As organizações que representam o setor produtivo do Espírito Santo lançaram na semana passada um manifesto com uma agenda programática para estimular o debate público no processo eleitoral, com pontos que considero fundamentais para assegurar o desenvolvimento do Estado nos próximos anos. Entre eles, destaco o planejamento de longo prazo, a educação com qualificação profissional, competitividade e infraestrutura, com segurança para o ambiente de negócios.
O manifesto foi divulgado pelo FEF-ES, o Fórum de Entidades e Federações, que inclui as Federações das indústrias, comércio, transportes e agricultura e o ES em Ação. Como presidente emérito da Findes e membro do conselho deliberativo do ES em Ação, acompanho essa agenda de perto há anos e tenho tratado desses temas neste espaço.
Sabemos que o desenvolvimento econômico e social de um Estado ou nação não é obra do acaso nem cai do céu: ele é fruto de uma construção diária e depende de planejamento, liderança e diálogo.
O Espírito Santo de fato é um case de sucesso no Brasil: uma referência nacional em gestão fiscal, capacidade de investimentos e avanços sociais, com visão estratégica e continuidade de políticas públicas, independentemente de mudanças de governo. Isso é um grande avanço, num país onde a tradição é uma administração desmontar o que foi construído pela antecessora.
Foi com base nesses princípios, de diferenciação entre política de Estado e política de governo, aliada ao diálogo e cooperação entre o setor público, a inciativa privada e a sociedade organizada, que o Espírito Santo virou a página, saindo de uma grave crise institucional, nos anos 90, para se tornar um Estado com indicadores econômicos e sociais bem acima da média nacional.
No momento em que a sociedade vai às urnas, é importante saber valorizar o caminho percorrido até aqui, preservando as conquistas, para poder construir um futuro ainda mais próspero.
Considerando todos os avanços, contudo, penso que temos a oportunidade de dar um salto ainda maior, focando em metas para elevar a produtividade dos setores instalados no Estado. Afinal, é a produtividade que determina a nossa competitividade no Brasil e no mundo.
Produtividade é o grande gargalo para o crescimento do Brasil, o que obviamente tem impacto no Espírito Santo. Por mais que façamos a nossa parte, estamos inseridos na federação e batemos no teto das limitações do país.
Carlos Alberto da Silva
Recente estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) mostra que a indústria brasileira foi a única, entre países competidores, que perdeu produtividade nos últimos 24 anos.
Entre os anos 2000 e 2024, o país perdeu 10,2% de eficiência, enquanto o México, por exemplo, ganhou 26,9% no período. O ranking é liderado pelo Reino Unido, que ampliou em 99,4% a sua produtividade, seguido por Alemanha (85%), Estados Unidos (80%) e Coreia do Sul (75%).
Destaco que, na década de 80, a Coreia do Sul estava atrás do Brasil em indicadores de riqueza e desenvolvimento industrial. O mundo avançou, nós recuamos.
Como fazer para recuperar o terreno? A agenda de produtividade está diretamente conectada à educação e ao crédito. No Espírito Santo, temos campo para avançar. O Fundo Soberano e o Bandes têm desempenhado um papel importante sem dúvida, mas penso que podemos ser mais agressivos ainda.
O Fundo Soberano, como se sabe, funciona como uma poupança de longo prazo e também como fomento ao desenvolvimento, financiando a diversificação e a modernização da economia, com foco em inovação, infraestrutura e transição energética. É natural que haja, portanto, um funding especial para investimentos em automação e tecnologia.
O Estado já dispõe de mecanismos para apoiar investimentos em automação, digitalização, inteligência artificial, descarbonização e Indústria 4.0. Penso que essa agenda pode ganhar ainda mais escala, transformando o Espírito Santo em uma referência nacional no financiamento da modernização industrial e da elevação da produtividade.
Na educação, o Espírito Santo já conta com cerca de 30% das matrículas da rede estadual vinculadas à formação profissionalizante. Considerando a rede federal, do Ifes, passa dos 40%. Mas penso que podemos chegar a 100%, melhorando a formação do capital humano e dando mais oportunidades aos jovens para inserção no mercado de trabalho, lembrando que as ocupações de maior qualificação e os melhores salários estão na indústria.
O Espírito Santo mostrou ao Brasil que responsabilidade fiscal, planejamento de longo prazo e diálogo entre os setores público e privado são capazes de transformar uma realidade. O próximo desafio é fazer dessa mesma capacidade de planejamento um instrumento para elevar a produtividade da nossa economia.
Investir em inovação, automação e qualificação profissional não é apenas preparar empresas para competir melhor. É criar empregos mais qualificados, aumentar a renda das famílias e assegurar que o Estado continue crescendo de forma sustentável nas próximas décadas.