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É diretor-executivo da Escola São Domingos

Geração conectada demais: por que 2026 precisa ser o ano da virada na infância

A sociedade reconheceu o problema, pesquisas guiam decisões, escolas e famílias estão mais atentas e empresas de tecnologia começam a ajustar práticas. Talvez a fase mais crítica já tenha passado

  • Henrique Romano Carneiro É diretor-executivo da Escola São Domingos
Publicado em 01/01/2026 às 10h00

Estamos diante de uma mudança histórica: crianças crescendo em um ambiente digital tão intenso que transforma seu modo de pensar, sentir e se relacionar. O que antes era alerta de especialistas virou tema público. O uso precoce de celulares e redes sociais já é apontado como um dos principais fatores de adoecimento emocional entre jovens e cada nova pesquisa reforça essa urgência.

Livros como "Geração Ansiosa", de Jonathan Haidt, e "Nação Dopamina", de Anna Lembke, mostram como estímulos infinitos, comparação social e ambientes online sem limites afetam profundamente o desenvolvimento emocional. O debate ganhou força após o “The New York Times” divulgar o maior estudo já feito sobre o tema: a pesquisa ABCD, que acompanhou 10.500 crianças e concluiu que receber um smartphone antes dos 12 anos aumenta riscos de depressão, obesidade e problemas de sono, além de piorar indicadores de bem-estar.

Embora não prove causalidade direta, o estudo confirma o que pediatras, escolas e psicólogos veem no cotidiano: crianças hiperconectadas dormem menos, convivem menos, se exercitam menos e apresentam maior instabilidade emocional. Haidt resume bem: dar um smartphone cedo significa reduzir sono, leitura, socialização e atividade física e recomenda evitar o aparelho antes dos 14 anos.

Esse cenário se soma às novas leis que restringem celulares nas escolas, reforçando o esforço global por limites dentro e fora de casa. A questão é de saúde mental e segurança. Plataformas como Roblox, Minecraft e YouTube funcionam como “praças digitais” onde crianças interagem com desconhecidos. Um chat ou link pode se tornar porta de entrada para riscos que os pais nem sequer imaginam.

As próprias redes sociais já reagem a essa crise. O Instagram lançou ferramentas de supervisão que permitem acompanhar tempo de uso, interações, conteúdos sensíveis e alertas sobre comportamentos de risco. Não é coincidência: é o reconhecimento de que o problema ficou grande demais para ser ignorado.

Criança assistindo desenho no celular
Criança assistindo desenho no celular. Crédito: shutterstock

Ainda assim, limitar uso não substitui o dever de formar. Cabe a escolas e famílias ensinar letramento digital, autocontrole, ética, privacidade e cidadania online. O objetivo não é banir telas, e sim garantir que crianças aprendam a navegar com maturidade e orientação. Educar com e para a tecnologia é parte essencial da formação contemporânea.

Por isso, 2026 exige firmeza. Até os 14 anos, é crucial limitar o acesso não supervisionado à internet e às redes. Vale oferecer celulares simples; usar ferramentas robustas de controle parental; manter senhas protegidas; supervisionar todo acesso; evitar telas no quarto à noite; criar rotinas claras; e respeitar a idade mínima das plataformas, ainda que “todos os amigos tenham”.

A responsabilidade não pode ser entregue ao algoritmo. E, na primeira infância, o consenso é sólido: telas devem ser fortemente restritas para proteger o desenvolvimento neurológico.

Apesar dos desafios, há motivos para otimismo. A sociedade reconheceu o problema, pesquisas guiam decisões, escolas e famílias estão mais atentas e empresas de tecnologia começam a ajustar práticas. Talvez a fase mais crítica já tenha passado. Agora avançamos para um uso mais consciente, equilibrado e saudável da tecnologia, um caminho em que protegemos a saúde emocional das crianças enquanto aproveitamos o melhor que o mundo digital pode oferecer quando usado com propósito e limites.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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