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'Já recebi mensagens machistas dizendo que mulher não sabe fazer conta'

Uma voz negra e feminina quebrando estereótipos, Nath Finanças fala sobre o mundo financeiro de forma leve e divertida, voltada para pessoas de baixa renda; ela integra a lista "30 Under 30" da Forbes no Brasil

Tempo de leitura: 2min
Nath Finanças
Vitória
Publicado em 05/02/2022 às 18h54

Ela fala sobre finanças, investimentos, mercado financeiro e dá dicas para microempreendedores. Nada mais natural do que esperar, então, aquela pose com terninho e braços cruzados na foto de perfil, correto? Não! Com mais de 280 mil inscritos no canal do Youtube e 485 mil seguidores no Twitter, a jovem Nath Finanças é quase o oposto e vem inovando uma área considerada tradicional.

Aos 22 anos, ela traz informações inusitadas na biografia nas redes sociais: "fã de rap e de memes". É por meio dessa linguagem acessível e divertida que a administradora compartilha o conhecimento que adquiriu na faculdade. Nascida em Nova Iguaçu (RJ), ela tem como público-alvo pessoas de baixa renda, com até 35 anos e composto principalmente por mulheres.

Listada entre os principais nomes do país com menos de 30 anos pela Forbes, ela é a primeira na família do pai a concluir o ensino superior, mas não espere romantizações – pelo contrário. Mulher negra, ela conta que enfrentou resistências, recebeu muitos comentários machistas e também cometeu erros.

Em entrevista exclusiva para o Todas Elas, a Nathália Rodrigues fala sobre a própria trajetória, dá dicas para ter uma vida financeira saudável, opina sobre algumas das principais medidas econômicas do país e comenta os efeitos da pandemia do novo coronavírus.

CONFIRA

Como você virou produtora de conteúdo e por que resolveu falar sobre finanças para pessoas de baixa renda?

Foi por conta da faculdade em Administração. Eu aprendi finanças pessoais e mercado financeiro na faculdade. Quando eu fui pesquisar para aprender mais, só tinham canais em que você via "Como guardar R$ 1 mil", "Como investir R$ 1 mil", "Como multiplicar R$ 1 mil". Não era a minha realidade. Eu era estagiária, ganhava menos de R$ 600. Então eu pensei: "Cadê as pessoas de baixa renda falando sobre esse assunto?" A gente pesquisava, pesquisava e não via alguém que falasse "Eu sou pobre, baixa renda e vamos falar sobre dinheiro e organização financeira". Esse foi o insight: vi que faltavam pessoas falando sobre educação financeira para o público de baixa renda. No final de 2018, eu escrevi o projeto Nath Finanças e, em 2019, eu coloquei em prática. Mas estava com muito receio, muito medo, porque eu estava falando só o que eu aprendi na faculdade, porque não tinha o hábito de falar sobre dinheiro em casa. Na verdade, para muitos brasileiros, falar sobre o dinheiro é um tabu, mas, às vezes, você falar com o seu filho para ele entender a realidade ajude a evitar algumas frustrações.

Para além do recorte do perfil de baixa renda, com quem você fala atualmente?

O recorte é de pessoas que moram na periferia, na favela, que têm dificuldade de lidar com o dinheiro, mas hoje em dia o canal é muito diverso. Antes, era focado no público baixa renda, mas eu vejo também pessoas que estão ganhando R$ 3 mil ou R$ 5 mil e que começaram agora a própria vida financeira, sem saber o que fazer. Inclusive tem jovens aprendizes que não sabem como organizar as finanças. Se você está ganhando um salário mínimo, tem que se organizar. Claro que a gente deveria ter o salário acompanhando a inflação. Os problemas não são só culpa nossa, mas não é fácil você chegar a ganhar R$ 5 mil no Brasil, ainda mais agora em uma pandemia. Tem gente que está aprendendo comigo porque é mais fácil, é uma realidade mais próxima. É bem legal ver que você está focado a ensinar e aprender junto com eles.

Quais as principais dúvidas que você percebe que as pessoas têm?

