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É sociólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Vila Velha

O que nos dizem as censuras nas salas de aula

Racismo, machismo e intolerância de qualquer tipo não estão nos nossos planos de ensino, e a luta de todos deveria ser pelo combate a essa pedagogia de opressão

Publicado em 02/12/2021 às 14h01

Nas vésperas do dia da Consciência Negra deste ano, celebrado dia 20 de novembro, foi noticiado pelos veículos de imprensa que uma professora foi afastada da escola particular em que trabalhava, em Salvador, por utilizar com suas turmas o livro "Olhos D'Água''.

Coletânea de contos da mineira Conceição Evaristo, a obra foi publicada em 2014 e vencedora do Jabuti, o maior prêmio nacional da área. A despeito da qualidade literária, a direção do Colégio Vitória-Régia atendeu a alguns pais que se queixaram da temática violenta e a linguagem do livro, que retrata a experiência de vida de mulheres negras, como a própria autora.

A "escrevivência" de Conceição foi cerceada por esses pais e principalmente pela direção do Colégio, que frente à contestação, suspendeu o uso da obra e orientou a um "novo viés para a abordagem da atividade", afastando a professora - ela também uma mulher negra - e seus "Olhos d'água".

Poderia ser mais um caso de censura em uma sociedade com "preguiça de educar", como formulou uma especialista em reportagem publicada sobre o assunto. Mas entendo que o caso Vitória-Régia revela o efetivo papel da escola diante de condutas antieducacionais. Outra escola em Salvador no mesmo período, o Colégio Estadual Thales de Azevedo, também teve práticas de ensino reprimidas pela comunidade escolar. Ao orientar a um trabalho sobre Iluminismo, uma professora foi atacada por uma estudante, que a acusou de "discurso esquerdista".

A resistência, entretanto, não foi atendida pela direção do Colégio, levando a estudante e sua mãe à delegacia para registro de queixa, enquanto a Secretaria Estadual de Educação anunciou assistência jurídica à professora e apoio às suas proposições em sala.

Muito além de diferenças entre ensino público e privado, chamo atenção à vigência de diretrizes para a Educação e sua centralidade para a direção das escolas. Racismo, machismo e intolerância de qualquer tipo não estão nos nossos planos de ensino, e a luta de todos deveria ser pelo combate a essa pedagogia de opressão. Ler Conceição Evaristo nos ajuda a sonhar com mundos diferentes dos quais herdamos, pois como "escrevive" nossa grande autora, "às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância".

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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