Este 2026 avança calendário afora pautado pelas eleições de outubro próximo. A Copa do Mundo também tem seu espaço, mas o que já está em campo é mesmo o debate sobre as disputas nas urnas.
Precocemente, o jogo eleitoral, que será “espremido” pelo campeonato da Fifa, já está sendo disputado.
De toda sorte, esse processo eleitoral demanda um olhar bem atencioso acerca da paisagem na qual as disputas se realizarão. Esse foco especial na política é essencial porque se trata de uma arena em drástica transformação. Para analisar esse movimento, escrevi o livro “Política em Tempos de Grandes Mudanças”.
Populismos, extremismos, protecionismos, nacionalismos, guerras, crise climática, disputa por hegemonia, entre outros fatores, convulsionam uma era de fluidez vertiginosa, que soma as dimensões presencial e digital para uma existência em dupla ambiência, atravessada por desprezo à fatualidade, como bem mostra o fenômeno dramático das fake news.
E no meio dessa cena de persistentes transformações, temos um Brasil a nos desafiar à superação de questões históricas e ao mesmo tempo à invenção dos fundamentos do futuro. Um país que resiste a aprender com erros e sucessos, no mais das vezes, repetindo o passado com etiquetas de “grandes novidades”.
Uma nação que precisa abandonar polarizações e se unir em torno do que nos deve congregar a todos: a construção da prosperidade inclusiva. Um Brasil que precisa de estratégia para as travessias desse novo tempo e suas tempestades, como a tortuosa reconfiguração geopolítica em curso.
Esse é o contexto em que convido o leitor a pensar sobre o fazer político atual, com este meu novo livro. A política é uma atividade dinâmica, umbilicalmente conectada às atualidades. Desse modo, é mais que pertinente elaborar como fica a política neste nosso tempo tão desafiante. É o que proponho, reunindo desafios, apontamentos, reflexões e indagações acerca dessa atividade essencial à condição humana.
Esse olhar sobre a contemporaneidade quer inspirar e ensejar uma ação política “atenta aos sinais” e em diálogo com as marcas da temporalidade atual, de modo a se reinventar o agir político e, ao mesmo tempo, garantir que práticas e valores civilizatórios até aqui constituídos se garantam em favor da dignidade humana.
Defendo que essa agenda política geral se baseie na ideia do universalismo, ou seja, a visão de que distâncias e diferenças entre os humanos não suplantam nossa fraternidade. E essa realidade deve ser dinamizada pelo propósito de justiça socioeconômica.
Essa perspectiva é a que venho defendendo em minhas décadas de ação política e cidadã, como bem expressam artigos que publico em espaços como este. Aliás, depois de uma introdução sobre a conjuntura política atual e um capítulo sobre a agenda brasileira inescapável neste momento, apresento no livro um conjunto de 34 textos publicados na imprensa desde 2022.
Em vários desses artigos selecionados, conto com a honrosa parceria de Adriano Scarpa, Ana Carla Abrão, André Guimarães, Eduardo Mufarej, Fabio Giambiagi, Guilherme Leal, José Antonio Martinuzzo, José Carlos da Fonseca Jr., Marcello Brito, Marcos Mendes, Natália Renteria, Paulo Artaxo, Regis Mattos, Roberto S. Waack e Welber Barral.
A compor o livro, textos especiais de Luciano Huck, que assina o prefácio; de Marcos Lisboa, autor do posfácio; de Samuel Pessôa, nas orelhas; e de Ana Paula Vescovi, na contracapa da publicação.
Em todos os quadrantes do mundo democrático, vivemos hoje um tempo de desafio de reinvenção da prática política e mesmo de reconquista de mentes e corações para a política emancipatória, longe das radicalidades tão danosas ao necessário diálogo e às conexões em torno da boa vontade.
Há milênios, Heráclito (c 550-c. 480 a.C.) já observara a constância da mudança. Segundo reporta Platão, ele afirmava que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, posto que, num segundo momento, nem o rio nem o sujeito são os mesmos. Lidar com o fato de que “amanhã não seremos o que fomos nem o que somos”, de acordo com Ovídio, nunca foi simples. Agora pense em lidar com esse vetor de mutação inevitável e irrecorrível de modo alucinante? É o que estamos experimentando, com desafiantes consequências.
O chão da história de vocação iluminista não se pavimenta com soluções fáceis nem episódicas, muito menos fratricidas, ditatoriais ou radicais. É uma laboriosa tarefa da nossa capacidade de promover novos inícios, como vislumbrou Hannah Arendt. Guiados pelo espírito humano, distinguido pelas faculdades de pensar, desejar e agir, e de fazer tudo isso com filtros ético-morais, temos uma obra infindável de construção da civilização humanística, tão provocada e desafiada nestes tempos de grandes mudanças.
Neste ano com eleições, é preciso que qualifiquemos o debate político, infelizmente tão apequenado nos últimos tempos pelos extremismos e populismos tão em voga. Com a realização deste pleito, temos uma oportunidade valiosa para pensar e escolher que futuro desejamos como cidadãos, como nação. Em tempos de grandes mudanças, que sejamos capazes de operar significativas transformações na vida política nacional.
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