Hoje muita gente está falando sobre investimento, sobre bolsa, mas ninguém ensina o básico, que é o principal para ter uma vida financeira mais saudável e estável. As principais dúvidas são: "Como eu começo?" e a questão das dívidas. Essa é uma das grandes perguntas que eu recebo hoje, como renegociar e como controlar o cartão de crédito. Agora como estou focada em MEI, surgem dúvidas de como se oficializar e como dar baixa, por exemplo. Hoje sabemos que muitas pessoas precisaram abrir e se tornar MEIs e não sabem como começar, por isso estou focando nessas principais dúvidas. De investimento também chegam perguntas, mas em menor quantidade, porque as pessoas que me seguem não estão investindo na bolsa. Elas estão, primeiro, quitando dívidas, começando a se organizar, a ter um fundo de emergência.

Nath Finanças já comentou sobre o aumento do gás e da inflação nas redes sociais. Crédito: Reprodução | Instagram
Nath Finanças já comentou sobre o aumento do gás e da inflação nas redes sociais. Crédito: Reprodução | Instagram

E quais as principais dicas que você pode dar para essas pessoas?

As pessoas tendem a demonizar o cartão de crédito, mas eu sei que quem ganha pouco precisa do cartão de crédito para comprar um notebook para trabalhar, uma geladeira, um fogão, porque não tem esse dinheiro para pagar à vista – e são coisas caras, mas muitas vezes itens que são essenciais. Eu recomendo só utilizar cartão de banco, e não de loja, porque não tem nenhuma vantagem: você paga anuidade e tem um limite baixo. Então, é melhor ter um cartão sem anuidade e com limite um pouco vantajoso e ir usando esse valor para aumentar o limite. Se for realizar um parcelamento, termina um para começar outro. Isso é um grande problema: as pessoas fazem a parcela do celular, do notebook, da geladeira e pensam "são só dez parcelas de R$ 30, são só dez parcelas de R$ 100". Daí, quando juntam todas as parcelas, fica uma bola de neve e não conseguem pagar. Então, eu recomendo terminar um para começar outro e utilizar o cartão de crédito a seu favor. Porque é isso que o banco quer, que você faça o pagamento mínimo da fatura e fique no círculo vicioso. Ah, e se for fazer compra no cartão de crédito, é de valores altos, não é uma blusinha ou uma bala. Outra coisa, que muita gente não sabe também, é que é possível diminuir o limite do cartão de crédito no aplicativo do banco. Se você tem um limite de R$ 1 mil e recebe R$ 1 mil, você não vai gastar R$ 1 mil no cartão de crédito. Então, o ideal é diminuir, colocar um limite de R$ 100 ou R$ 200 por mês, porque aí você já tem o limite para ver que não pode gastar mais do que isso.

E quais as dicas para quem quer renegociar dívidas?

Sobre a questão de dívidas, o que eu sempre recomendo é não ir ao banco para negociar. Recomendo que faça pelo telefone, porque pelo telefone é mais fácil. Pessoalmente a gente se sente constrangido, se sente envergonhado. Quando você vai no banco para negociar, ele vai colocar o máximo de parcelas possíveis para você pagar. O cara já tem um treinamento para isso e você vai acabar aceitando. Faça o planejamento, pega um caderno e pegue as dívidas que você tem com os maiores juros. Vê quanto você pagava antes, quando está pagando agora e vai negociar uma por uma. A instituição financeira pode negociar 100% do valor contigo por telefone. Você vai colocar o quanto você poderia pagar por parcela e a partir daí faz a negociação. Se colocarem um valor maior, você recusa e liga de novo. É assim que você consegue renegociar, porque indo pessoalmente eles conseguem pegar sua parte psicológica. Muitas decisões financeiras são feitas no calor do momento, quando estamos felizes ou tristes. Por telefone, você consegue pedir um momentinho, pegar a calculadora e ver quanto ficaria a parcela e os juros. Outra dica para quem quer negociar é o feirão "Serasa Limpa Nome". Todo ano, entre março e novembro, tem. Se você tiver o nome no Serasa você consegue negociar com até 97% de desconto.

