Historicamente, muitos pequenos empresários enxergam o carnaval como uma “pausa forçada” ou um período de baixa. Eu acredito que o carnaval de 2026 pode — e deve — ser ressignificado pelo varejo capixaba. Defendo que este período não representa interrupção, mas sim posicionamento.
Tenho alertado o mercado de forma direta: quem trata fevereiro como “tempo morto” corre o risco real de perder a tração de um ano que já começou acelerado. No cenário atual, a inércia tem um custo alto, e a retomada após uma pausa mal planejada pode ser lenta demais para quem busca bater metas ambiciosas.
Vejo o Espírito Santo entrando no período de folia com uma vantagem competitiva clara e robusta. Dados recentes mostram que o Estado vem se consolidando como o motor do varejo na Região Sudeste. Enquanto o Brasil ainda busca estabilidade diante das incertezas globais e das taxas de juros elevadas, o comércio capixaba registrou crescimento de 4,3% no último período analisado, liderando o avanço regional com folga. Para efeito de comparação, Minas Gerais cresceu 1,6%, São Paulo avançou apenas 0,3%, e o Rio de Janeiro registrou retração de 1,7%.
Na minha visão, o mito de que “o ano só começa depois do Carnaval” é um dos erros mais graves cometidos por pequenos e médios lojistas. Esperar março para executar o planejamento estratégico é um luxo que o varejo moderno não pode mais se permitir. Encaro o carnaval como uma janela de ouro, especialmente para o varejo de vizinhança e para o setor de serviços. É um momento estratégico para girar o estoque de verão e, principalmente, para fortalecer o relacionamento com o cliente que, apesar do clima de festa, está com mais tempo disponível e com a mentalidade aberta ao consumo voltado para conveniência e lazer.
Os números reforçam esse cenário positivo. O setor de Tecidos, Vestuário e Calçados, por exemplo, projeta crescimento de 7,2% neste mês de fevereiro no Estado, impulsionado pelas compras de última hora e pelas viagens. Ao mesmo tempo, os segmentos de Farmácia e Perfumaria seguem com crescimento de dois dígitos, na casa de 11%, demonstrando que o consumo essencial e de bem-estar não entra em recesso.
Quando falo em estratégia para o lojista, não me refiro apenas à venda de acessórios temáticos ou bebidas. O foco deve estar na compreensão da nova missão de compra do consumidor. O planejamento de 2026 já precisa estar em execução agressiva e não apenas no papel. A resiliência do varejo capixaba, que atingiu em 2025 o melhor patamar de vendas em 21 anos, é resultado direto da capacidade de antecipação do empresariado local e do equilíbrio econômico do Estado.
Costumo dizer que o carnaval funciona como um verdadeiro teste de fogo para a logística e para o padrão de atendimento do varejista. Se o cliente for bem atendido na urgência da folia, a confiança construída tende a acompanhar a marca durante todo o restante do ano.
Guia Prático
Para transformar estratégia em resultado real no caixa, recomendo cinco pilares de ação imediata:
Giro de estoque inteligente: aproveite o período para liquidar produtos remanescentes das coleções de alto verão. O carnaval representa o encerramento emocional da estação. Combos promocionais podem acelerar a decisão de compra e abrir espaço para as novidades do outono.
Presença digital em tempo integral: se a loja física reduzir o horário, as redes sociais precisam intensificar a atuação. O cliente estará com mais tempo livre e com maior consumo de conteúdo digital. Esse é o momento de entregar valor e manter a marca presente.
Gestão do tempo de menor fluxo: utilize os períodos mais tranquilos para treinar equipes, alinhar metas e corrigir falhas percebidas em janeiro. Ajustes operacionais feitos agora refletem diretamente nos resultados dos próximos meses.
Foco na experiência do varejo de vizinhança: o pequeno lojista possui a vantagem da proximidade com o cliente. Quem esquece um item essencial para uma viagem busca rapidez e solução imediata. Nesse contexto, agilidade costuma ser mais decisiva que preço.
Antecipação de março: comece desde já a comunicar as campanhas do próximo mês. O consumidor que realiza uma compra agora deve sair da loja com incentivo para retornar, por meio de cupons, benefícios ou vantagens exclusivas.
No Espírito Santo, onde o desemprego segue em níveis baixos, em torno de 4%, e a massa salarial cresce acima da média nacional, o dinheiro continua circulando. O varejista que optar por pausar suas operações ou reduzir sua presença estratégica neste momento corre o risco de entregar espaço para concorrentes mais atentos. O carnaval dura poucos dias, mas o posicionamento construído nesse período pode impactar os resultados de todo o semestre.
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