou presa no espaço por oito meses.>
O astronauta em breve assumirá os controles da Artemis II, pilotando a primeira cápsula Orion tripulada além da Lua — mais longe do que os humanos já foram. >
Durante dez dias, Glover viverá em um pequeno compartimento pressurizado com outros três companheiros.>
Ele ressalta a complexidade da missão. "Temos um tanque cheio de água e, à medida que bebemos essa água, ela acaba", diz. "Temos comida e, à medida que comemos, ela acaba — e ninguém vai enviar uma nave de reabastecimento.">
Até as atividades cotidianas mais simples se tornarão um desafio, e uma possível fonte de incômodo. "Não existe privacidade", afirma. >
"Você pode entrar no compartimento de resíduos e higiene e fechar a porta, mas, assim que liga a máquina, você acorda todo mundo — é a coisa mais barulhenta, tirando o motor.">
A Artemis II é o primeiro passo no eventual retorno da humanidade à Lua. Missões futuras, lideradas pelos Estados Unidos, levarão humanos à superfície lunar e construirão uma base próxima ao polo sul do satélite. >
Os astronautas ficarão a dias da Terra, vivendo por meses em confinamento, com apenas os colegas como companhia. >
Com noites que duram duas semanas, o ambiente externo será poeirento e sem ar, com temperaturas extremas e níveis potencialmente prejudiciais de radiação.>
Viagens à Lua serão cada vez mais física e mentalmente exigentes, e é crucial encontrar as pessoas certas para a tarefa.>
"É muito difícil selecionar um astronauta, porque não se está procurando super-humanos em um único aspecto", afirma Sergi Vaquer Araujo, chefe da equipe de medicina espacial da Agência Espacial Europeia (Esa, na sigla em inglês), que ajudará a supervisionar a seleção de astronautas para futuras missões lunares. >
"Busca-se alguém que seja bom em todas as áreas — e isso é extremamente difícil de encontrar.">
Quando a Nasa selecionou seus primeiros astronautas, nos anos 1950, os candidatos eram todos pilotos de teste no auge da condição física. >
Durante o processo de seleção, essas pessoas (e eram todos homens) tiveram de suportar semanas de exames, que iam da capacidade pulmonar à acuidade visual, dos movimentos intestinais à contagem de espermatozoides. Os aprovados eram descritos como possuidores do "perfil ideal".>
Hoje, os astronautas já não precisam apresentar um condicionamento físico tão excepcional, mas ainda assim devem atender a determinados critérios físicos.>
"Qualquer tipo de doença crônica que comprometa o desempenho durante a missão é motivo de desclassificação", afirma Araujo. >
Assim, embora a miopia possa ser aceitável, problemas respiratórios (como asma), irregularidades cardíacas ou daltonismo podem excluir até candidatos altamente qualificados.>
"É importante entender que estamos em uma missão de exploração e não dispomos do mesmo equipamento médico que temos em terra", diz Araujo. >
"Para reduzir riscos, precisamos de pessoas muito bem avaliadas — se alguém tivesse uma crise de asma no meio da missão, não teríamos como tratar.">
Embora isso possa eliminar muitos candidatos em potencial (o repórter que assina este texto incluído), a maioria das pessoas razoavelmente aptas tem boas chances de passar nos exames físicos. Mas esse é apenas o início do que significa, hoje, ter "o perfil ideal". >
Grande parte do processo de seleção envolve avaliar capacidades cognitivas e a adequação psicológica para missões espaciais.>
Os primeiros astronautas eram vencedores hipercompetitivos — "machos alfa" — dispostos a arriscar a própria vida. Isso os tornava pessoas empolgantes de se conviver, mas não necessariamente ideais para passar longos períodos em um espaço confinado. >
Hoje, a capacidade de trabalhar bem em equipe é um dos atributos mais importantes de um astronauta. Vencer nem sempre é uma vantagem.>
Durante o processo mais recente de seleção de astronautas da Esa, os candidatos foram observados em desafios em equipe. "O sucesso do grupo era mais importante do que o sucesso individual", afirma Araujo. >
"Chegava a um ponto em que, para dar certo, era preciso perder em benefício da equipe.">
Outra forma de descobrir se alguém tem o perfil necessário para chegar à Lua é tentar viver nos confins da Terra. >
A cirurgiã britânica Nina Purvis acaba de retornar da estação de pesquisa franco-italiana Concordia, na Antártida. Selecionada como parte de um programa de pesquisa da Esa, ela passou o inverno inteiro com apenas outras 12 pessoas.>
"Ela é chamada de 'Marte Branco' porque é um ambiente isolado, confinado e extremo", diz Purvis. "Durante a noite polar, não há luz solar, e as temperaturas podem chegar a cerca de -80°C.">
"De fevereiro a novembro, a estação fica completamente isolada, então precisamos ser autossuficientes em termos de alimentação, combustível e atendimento médico", afirma.>
