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Mundo

A identidade local ganha novas dimensões diante da globalização

A globalização, de certo modo, simplifica tudo, transforma tudo numa coisa só para que possa ser absorvido de modo ubíquo pelo planeta, ignorando as identidades locais

Publicado em 28 de Novembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

28 nov 2019 às 04:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia Tarcísio Bahia
Globalização Crédito: Divulgação
O século XIX, graças ao motor a vapor, a ferrovia e embarcações marítimas movidas a carvão, entre outras inovações, inaugurou uma nova etapa da história humana na qual as fronteiras geográficas tornaram-se limites abstratos. A partir dali, as distâncias diminuíram, de tal modo que um produto consumido apenas regionalmente logo poderia conquistar novos mercados até então inalcançáveis.
Mesmo com a força da máquina, que multiplicou toda produção manufaturada, as fábricas ainda demandavam grande mão de obra humana, o que provocou a atração de uma massa de trabalhadores que abandonaram o campo. Apesar das más condições da vida urbana fabril, aqueles operários viam nas cidades industriais mais oportunidades do que aquelas vivenciadas no meio rural.
Esse processo criou uma nova rede urbana mundial, na qual os pontos de articulação e distribuição, como eram as cidades portuárias, acabaram se beneficiando e se fortaleceram. Por outro lado, antigos Estados ou impérios se viram ameaçados e reagiram, criando tensões regionais que, entre outras motivações, teve como consequências algumas das guerras e invasões militares ocorridas em sua maioria no hemisfério norte.
O mundo ainda não superou totalmente a violência como estratégia de dominação, e temos até visto a volta de certo nível de tensão em diversas partes do globo. Mas também é certo que boa parte da população mundial viu na globalização oportunidades tanto econômicas como socioculturais, principalmente entre os mais jovens, que de mochileiros passam a sair rodando o mundo atrás de novas experiências sem criar raízes em nenhum lugar.
Do ponto de vista da produção e do consumo, porém, se há aspectos positivos como pode ser tomar aqui no Brasil um vinho francês ou andar de carro alemão, toda a logística envolvendo a movimentação das cargas entre origem e destino geram impactos ambientais que hoje começam a ser questionados por muitos daqueles mesmos jovens mochileiros, futuros consumidores da nova economia que já se encontra em transformação.
Na questão do carro, por exemplo, nem faz muita diferença se ele é alemão ou não, pois o automóvel já não é tanto assim um objeto de desejo das novas gerações, já conscientes dos malefícios de uma mobilidade individualizada que, como se sabe, é menos eficiente em termos de sustentabilidade que as opções da mobilidade ativa – como são as bicicletas, por exemplo – e o transporte público de massa – ônibus, trem e metrô, principalmente.
E é justamente no tema da sustentabilidade, que envolve muito mais do que apenas os aspectos ambientais, que a globalização começa a ser debatida. O conceito atual adotado para o tema da sustentabilidade inclui também a questão econômica e social: se o produto desenvolvido por uma determinada empresa tem seus funcionários devidamente legalizados; se ela paga corretamente seus impostos; se aqueles mesmos funcionários fazem parte da comunidade aonde a empresa atua e/ou está instalada; se seus fornecedores adotam os mesmos princípios citados antes e, não menos importante, se os insumos (matéria-prima) dos componentes são de fornecedores locais, justamente para minimizar o impacto ambiental com a logística e transporte.
Como se vê, sob tais argumentos, um produto global não é sustentável. Com isso, vem ganhando força as qualidades locais das atividades produtivas humanas.
Nesse sentido, não se trata tanto de se opor à globalização de ideias, inovações e deslocamentos humanos, mas à globalização mercadológica industrial e financeira que vem enriquecendo alguns e destruindo a cultura de muitos.
A discussão de que se a Terra é mesmo plana ou não, cabe bem aqui. A globalização, de certo modo, simplifica tudo, transforma tudo numa coisa só para que possa ser absorvido de modo ubíquo pelo planeta, ignorando as identidades locais.
Resta saber quem vencerá, se o global ou o local.

Tarcísio Bahia

Tarcísio Bahia Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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