Nath Finanças

Administradora

"Dinheiro não é só matemática, entra comportamento, entra sentimento"

Você nasceu em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, e foi a primeira da sua família, por parte de pai, a fazer ensino superior. Como é para você ter conseguido alcançar o que tem hoje?

É muito gratificante, mas também é muito triste, porque tem muita gente que já tem pais e mães, às vezes até avós, com ensino superior, enquanto a gente ainda está engatinhando. Ainda tem muitos resquícios do período da escravidão. Muitas pessoas negras não conseguiram entrar no ensino superior porque não receberam nenhuma ajuda financeira ou do governo, porque começaram do zero, zero mesmo. É muito bom ver meus pais felizes, eu com diploma, formada e fazendo o meu trabalho.

Nesse percurso, antes de chegar onde chegou, você cometeu muitos erros? Algum financeiro?

Eu já vivi nesse círculo vicioso do cartão de crédito e ver o salário ir diretamente para o cartão. É muito doloroso ver seu dinheiro indo embora assim. Isso tem uma questão muito do nosso sentimento. Para quem cresceu pobre ou baixa renda, você ganhar seu dinheiro, R$ 500 que seja, já é considerado muita coisa, porque você sempre recebeu não. Não para comprar um tênis, não para comprar uma bolsa, não para ir no McDonald's. A primeira coisa que eu fiz quando eu ganhei o meu salário foi comer no McDonald's, porque antes eu não tinha dinheiro. Foi uma sensação incrível, não me arrependo de fazer isso, mas vejo que poderia ter guardado um dinheirinho naquela época para uma reserva. Eu só fui fazer isso em 2018, e eu já trabalhava desde os 15 anos. Aliás, em 2020, quando estava no processo de mudança, eu queria utilizar uma penteadeira, mas eu sou míope, grau cinco, então eu tinha que tirar os óculos para fazer a maquiagem. Aí eu fiquei: "Meu Deus, gastei dinheiro à toa". Dei para a minha cunhada que ela está fazendo esse processo de maquiagem, então foi usado para alguma coisa. Mas a gente comete erros. Quem nunca? Todo mundo está aqui para errar, acertar e buscar a melhor forma de ter uma vida financeira mais saudável. É importante falar de educação financeira para não viver só de pagar boleto, porque depois, quando acontece alguma medida política que afeta o nosso dinheiro, a gente nem liga, porque está vivendo para pagar boleto. Isso é o que o nosso sistema também quer: que a gente continue pobre, sem subir na vida, sem crescer e sem evoluir. É importante ir contra essa estatística.

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Administradora

"O que eu quero é que as pessoas não vivam só para pagar boleto, porque é isso que acontece: as pessoas ficam só pensando em pagar boleto, mas nunca relaxar ou ter uma qualidade de vida"

Você sofreu ou sofre muita resistência por ser uma mulher negra na área financeira, que é majoritária e tradicionalmente masculina?

Claro que eu sofri, porque quem vai ver uma menina falando só de finanças pessoais e organização financeira? Recebi muita resistência, principalmente de homens. O mercado financeiro é composto por muitos homens e homens bem machistas, preconceituosos. Isso acontece não só comigo, mas com mulheres que falam de finanças e mercado financeiro. A primeira coisa é que eles confundem... acham que a gente está falando de economia, o que é diferente de finanças. Quando eu comecei a falar de finanças, eu recebi muitas mensagens de homens falando que eu falo o óbvio. Eu queria muito que fosse óbvio, porque estaríamos falando de outras coisas: de financiamento, da reforma tributária... Queria mesmo que finanças pessoais fosse óbvio, mas não é para todo mundo. Não tivemos educação financeira em casa, nem nas escolas. Tivemos que aprender quando começamos a ganhar nosso dinheiro e errando. A gente aprendeu a gastar dinheiro demais, se endividando. A gente não aprendeu quando era criança a diferença entre débito e crédito, que a gente pode diminuir o limite do cartão no aplicativo, o que significa extrato bancário. A gente aprendeu trabalhando, quando ganhou o primeiro salário que caiu em uma conta-corrente com tarifa alta. Eu queria que fosse óbvio para a gente não passar por essas coisas, mas, infelizmente, não é. É importante chegar e quebrar esses paradigmas.

