Henry Kissinger já afirmava que “a ordem internacional é sempre precária, sustentada mais por equilíbrios do que por consensos permanentes”. A atualidade escancara o desmonte de tais "equilíbrios".
Acumulam-se as evidências de um mundo em colapso. A guerra da Rússia contra a Ucrânia; alianças abaladas, por exemplo, com ameaça de saída da Otan por parte dos Estados Unidos; o anúncio do tarifaço aplicado por Washington, medida unilateral que mexeu com todas as economias; o primeiro ataque estadunidense ao Irã, justificado pela tentativa de interromper seu programa nuclear; a operação dos EUA na Venezuela, que resultou na prisão de Nicolás Maduro; e a segunda ofensiva contra o Irã. São inúmeros e sem precedentes os sinais de desordem internacional.
Todos esses solavancos empurraram o planeta para uma conjuntura descompassada. Foi-se o tempo do sistema baseado em regras, no direito internacional e nas instituições multilaterais. Como afirmou Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, em Davos, “atravessamos uma ruptura e não uma transição”.
A rivalidade entre os EUA e a China é o centro gravitacional da geopolítica contemporânea. Este embate envolve modelos de desenvolvimento, controle tecnológico e capacidade de influência global. Seus efeitos não se limitam aos dois protagonistas, mas irradiam-se por cadeias produtivas, decisões de investimentos e acesso a mercados.
Por outro lado, testemunhamos acelerado aumento de gastos militares. Segundo o centro de pesquisa International Institute for Strategic Studies (IISS), as despesas globais com defesa, em 2025, atingiram impressionantes US$2,6 trilhões. Novas tecnologias, com intenso uso de IA e drones, por exemplo, revolucionam a guerra e amplificam seu poder destruidor.
O recrudescimento protecionista, que vai além das tarifas, é outra marca de nossos tempos. Está em curso uma reconfiguração da própria globalização. Países buscam reduzir vulnerabilidades, internalizar capacidades produtivas e assegurar domínio sobre setores considerados estratégicos.
A eficiência, que antes orientava a integração econômica, perdeu centralidade, substituída por outras considerações, como segurança e confiabilidade de suprimento. Em suma, a geopolítica voltou a imperar sobre a economia.
Não surpreende, portanto, que o sistema multilateral pareça exaurido. Instituições concebidas para mediar interesses e estabelecer regras comuns estão, hoje, gravemente impactadas pela complexidade e profundidade de vertiginosas transformações.
Diante de tal cenário, impõem-se ao Brasil lucidez estratégica sobre os caminhos a seguir.
Nas eleições deste ano, não estaremos apenas escolhendo um governo. Trata-se de decidir como navegar em uma realidade sem regras sólidas e crescentemente sujeito à lei dos mais fortes. O país precisa, com serenidade e pragmatismo, saber ler com acurácia o cenário global, mobilizando-se internamente para projetar internacionalmente um perfil que esteja à altura de nossas dimensões, de nossa história e de nosso potencial.
A indagação é se haverá alguma notícia positiva nesse cenário de perigosa desordem. Não erra quem identificar relevantes oportunidades para o Brasil.
Em um mundo mais instável, e com continuada perspectiva de crescimento populacional, a confiabilidade das fontes de suprimento torna-se ativo estratégico. Graças à revolução que fizemos no agro, produtos brasileiros alimentam cerca de 10% da população mundial. Esse protagonismo admirável requer mais avanços em produtividade e no enfrentamento de gargalos que prejudicam nossa competitividade.
Por exemplo, precisamos de estratégia para lidar com a vulnerabilidade que é a dependência de fertilizantes importados. Segundo o Ínsper Agro, 45% das compras desse insumo vêm de países geopoliticamente instáveis, como Rússia, Bielorrússia, Israel, Nigéria e Turquia.
Sem um plano concreto, ficamos à deriva em momentos turbulentos como o de agora. Ademais, continuamos atrasados na superação de severas limitações de infraestrutura, para as quais devemos robustecer e modernizar portos, aeroportos, rodovias e ferrovias, além de avançar na conectividade.
A transição energética oferece outra janela importante. A guerra no Irã tem demonstrado, novamente, a importância das alternativas às energias de fontes fósseis. Enquanto boa parte das nações depende diretamente da volatilidade do petróleo, o Brasil, que já se tornou autossuficiente, também se destaca na produção de biocombustíveis, além de dispor de matriz limpa e de recursos naturais que o colocam em posição singular.
Isso está interligado a outro grande desafio — e, ao mesmo tempo, uma enorme oportunidade — que está na revolução tecnológica em curso. A digitalização e a inteligência artificial redesenham economias, alteram relações de trabalho e redefinem vantagens competitivas.
Obviamente, o Brasil não parte do zero, ao contrário, já alcançou conquistas que merecem reconhecimento: tecnificação do agronegócio; nichos de excelência como Embraer e Weg; vanguarda tecnológica na captação de petróleo em águas profundas; êxitos notáveis na digitalização do sistema bancário. Essa base energética favorável é indispensável para atrair infraestrutura digital (a exemplo de data centers). Além disso, temos reservas privilegiadas de minerais estratégicos, como terras raras.
Não obstante as muitas vantagens com que contamos, nenhum desses potenciais se realizará sem um grau importante de convergência a ser construída no plano doméstico. A experiência histórica mostra que prosperam em conjunturas de transição aqueles países que conseguem alinhar solidez interna com visão externa. Isso implica estabilidade institucional, responsabilidade fiscal, marcos regulatórios respeitados, segurança jurídica, um ambiente de negócios que estimule a atração de capital internacional e de investimentos de longo prazo.
Portanto, visão de futuro compartilhado, capacidade de consensos em torno de pilares básicos e um claro projeto de país que transcenda ciclos eleitorais ou governamentais – estes são alguns dos ingredientes para o Brasil alçar voo.
Em ano eleitoral, vale reforçar, tal agenda ganha ainda mais relevância. O país precisa discutir prioridades estruturais, sem continuar prisioneiro de uma polarização marcadamente populista.
O mundo está mais fragmentado, mais imprevisível e, sem dúvida, mais perigoso. Como em outros momentos de risco, alguns países saberão se adaptar, enquanto outros ficarão à margem. O Brasil tem como figurar no primeiro grupo, mas isso dependerá, em grande medida, de um exercício de liderança que compreenda o tempo presente e que seja capaz de agir à altura de seus desafios.