No Palácio Anchieta, o sentimento é de que houve quebra de acordo e quebra de palavra por parte do presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos), não exatamente por ele ter antecipado a eleição da Mesa Diretora que comandará a Casa no biênio 2021-2023, mas por tê-la antecipado tanto: nesta quarta-feira (27), com mais de um ano de antecedência e a partir de uma convocação relâmpago feita pelo próprio Erick, os deputados reelegeram o atual presidente para dirigir a Assembleia até 1º de fevereiro de 2023.
Quando esta quarta-feira amanheceu, nem o governador Renato Casagrande (PSB) nem agente algum do governo sabiam que Erick Musso pretendia realizar a eleição da Mesa, numa verdadeira blitz política, naquela mesma manhã. Dizem que o governo nunca é surpreendido com nada que venha da Assembleia e que tudo sempre é combinado antes entre os chefes dos dois Poderes. Desta vez, a premissa foi quebrada. O governo foi mesmo pego de calças curtas e com a guarda baixa por Erick e seu núcleo político. Foi a popular “bola nas costas”.
“Bola nas costas” em termos, porque havia, sim, uma combinação prévia apalavrada entre Casagrande e Erick Musso, mas que não teria sido seguida rigorosamente pelo segundo. Que acordo exatamente era esse?
O ACORDÃO ENTRE OS PODERES
No dia 6 de novembro, Erick Musso recolheu assinaturas de 25 dos 30 deputados para apresentar a sua PEC que permitiria a ele mesmo antecipar a eleição da Mesa para o biênio iniciado em 1º de fevereiro de 2021 – a qual, a princípio, deveria ser realizada apenas na mesma data. O governador veio a público manifestar-se contra essa proposta, por discordar, no mérito, da ideia de se antecipar essa eleição.
No dia 13 de novembro, antes de um almoço para todos os deputados, no Palácio Anchieta, Casagrande e Erick tiveram um momento a sós. O governador disse pessoalmente ao presidente ser contra a ideia da PEC, mas que aquele era um assunto da Assembleia e que respeitaria a decisão dos deputados. Por pragmatismo – uma de suas principais características políticas –, Casagrande não quis peitar Erick, muito menos mobilizar a sua base na Assembleia para derrubar essa PEC. Casagrande sabia que precisava (e precisa) muito de Erick neste fim de ano: tem uma reforma da Previdência para aprovar na Casa, e quem define a pauta e o ritmo das votações na Assembleia é o presidente.
No dia 19, terça-feira da semana passada, houve uma reunião decisiva no Palácio em que os dois celebraram um acordo de mútuo benefício: em troca de uma tramitação acelerada dos projetos da reforma da Previdência (o que de fato foi cumprido), Casagrande garantiu a Erick que não faria nada para impedir a aprovação da PEC da antecipação da eleição da Mesa (o que também foi cumprido). Houve uma condição, porém: o presidente da Assembleia deveria avisar com antecedência ao governo a data da eleição da Mesa e teria que topar acomodar deputados governistas nos outros cargos-chave da Mesa (o 1º e o 2º secretários e, principalmente, o 1º vice-presidente). Assim ficou combinado.
Também participaram dessa reunião, pelo lado de Erick, seus dois principais aliados políticos: o deputado federal Amaro Neto e o diretor-geral da Assembleia, Roberto Carneiro (ambos do Republicanos); pelo lado do governo, os secretários da Casa Civil, Davi Diniz, e de Governo, Tyago Hoffmann (PSB). Assim ficou combinado. Ainda no dia 19, Erick protocolou sua PEC. Nesta segunda-feira (25), foram aprovados em plenário, a jato, tanto os projetos da reforma da Previdência, de interesse do Executivo, como a PEC de Erick Musso. E viveram felizes para sempre. Só que não. Na calada da noite desta terça (26), tudo mudou.
