Rubem Alves, renomado educador e pensador brasileiro, escreveu que “o político por vocação é um poeta forte. Ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade”.
A origem da política remonta à Antiga Grécia (século VII a.C.). Nesse período, nasceu a ideia de dimokratía (democracia) que conhecemos hoje. Os atenienses participavam diretamente de assembleias na ágora (praça pública) para discutir e decidir sobre assuntos relativos à pólis (cidade). Ocorre que, naquela época, somente homens livres tinham esse direito. Às mulheres, aos estrangeiros e aos escravos não era permitido o exercício da política.
Inspirados na experiência grega, vários pensadores e líderes políticos formularam e implementaram modelos de Estado e de sociedade que se aproximaram desse ideário, embora outros tenham se tornado autoritários e se afastado completamente dessa concepção inicial. A base que organiza a constituição dos poderes na atualidade, inclusive no Brasil, está fundamentada na teoria da separação dos poderes, do pensador e político francês Montesquieu, que viveu entre os anos de 1689 e 1755.
Nos últimos tempos, também cresceu a ideia de que a administração pública deve adotar o planejamento como estratégia de gestão e desenvolvimento. Há, inclusive, quem diga que “sem planejamento não se chega a lugar nenhum”. Tenho divergência em relação a essa afirmação. Sempre chegamos a algum lugar, mesmo que não seja o desejado. Não se trata de não chegar a lugar nenhum, mas de não alcançar o que se pretende. Por isso, permanece atual a advertência do pensador romano Sêneca: “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”.
Para transformar sonhos em realidade, é necessário planejar. A ausência de planejamento, geralmente, conduz a caminhos tortuosos e fracassados. Daí a necessidade de alinhar missão, visão, objetivos estratégicos, programas, projetos, metas e iniciativas que representem o sentimento da maioria das pessoas.
Sonhos individuais são legítimos e combustíveis para dar sentido à vida, mas, na gestão pública, é fundamental cuidar dos sonhos coletivos. E não há caminho melhor do que o planejamento estratégico participativo. A construção do futuro de uma cidade, de um estado ou de um país deve ser tarefa de todos, obra de muitas cabeças e mãos.
Planejamento não é fim em si mesmo, é meio. De que vale um plano bem elaborado se ele não for implementado? Quais riscos são mais frequentes quando não se utilizam ferramentas adequadas? Planejar exige concertação entre atores políticos e sociais nos processos de elaboração, aplicação, monitoramento e avaliação.
Plano é instrumento inacabado. É “como uma onda no mar”, sempre em movimento. É flexível, vivo, permanentemente aberto a mudanças. Quem leva a sério o ato de planejar e de executar o que foi projetado enfrenta os desafios com mais potência, aproveita melhor as oportunidades e aumenta as chances de transformar sonhos em realidade.
Há algum tempo, o Espírito Santo fez a transição do improviso para a organização administrativa. Com certeza, boa parte das conquistas dos capixabas está associada à cultura do planejamento adotada ao longo desse período.
No último dia 9 de março, no Palácio Anchieta, participei do Encontro Anual do Plano de Desenvolvimento de Longo Prazo – ES 500 Anos, um espaço de diálogo sobre avanços conquistados e desafios até 2035. Trata-se de um planejamento com metas ousadas, mas que precisará ser aperfeiçoado e atualizado com a participação mais abrangente da população. Ao analisar o processo de elaboração e as instâncias de governança do plano, observa-se a ausência de segmentos importantes da sociedade capixaba.
Um plano de longo prazo para o Espírito Santo precisa alcançar a todos. Ninguém pode ficar pelo caminho. Por isso, além de contemplar o poder público, a academia, o setor produtivo e instituições, deve assegurar a participação dos movimentos mais amplos da sociedade capixaba, para que sonhos se transformem em realidade e o futuro seja melhor para todos nós.