Basta caminhar um pouco por nossas cidades, sejam elas médias ou grandes, para perceber como o número de sem-teto, isto é, de pessoas que vivem nas ruas vem aumentando exponencialmente.
Trata-se, na verdade, de uma tendência mundial, pois mesmo na maior economia do planeta, os EUA, a população de rua vem aumentando, principalmente em metrópoles como Nova York e Los Angeles. Ou seja, apesar do vertiginoso crescimento econômico dos últimos anos, a concentração de renda é a principal causa, entre outras derivadas, que mandou pras ruas das cidades norte-americanas milhares de pessoas.
E em países como a Índia, cuja população ultrapassará em breve a chinesa e será a maior do mundo, essa questão é ainda mais grave, pois aos entraves econômicos se somam os culturais numa nação acostumada tanto com a divisão de classes sociais quanto com a tolerância em relação à miséria dos mais pobres.
De fato, as razões que levam um número considerado de pessoas ter a rua, com todas as suas mazelas, como moradia, não é apenas econômico, pois a questão social (desarranjos familiares ou estresse traumático por submissão à fato violento, por exemplo) tem significativa participação na origem desta triste realidade, e que, por sua vez, se torna um problema de saúde pública.
Infelizmente, trata-se de uma situação na qual ninguém sai ganhando. Se os moradores de rua são as vítimas e, portanto, são os que mais sofrem com essa tragédia social, também é certo que nem os governos, em especial as administrações municipais, nem o restante da população, gostariam de se ver diante de um problema como esse.
E como todo problema que a vida traz, a questão fundamental é se devemos atacar as causas ou os efeitos. Não resta dúvida, porém, que, atacando as causas, acabam-se os efeitos. Não obstante, ao longo da história não faltam exemplos de governantes que, por uma razão midiática e/ou imediatista, preferiram, ainda que momentaneamente, investir em sanar ou minimizar o problema enfrentando apenas suas consequências. Ou seja, resolve-se o efeito, mas não a causa dele, o que, inevitavelmente, logo provocará a volta do mesmo problema. Dito de outro modo: escondem a sujeira debaixo do tapete. Mas, por que então fazem assim? Ora, porque, talvez, eles já não estejam aqui quando o problema retornar. E aí o problema deixa de ser dele e passa a ser de outro.
É o que tem feito a já mencionada cidade de Nova Iorque, a despeito do seu cosmopolitismo que se traduz numa maior tolerância sociocultural. Para resolver a questão da população de rua, a prefeitura nova-iorquina implantou um programa que custeia a mudança de pessoas sem teto para outras cidades norte-americanas. A realocação prevê o pagamento não só da mudança, mas também o aluguel de um imóvel na cidade de destino por um período de um ano.
É o que, de modo similar, também fez João Dória, em São Paulo, quando era prefeito da cidade e resolveu acabar com a cracolândia que manchava a imagem da capital paulista.
Neste ponto, é importante salientar que se entre os moradores de rua muitos são consumidores de droga, tampouco é certo afirmar a maioria deles sejam drogados, ou seja, boa parte dos sem teto são apenas pessoas que buscaram nas mazelas da vida na rua uma solução para outro problema que os afligiam.
A humanidade, ao longo da sua história, jamais conseguiu acabar com a pobreza. Mesmo com o enorme desenvolvimento econômico ocorrido nos últimos 200 anos, o que temos visto é o aumento da concentração de renda e da desigualdade social, cujos efeitos, para usar um termo apresentado anteriormente, é o alargamento das tensões sociais. Muitas das recentes crises políticas ocorridas ao redor do mundo tiveram origem nas tensões sociais urbanas e que, por sua vez, podem se intensificar por um problema “aparentemente” menor, como são os sem teto, e assim por diante...
Aos governantes: não joguem a sujeira pra baixo do tapete!