NA CALADA DA NOITE, O IMPASSE
Nesta terça-feira (26), por volta das 19 horas, Erick Musso solicitou a Casagrande uma audiência no Palácio Anchieta. Foi recebido por volta das 20h, acompanhado do líder do governo, Enivaldo dos Anjos (PSD), e do 1º vice-presidente da Mesa, Marcelo Santos (PDT). Esse é o trio de ferro que de fato comanda a Assembleia desde que Erick chegou à presidência, em 2017. Davi Diniz também participou dessa conversa. Lá pelas tantas, Enivaldo disse ao governador que eles gostariam de realizar a eleição da Mesa na próxima segunda-feira (2). Casagrande não topou. Enivaldo apresentou argumentos políticos. O governador foi irredutível.
A atmosfera na sala ficou asfixiante. Os demais, então, se retiraram, deixando a sós os chefes dos dois Poderes. Não houve consenso entre Erick e Casagrande. Este apresentou uma proposta ao presidente do Legislativo: que a eleição da Mesa fosse realizada logo após o recesso parlamentar de julho do ano que vem, pouco antes do início do período de campanha para as eleições municipais; assim, Erick poderia ser reconduzido por todos os atuais deputados, conforme desejava, mas não com essa antecedência toda. A proposta de Erick foi outra: realizar a eleição logo após o recesso deste fim de ano, na retomada dos trabalhos, em fevereiro do ano que vem. Não houve consenso sobre a data. Erick foi embora, ficou de refletir e dar uma resposta ao governo nesta quarta-feira.
E a resposta veio.
A REAÇÃO FRUSTRADA
Quando o dia raiou, chegou ao governo a informação sobre uma movimentação do núcleo de Erick para realizar a eleição naquela mesma manhã. Entre as 8h e as 9h, horário do início da sessão, o chefe da Casa Civil disparou telefonemas para deputados como Marcelo, Enivaldo e Freitas (PSB), pedindo e obtendo a confirmação.
Com muito pouco tempo para organizar uma reação ou uma contraofensiva, o Palácio Anchieta se focou em duas estratégias. A prioritária: obstruir a sessão, esvaziando o plenário para não dar quorum à eleição; a segunda: construir e lançar uma chapa alternativa à de Erick. Esta até chegou a ser ensaiada em plenário, exatamente por aqueles poucos deputados que não votaram em Erick (Dary Pagung e Gandini à frente), mas não chegou perto de vingar. O governo não teve força. O grupo de Erick passou por cima. O presidente garantiu a reeleição e deixou a próxima Mesa a seu feitio.
O governo, em resumo, foi atropelado e perdeu essa de goleada. Atenção total agora se haverá troco. Um movimento assim não costuma ficar impune. A informação apurada pela coluna é a de que a relação institucional com certeza já está abalada, mas o grau do abalo só poderá ser medido daqui para a frente. No Palácio, o sensor de desconfiança em relação a Erick explodiu. Essa é a versão e a visão colhidas junto a fontes ligadas ao governo, na Assembleia inclusive. Erick ainda não apresentou a sua.
NAS MÃOS DE ERICK
A pauta da Assembleia – logo, o governo Casagrande – está nas mãos de Erick Musso por todo o atual mandato do socialista, que se encerra em 31 de dezembro de 2022.
MACHADO CHORA NO OMBRO DE IRINY
No plenário, o maior derrotado com os fatos desta quarta foi o deputado Luciano Machado (PV). Governista, o 1º secretário da Mesa não votou na chapa de Erick – assim como não votou na resolução que esvaziou os poderes internos dos secretários, proposta por iniciativa de Erick e aprovada em plenário, em fevereiro. Após a sessão que selou a terceira eleição interna de Erick, Machado foi consolado, na saída do plenário, por Iriny Lopes (PT), que também não votou em Erick. Estava visivelmente desolado.
DARY CHAMA ERICK DE “GRATZ”
Dary Pagung e Erick se odeiam mais do que nunca. Dary queria ser presidente. Perdeu muito espaço este ano, com a permanência de Erick no poder. Na sessão desta quarta, o deputado de Baixo Guandu teria chamado o presidente de “novo Gratz”, na cara dele.
CELULARES NO MODO “NÃO PERTURBE”
Para não sofrerem “interferência externa”, vinda do Palácio Anchieta, todos os deputados da tropa de choque de Erick combinaram de deixar os celulares sobre as respectivas mesas, no momento da votação. Funcionou. Enquanto os celulares vibravam em vão sobre as mesas, o grupo de Erick vibrava com a vitória política na eleição da outra Mesa.