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Administradora

"Recebi mensagens machistas dizendo que mulher não sabe fazer conta, que não sabe investir, porque existe esse estigma, né? De que a mulher é gastadeira e o homem é investidor. Mas isso não é a verdade"

Eu sofri também com uma questão ideológica. Recebi críticas do pessoal de esquerda, porque falar de finanças pessoais favorece o capitalismo. E recebi críticas de direita, que eu não sou meritocrática, que eu devia falar para as pessoas correrem atrás, mas eu sei que a realidade não é assim. Se você nasceu na Zona Sul, em Copacabana, ou na Baixada, em Nova Iguaçu, tem uma puta diferença em relações financeiras. Então, a gente também entra em uma questão ideológica e política. Não é fácil, porque quando você fala na internet, as pessoas não têm pudor. Elas não pensam dez vezes. São pessoas que estão com um negóciofake e tentam te abalar. Houve momentos em que eu fiquei muito triste. Inventavam mentiras, fake news, sobre mim, falando que eu morava no Leblon, que trabalhava em uma estatal e tinha dinheiro. Isso, para mim, é o pior. Antes eu batia muito mais de frente, eu discutia. Hoje estou mais tranquila, sou mais focada em passar os conteúdos do que bater boca, porque vai ter gente que vai te odiar pelo simples fato de ser você. Infelizmente, eu aprendi na dor, vendo os comentários. Hoje eu foco nos comentários positivos.

A Nath lançou o livro
A Nath lançou o livro "Orçamento Sem Falhas: Saia do vermelho e aprenda a poupar com pouco dinheiro". Crédito: Reprodução | Instagram

Você fala sobre sistema financeiro, MEI, investimentos... Durante a pandemia, qual você sentiu ser a principal demanda das pessoas em relação à economia e finanças?

Em 2020, eu foquei muito em falar sobre o auxílio emergencial e foi o ano em que eu mais cresci. Existe uma culpabilização do pobre por ele estar naquela situação, sem considerar o sistema em si. Grande parte do meu público recebe Bolsa Família. Quando solto o calendário no meu stories, tem mais de 200 ou 300 pessoas que vão ali para saber. Então, o que elas estavam precisando? Do auxílio emergencial. Me dediquei a tirar dúvidas. Inclusive, esperavam eu divulgar o calendário para não cair em golpe, porque as pessoas também não tinham conta bancária. Então, era preciso educá-las para não cair em golpe, link falso e perder esse dinheiro. Eu mostrava como fazia, como consultar o calendário, quem podia ou quem não podia receber, como devolver... Foquei 100% até dezembro nisso, porque era o que as pessoas precisavam. Também falei sobre renegociar boletos e em economia doméstica. Esses eram os pontos principais. Não fiquei falando que era hora de investir na bolsa, porque não era esse o meu público.

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"Não tem como falar para a pessoa gastar menos do que ganha, se ela foi demitida ou teve redução salarial"

No início da pandemia, se falava muito que todos estavam no mesmo barco. Depois, com o tempo, essa afirmação foi sendo desmontada. A possibilidade de home office, de não trabalhar e a pandemia, de forma geral, serviram para mostrar a desigualdade do nosso país?

