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É chef de cozinha do Empório 85 Wine Bar

Gastronomia brasileira: o ES tem muito a oferecer nesse banquete

O turismo gastronômico é hoje uma das vertentes mais fortes do turismo mundial, e o Espírito Santo tem todas as condições de ocupar um lugar de destaque nesse cenário

  • João Vieira É chef de cozinha do Empório 85 Wine Bar
Publicado em 05/03/2026 às 10h00

A gastronomia brasileira vive um momento histórico. Nunca se falou tanto sobre os sabores do Brasil, seus ingredientes nativos, suas técnicas ancestrais e a riqueza cultural que se manifesta à mesa. O que antes era visto, muitas vezes, como cozinha regional restrita ao território nacional, hoje ocupa espaço em rankings internacionais, eventos gastronômicos globais e nos principais debates sobre identidade, sustentabilidade e cultura alimentar.

Essa valorização não acontece por acaso. O mundo passou a buscar cozinhas que contam histórias, que carregam identidade, que dialogam com o território e com as pessoas. E poucas gastronomias são tão potentes nesse sentido quanto a brasileira.

Somos um país de biomas diversos, de saberes tradicionais, de influências indígenas, africanas, europeias e populares que se encontram no prato. Cozinhar o Brasil é, antes de tudo, cozinhar memória, diversidade e pertencimento.

Como chef, esse sempre foi o meu posicionamento. Acredito que a gastronomia contemporânea não deve apagar suas origens, mas reinterpretá-las com técnica, respeito e criatividade.

Valorizo ingredientes nacionais, produtores locais e narrativas que conectam o prato à cultura e à realidade social do país. A cozinha autoral, para mim, não é ruptura com o passado, mas diálogo com ele.

Esse movimento de valorização da identidade também se reflete de forma muito clara no Espírito Santo, um estado que possui uma culinária singular, ainda pouco conhecida fora de suas fronteiras, mas de enorme força cultural e potencial econômico.

A gastronomia capixaba é marcada pela relação íntima com o mar, pelos sabores da pesca artesanal, pelo uso de ingredientes frescos e por receitas que atravessam gerações.

moqueca capixaba, por exemplo, é muito mais do que um prato típico. Ela representa um modo de vida, um saber coletivo e uma identidade regional. Sem azeite de dendê, sem leite de coco, preparada em panela de barro - que por si só já é patrimônio cultural -, a moqueca expressa a essência da cozinha capixaba: simplicidade, técnica, respeito ao ingrediente e profundo vínculo com o território.

Mas a culinária do Espírito Santo vai muito além da moqueca. O Estado reúne cafés de alta qualidade reconhecidos internacionalmente, uma produção crescente de queijos artesanais, ingredientes da agricultura familiar, frutos do mar, doces tradicionais e uma nova geração de cozinheiros que reinterpretam essas referências com olhar contemporâneo. Trata-se de uma cozinha com identidade própria, que dialoga perfeitamente com essa nova fase da gastronomia brasileira.

A moqueca carrega, além de muito sabor, histórias marcantes para os capixabas
A moqueca carrega, além de muito sabor, histórias marcantes para os capixabas. Crédito: Divulgação

Além do valor cultural, a gastronomia deve ser vista também como um ativo econômico estratégico para o Espírito Santo. Ela movimenta cadeias produtivas inteiras, da agricultura à pesca, do turismo à hotelaria, do pequeno produtor ao restaurante. Uma gastronomia valorizada atrai visitantes, fortalece destinos turísticos, gera emprego, renda e orgulho local. Quando um Estado valoriza a sua culinária, ele investe em desenvolvimento sustentável.

O turismo gastronômico é hoje uma das vertentes mais fortes do turismo mundial, e o Espírito Santo tem todas as condições de ocupar um lugar de destaque nesse cenário. Valorizar a cozinha capixaba é valorizar sua cultura, seus profissionais, suas comunidades e sua história. É transformar tradição em oportunidade e identidade em diferencial competitivo.

Acredito que o futuro da gastronomia brasileira passa exatamente por esse caminho: olhar para dentro, reconhecer nossas raízes, respeitar o território e projetar isso para o mundo com técnica, inovação e consciência. Cozinhar, hoje, é também um ato cultural, social e econômico.

O Brasil está à mesa do mundo. E o Espírito Santo tem muito a oferecer nesse banquete.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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