Um levantamento recente da Receita Federal divulgado pela imprensa mostrou que as ocupações com maiores rendimentos médios no Espírito Santo estão concentradas em carreiras públicas. A média chega a R$ 41 mil e a realidade não se restringe ao Estado: em praticamente todo o país, as carreiras mais disputadas e mais bem remuneradas costumam estar ligadas ao setor público.
Podemos argumentar que muitas dessas funções exigem elevada qualificação técnica, grande responsabilidade institucional e processos seletivos altamente competitivos. Ocorre que o problema não está na simples existência dessas carreiras: está na mensagem que o arranjo institucional e econômico do país transmite para a sociedade, especialmente os mais jovens.
A pergunta que deveríamos fazer é: quais incentivos estamos oferecendo às novas gerações? Quem é estimulado a empreender, correr riscos, gerar riqueza, empregos e impostos? Quem, em resumo, vai financiar a máquina pública para que o Estado funcione?
De um lado, observamos carreiras públicas com estabilidade, remuneração elevada e previsibilidade de longo prazo. De outro, encontramos um ambiente econômico marcado por juros de 14,25 % ao ano, com elevada carga tributária, insegurança regulatória, excesso de burocracia e um custo de capital que penaliza quem deseja empreender, investir ou ampliar a produção. É o chamado Custo Brasil.
O resultado é previsível. Cada vez mais jovens talentosos direcionam seus esforços para concursos públicos, enquanto o empreendedorismo e a atividade produtiva se tornam opções menos atrativas. Onde está o incentivo a quem produz? O sonho de um filho empreendedor, onde foi parar?
O sonho americano, ou o american dream, todos conhecem: é a crença de que todos podem prosperar com base no trabalho duro. O sujeito começa vendendo sanduíche na rua e depois cria uma rede de fast food.
E no Brasil, qual é a cultura? O jornalista Paulo Francis, que morava em Nova York, ironizava o atraso do nosso capitalismo dizendo que o sonho brasileiro é um emprego público de meio-dia às seis e praia de manhã. Francis morreu há quase 30 anos e a ironia continua atual.
Não se trata aqui de uma crítica generalizada ao serviço público, mas sim de uma reflexão sobre os sinais emitidos pelas instituições e pelo próprio sistema econômico do Brasil.
Países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento construíram ambientes capazes de valorizar a inovação, o investimento produtivo, a pesquisa tecnológica e a criação de empresas competitivas.
Os Estados Unidos, por exemplo, lideram programas bilionários de fortalecimento industrial e estimulam o empreendedorismo na escola. Eles construíram um ambiente cultural, institucional e econômico totalmente favorável à livre iniciativa.
A China, a partir de uma mudança radical de mentalidade promovida no fim dos anos 70 por Deng Xiaoping, passou também a estimular a livre iniciativa. A tese central era a seguinte: se você consegue produzir, exportar, gerar empregos, trazer tecnologia ou aumentar a renda da população, o Estado deve ajudar e não atrapalhar.
Essa história é bem contada no livro “A China Sacode o Mundo”, do jornalista britânico James Kynge, que foi correspondente no país por quase vinte anos. A partir dos anos 70, o governo chinês criou zonas econômicas especiais, flexibilizou regras para pequenos negócios, permitiu iniciativas privadas e passou a premiar dirigentes locais do Partido Comunista que atraíssem investimentos. É atribuída a ele a frase: "Enriquecer é glorioso" – lição aprendida mesmo pelos comunistas. O resultado todos conhecemos.
Enquanto isso, convivemos no Brasil com uma realidade bem diferente. A busca por riqueza parece girar em torno do Estado, não do mercado. O governo e o Congresso Nacional multiplicam os gastos com seguidos benefícios eleitoreiros, ampliando a dívida pública e pressionando os juros, como se não houvesse limite fiscal.
A máquina pública, de um lado, parece capturada por interesses corporativos e pela classe política dirigente e, por outro, pelo sistema financeiro, que se beneficia do serviço da dívida e das altas taxas de juros que inibem o investimento produtivo. Parece que fazemos tudo para coibir o empreendedorismo. É o Deng Xiaoping ao contrário.
O debate nem é exatamente uma oposição entre Estado e mercado. Toda sociedade precisa de instituições públicas fortes e de servidores qualificados. A questão é encontrar equilíbrio: um país não prospera apenas administrando riqueza. Ele precisa produzi-la! Alguém precisa pagar essa conta, que não está fechando. Precisamos urgentemente de uma cultura empreendedora, que valorize quem produz.