A pandemia mostrou, sim, a desigualdade. Tinha gente que não podia ficar de home office porque precisava pagar as contas. O exemplo mais concreto é o das diaristas. Muitos patrões que ganham bem não liberaram as diaristas para eles próprios limparem os banheiros deles. Teve uma mulher que a empregada pegou Covid-19 três vezes e estava achando que estava tudo certo, enquanto ela não lavava o banheiro e não limpava nada. Olha o tamanho da desigualdade. Eles poderiam liberar como foi sugerido e pagar, porque as diaristas precisavam pagar as contas. Por que não deu um valor para elas? Enquanto falavam #ficaemcasa, estava a empregada limpando a casa atrás. Eu vejo que mostrou o tamanho da desigualdade e que não estamos no mesmo barco. É muito fácil ficar de ome office quando você está em uma mansão na Barra da Tijuca. O que você está perdendo? Viajar. E, vamos ser sinceros, o que eu vi de gente famosa indo para Bahia é surreal. Fernando de Noronha, então, nem se fala. Essas pessoas estavam 'cagando', porque tinham dinheiro para pagar o teste PCR. Quem é que tem dinheiro para pagar R$ 300 em um teste? Isso, sim, mostra a desigualdade das pessoas. Essa doença chegou pelas pessoas ricas e passou para os trabalhadores. Eles têm como não ficar aglomerados em trem ou metrô? Não, têm que continuar trabalhando para pagar as contas.

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Administradora

"Na pandemia, teve uma briga na econômica. Vai colocar as pessoas dentro de casa e como é que vai ser para os comerciantes? É para isso que existe o governo, o Estado. Pagamos impostos para ajudar as pessoas, os microempreendedores"

A pandemia trouxe e vai trazer consequências econômicas. Como você acha que serão os próximos anos?

É difícil fazer previsões sobre os próximos anos, porque o brasileiro vai pagar pelo o que a gente precisou fazer. Então, o auxílio emergencial foi necessário, mas esse dinheiro saiu de onde? Dos impostos. Então, vai ter aumento de muitas coisas. Vai ser difícil para os brasileiros. Não vai ser fácil pagar as contas 100%. Alguns salários talvez nem aumentem, porque muitas empresas sofreram, precisaram se reinventar para não fechar. Eu vejo que os próximos anos, como alguns economistas dizem, vai ser um momento do Brasil se reerguer. O país teve um dos maiores números de mortos e um descaso com a vacina. A gente ficou atrasado. Temos um ano de eleição e vamos precisar ter mudanças políticas. Vai ser difícil. Acho que só em 2023 que a gente vai ter um norte, que vamos nos reerguer, ver como vai ficar as nossas medidas econômicas, como os representantes vão lidar com isso. Acho que nem 2022 vamos ter certeza das coisas.

Quais os sinais que a vida financeira dá de que precisa de mudanças? Quando é possível investir?

Muita gente não leva a sério a faculdade, mas o que me deu uma guinada, tanto financeira quanto pessoal, foi a minha faculdade. Fez eu abrir a minha mente, ter o meu primeiro estágio, os meus primeiros empregos. O estudo, para mim, vai ser sempre um investimento. Se você puder sentar e estudar, pensar em objetivos... Dar uma guinada na sua vida financeira não é só ganhar mais do que gasta, mas olhar a sua organização. O que está entrando e o que está saindo. E tem o ponto em que a pessoa sabe tudo isso, mas não tem dinheiro para investir. Isso acontece. Eu vou falar que é culpa sua? Não. É porque recebe pouco, não tem como sobrar um dinheiro no final do mês. A questão é muito mais específica, como temos quase metade dos brasileiros que ganha menos de R$ 400. É preciso ter políticas públicas para essas pessoas que ganham menos de um salário mínimo. Eu precisei trabalhar com algo que não gostava para ter dinheiro para pagar o meu curso e estudar e trabalhar com o que eu gostava e passar a ter um dinheiro a mais. O que eu vejo, uma dica que eu uso para vida, é investir no estudo, que com ele você vai conseguir estabelecer objetivos e metas para a sua vida.

Você tem uma sessão no canal que é "Coach tem que acabar". Como que ela surgiu?

Eu estava cansada de ver gente inventando e se passando por psicólogo para ganhar dinheiro e vender curso. Na pandemia, aumentou o número de charlatões e, consequentemente, veio uma revolta. Porque é assim que o criminoso, o charlatão, cresce: no momento de incerteza, quando a pessoa não tem dinheiro, não tem como investir, mas precisa de renda extra. Foi uma revolta para alertar as pessoas a não passarem por esse tipo de coisa. A pessoa, por exemplo, falava que precisava de ajuda para passar por um momento de dificuldade e o cara colocava o arrasta para cima do curso e falava que ia curar 20 anos de terapia em um dia de curso. São coisas absurdas.

