Bastante conhecido pelo livro “Ócio Criativo” (2000) e dono de uma cultura global, o sociólogo italiano Domenico de Masi começa seu último livro com o sugestivo título “O futuro chegou” (2014) com a seguinte inquietação: “Viajando pelo planeta, encontram-se pouquíssimas pessoas satisfeitas com o tempo e o lugar em que vivem”.
Trata-se de um chocante paradoxo, pois ele mesmo reconhece mais adiante: “Talvez nunca se tenha falado tanto em crise como a partir do momento em que começaram a difundir-se novas tecnologias que assumem o esforço físico do homem, fortalecem a sua capacidade de memória, de cálculo e até inteligência, ajudam a sua saúde física, ampliam seus conhecimentos...”
Ou seja, quando teria tudo para estar perto de encontrar a tal felicidade, uma vida em plena harmonia, eis que o homem não sabe como lidar com tudo que conquistou ao longo da história e se vê agora em crise, insatisfeito, resmungão, em guerra, matando, xingando, a despeito de vermos o tempo todo pessoas aparentemente felizes nas redes sociais, sempre num lugar legal, num jantar bacana, numa viagem inesquecível, num belo cenário.
E é curioso que isso também ocorre no momento histórico em que quase toda a população brasileira e mundial é urbana. E as cidades crescem por que são lugares de oportunidades e de encontros, nos quais podemos compartilhar experiências e festejarmos juntos. Contraditoriamente, porém, nunca se viu tanta gente se sentindo sozinha, atormentada pela solidão.
Isso, de fato, fica evidente quando se vê o aumento nos casos de suicídio e depressão em todo o mundo e no Brasil, principalmente entre os mais jovens.
Ocorre que o mundo é cada vez mais complexo, fragmentado e maior, afinal temos mais informações, inclusive no ambiente virtual, para serem processadas por cada um de nós. É neste mundo que o jovem viverá e terá que enfrentar, mesmo com toda tecnologia disponível.
Temos então uma equação sem solução simples: tecnologia + urbanidade + fragmentação = crise x solidão.
No curso de arquitetura e urbanismo em que leciono, por exemplo, apareceram há pouco faixas tratando da questão da depressão e ansiedade entre os estudantes, buscando dar-lhes apoio e orientações para aqueles momentos de crise, cada vez mais frequentes. Por outro lado, numa tentativa de adaptar-se ao mundo atual e ao que ainda está por vir, alguns professores discutem um novo modelo de ensino baseado na maior integração entre as disciplinas, pois, como está, entende-se que o curso está muito fragmentado.
Tal integração simplificaria a vida do aluno, inclusive na quantidade e variedade dos trabalhos a serem realizados ao longo da sua formação. A questão, porém, é: será essa a melhor metodologia para preparar o futuro profissional para enfrentar o mundo? No momento atual, não seria mais adequado uma formação mais aberta, capaz de lidar com a diversidade e a individualidade?
A tecnologia resolve problemas na mesma medida que os cria. Tivemos que aprender a manejar celulares, para facilitar a comunicação. Temos que decorar dezenas, talvez centenas, de senhas, para podermos fazer compras, acessar dados, transferir dinheiro, tudo em prol de uma vida mais simples e fácil. Será mesmo?
Neste ponto, parece oportuno citar o professor, escritor e historiador Luiz Antônio Simas que, ao se referir à educação no século XXI diz que “as sociedades contemporâneas são complexas e heterogêneas”, e “para isso, a escola precisa debater e fomentar ideias de forma mais plural possível”.
Ao que tudo indica, a complexidade e a fragmentação vieram para ficar, assim como as novas tecnologias da informação e comunicação, que mudam a toda hora. Não dá, portanto, para ter certeza se o processo educativo contemporâneo deve ter na integração de conteúdos e no afunilamento de experiências o caminho para a formação dos indivíduos que viverão o mundo de amanhã.