"Se alguém adoece, somos eu e um médico mais experiente em medicina de emergência, e trabalhamos juntos para tratar qualquer paciente.">
Felizmente, emergências em Concordia são raras, e Purvis passou a maior parte do tempo realizando experimentos — alguns deles com os próprios colegas. Além de pesquisas sobre como a saúde intestinal se comporta em uma comunidade isolada, vários estudos se concentraram no bem-estar mental. >
Quem é escolhido para trabalhar na Antártida passa por um processo de seleção semelhante ao dos astronautas; por isso, investigar como melhorar o humor e a resiliência dessas pessoas ajuda a orientar futuras missões espaciais.>
"É preciso ser alguém agradável para trabalhar junto, esse é o ponto número um", diz Purvis. "Você precisa lidar com pressão, estresse e incerteza e, ainda assim, conseguir desempenhar bem o trabalho — é possível treinar para todos os cenários, mas sempre acontece algo que não conseguimos prever.">
Décadas de pesquisas polares também deixaram claro que, embora haja momentos ocasionais de excitação, o tédio é uma preocupação séria. "Não há muito estímulo ambiental, então tudo é muito monótono", afirma Purvis. >
"Você não quer ficar sentado no quarto, no escuro, assistindo à Netflix o tempo todo.">
Um dos experimentos conduzidos por Purvis envolveu práticas de mindfulness (tipo de meditação ligado à atenção plena). Com base em pesquisas anteriores, ela reunia a equipe para atividades que incluíam ioga, atividades com peças de Lego e pintura.>
"Ainda não temos todos os resultados, mas senti que isso me fez bem, e a equipe passou a esperar com expectativa pelas atividades, que ajudaram a unir o grupo", afirma Purvis. "É o tipo de experimento que tem baixo custo operacional, mas um retorno muito alto, e acredito que certamente será incorporado às rotinas dos astronautas no futuro.">
Não são apenas as agências espaciais que vêm testando a vida em bases lunares. No auge da pandemia de Covid-19, em setembro de 2020 — quando muitos de nós já estavam cansados do isolamento —, o arquiteto Sebastian Aristotelis, então com 24 anos, e seu colega Karl-Johan Sørensen, de 22, embarcaram em uma missão própria. Após vencerem um concurso para projetar um habitat conceitual em Marte, decidiram construir um protótipo de habitat lunar e viver nele por 60 dias no norte da Groenlândia.>
"Decidimos que não queríamos fazer mais esse tipo de trabalho apenas conceitual", diz Aristotelis. "As pessoas já achavam que éramos loucos, e eu precisava ver que conseguíamos realmente construir algo para acreditar que não era apenas um sonhador maluco.">
Foi apenas quando estavam sendo deixados no local pela Marinha da Dinamarca que Aristotelis começou a duvidar. "Vi aquele pequeno ponto de terra em meio a uma paisagem árida e foi a primeira vez que me dei conta do que havíamos assumido", afirma. "Toda a animação e o entusiasmo simplesmente se dissiparam, e restou apenas um momento de completo silêncio… senti nervosismo e um pouco de ansiedade pela primeira vez.">
Construída em fibra de carbono e coberta por painéis solares, a base lunar pré-fabricada Lunark foi projetada para se desdobrar como um origami, mas precisava ser resistente o suficiente para suportar eventuais ataques de ursos polares (algo que, obviamente, não seria um problema na Lua). >
Embora tivesse apenas alguns metros de largura, o habitat contava com três compartimentos internos empilhados, de modo que os dois companheiros pudessem ter algum espaço privado. >
Um corretor de imóveis talvez o descrevesse como "aconchegante". Eles também desenvolveram um sistema de iluminação interna para simular a luz do dia e manter os ritmos circadianos sob controle.>
"O primeiro dia foi extremamente claustrofóbico; havia tanto equipamento que ficávamos em pé dentro daquela cápsula minúscula", afirma Aristotelis. >
"Depois de alguns dias nos acomodando, entramos em uma rotina e, de repente, como o ambiente externo era tão extremo e assustador, o interior rapidamente passou a parecer um lar.">
Como resultado do experimento, a empresa de Aristotelis, a Saga, hoje atua em dois continentes, trabalhando para agências espaciais e companhias privadas no projeto de habitats lunares e interiores de estações espaciais.>
"Eu penso nessa missão todos os dias", diz ele. "Se você vai projetar uma casa na Lua, precisa se esforçar muito para ter uma experiência o mais próxima possível da realidade, com todos os pequenos incômodos e problemas para então encontrar soluções.">
Glover, da Nasa, por sua vez, passou anos treinando para o retorno da Nasa à Lua e pode, um dia, acabar vivendo lá. Pergunto se ele se sente psicologicamente preparado para deixar a Terra tão para trás.>
"Não sei", responde. "Pergunte isso quando eu voltar!">
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