Recentemente, se discutiu muito a reforma da previdência e foram feitas mudanças. Como você analisa as medidas adotadas e como as pessoas devem ser organizar para a velhice?

A reforma da Previdência foi aprovada para organizar os gastos públicos, tem muitas questões dolorosas, porque foi para economizar, mas feito de uma forma, não para facilitar a vida do trabalhador, mas para o empresariado ter mais flexibilidade. Então aconselho muito as pessoas a não ficarem dependentes do INSS. Recomendo que passem a montar uma previdência privada ou separar a própria grana. A gente não se vê velho, não se vê com 70 anos. As pessoas não olham para o futuro e acham que sempre vão estar dispostas, mas quanto mais tempo passa, a mais doenças estaremos sujeitos. Se está difícil comprar um arroz hoje, você acha que vai estar fácil daqui 20 ou 30 anos? Não vai. Então, eu recomendo muito começar a pensar nisso agora. Mas aí vem aquela frase do jovem de que só se vive uma vez, então vai gastar tudo. Esse é um grande erro, porque a expectativa, antes da pandemia, era de uns 70 anos. Você não vai pagar e esperar para ver? Você vai ficar vivo. Então, eu recomendo muito, nem que seja R$ 30 reais a cada mês por 30 anos... é melhor do que não guardar nada. Você precisa fazer isso agora, porque você não vai ter a mesma disposição e pode estar em outra situação financeira. Eu penso assim: "trabalhando muito hoje para dar mimos para a Nath Finanças velhinha poder viajar, ficar de boa, e não ter que ficar trabalhando". Eu quero poder ir no médico com dignidade, não quero passar perrengue. O perrengue é agora, é trabalhar agora que eu tenho energia.

Nath Finanças

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"Temos que nos preocupar com política, porque essas decisões financeiras – como a reforma da Previdência, a trabalhista e a tributária – vão afetar o nosso bolso. Se você votou nulo, você está deixando pessoas decidirem por você e se vão te prejudicar ou não"

Você acha que existe um romantização da pobreza no Brasil?

Com certeza. Tentaram fazer isso comigo, colocar que se eu que sou uma mulher negra periférica consegui, você também consegue. Não, não. Quem está comigo sabe o quanto as pessoas tentaram romantizar o meu trabalho, eu sei que foi difícil para mim. Eu não vou dizer que é só você fazer que vai dar certo, não tem como. Eu tive um momento diferente, eu peguei o ápice de um momento em que as pessoas estavam precisando de ajuda financeira, fui parar em entrevista, em jornal. Não é só fazer o seu trabalho que você vai ser reconhecida. Eu fui reconhecida graças a Deus, mas eu quero fazer por essas pessoas que não conseguem ser reconhecidas. Eu quero poder investir nesses negócios, fazer plano de divulgação. Eu não sou a pessoa que vai romantizar o empreendedor, porque muitas pessoas empreendem por necessidade.

Nath Finanças tem mais de 370 mil seguidores no Instagram. Crédito: Reprodução | Instagram
Nath Finanças tem mais de 370 mil seguidores no Instagram. Crédito: Reprodução | Instagram

Nesse sentido, você tem algum lema de vida ou financeiro?

Eu sempre falo que se você for pensar em um negócio: empreenda para resolver problemas. Acho que esse é o ponto crucial. Se for para falar de finanças, é "falar de finanças reais para pessoas reais".

Se pudesse dar um conselho geral para as pessoas, qual seria?

Vai ser difícil pra caramba você estudar e trabalhar ao mesmo tempo e ainda pensar em novas ideias, mas não desista, porque você vai ajudar alguém. Se você está pensando em um negócio, em um empreendimento: faça – mas não vai ser fácil. Teve dias que eu chorava, não conseguia fazer o que queria, mas valeu a pena. Às vezes, o que as pessoas precisam é de um incentivo, uma oportunidade.

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