A violência dentro de um relacionamento pode começar antes do primeiro tapa. Uma crítica à roupa, a tentativa de afastar a companheira dos amigos, o controle sobre o dinheiro, os xingamentos durante uma discussão ou um soco na parede são alguns dos comportamentos apontados por mulheres que vivenciaram ou atuam no enfrentamento à violência doméstica como sinais que não devem ser naturalizados.
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Reconhecer essas situações e saber a quem recorrer são dois dos desafios enfrentados por quem busca romper o ciclo de violência. No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas, A Gazeta reúne essas duas frentes em um conteúdo especial: um vídeo com relatos e orientações de cinco mulheres e um mapa que permite localizar 545 serviços de atendimento e proteção no Espírito Santo.
Participam do vídeo a gerente-executiva de Produto Digital de A Gazeta e uma das fundadoras do Todas Elas, Elaine Silva; a ativista pelos direitos das mulheres Maria da Penha, que dá nome à lei; a apresentadora do Em Movimento, Daniela Carla; a fundadora do podcast Papo de Quinta e empreendedora Flávia Herkenhoff; e a ativista social e coordenadora do Movimento Liberta, Juciléia Ribeiro.
A gerente-executiva de Produto Digital de A Gazeta e uma das fundadoras do Todas Elas, Elaine Silva, resume um dos principais alertas do conteúdo: a agressão física pode ser precedida por outras formas de violência.
A violência física não começa na primeira agressão. Começa muito antes, nos xingamentos, no controle.
Elaine Silva gerente-executiva de Produto Digital de A Gazeta
Essa percepção também aparece nos relatos de quem viveu um relacionamento abusivo. A apresentadora do Em Movimento, Daniela Carla, conta que passou a identificar, depois da violência sofrida, comportamentos que inicialmente poderiam parecer cuidado ou preocupação.
Entre eles, estava a interferência na maneira como ela se vestia. Segundo Daniela, o então companheiro fazia comentários sobre suas roupas e dizia que estava tentando protegê-la. Depois, também passou a implicar com algumas amigas e a dizer que teriam inveja dela. Para a apresentadora, uma das lições deixadas pela experiência foi “não confundir ciúme com cuidado”.
As situações também envolviam xingamentos durante discussões e episódios em que o homem dava socos na parede ou jogava objetos no chão. Daniela conta que passou a compreender que a ausência de uma agressão física direta não tornava aquele comportamento aceitável.
As diferentes formas que a violência pode assumir também são destacadas pela empreendedora e fundadora do podcast Papo de Quinta, Flávia Herkenhoff. Ela cita tentativas de controlar a roupa, o dinheiro, as amizades, as escolhas e a própria voz da mulher como comportamentos que precisam ser observados dentro de uma relação. “Amor não controla, não humilha e não causa medo”, orienta.
Para Flávia, identificar o que está acontecendo já representa um passo para mulheres que ainda tentam compreender se estão vivendo uma relação abusiva.
Essa dificuldade de reconhecer a violência também aparece no depoimento da ativista social e coordenadora do Movimento Liberta, Juciléia Ribeiro. Ela conta que a própria Lei Maria da Penha contribuiu para que identificasse situações que havia vivido.
A Lei Maria da Penha me mostrou quais eram as violências que eu vivia. Muitas das vezes, nós, mulheres, não conseguimos reconhecer as violências que sofremos.
Juciléia Ribeiro coordenadora do Movimento Liberta
Juciléia cita gritos, socos na parede e outras manifestações de agressividade entre comportamentos que não devem ser ignorados. Para ela, identificar essas situações é também uma forma de evitar que a violência avance.
A mulher cujo nome se tornou símbolo dessa rede de proteção também participa do vídeo. Ativista pelos direitos das mulheres, Maria da Penha relembra a própria trajetória e direciona a mensagem principalmente a quem ainda enfrenta dificuldades para deixar uma relação violenta.
Ela alerta para a naturalização de humilhações e agressões dentro dos relacionamentos e orienta que mulheres procurem pessoas de confiança e recorram aos canais e órgãos disponíveis quando precisarem de ajuda.
Caso não tenham alguém próximo a quem recorrer, Maria da Penha cita o Ligue 180, além dos centros de referência, da Defensoria Pública e do Ministério Público, como caminhos para obter informações sobre direitos e sobre como sair de uma situação de violência.
É justamente nesse ponto que o mapa produzido por A Gazeta busca facilitar o acesso às informações sobre a rede existente no Espírito Santo.
Para quem precisa encontrar um serviço de atendimento, o mapa reúne 545 pontos da rede de apoio e proteção às mulheres espalhados pelo Espírito Santo.
A ferramenta permite filtrar os equipamentos por município e pelo tipo de serviço oferecido. Também é possível pesquisar diretamente pelo nome de uma cidade, bairro ou unidade.
Ao selecionar um ponto no mapa, são apresentadas informações como endereço e telefone do serviço. Dessa forma, a mulher pode consultar quais equipamentos estão disponíveis na região em que mora e identificar o atendimento de que necessita.
A ferramenta funciona, assim, como um caminho prático para uma orientação que atravessa os cinco depoimentos: não esperar que a violência chegue à agressão física para procurar ajuda.
Elaine Silva reforça esse alerta ao orientar mulheres a interromperem o ciclo diante dos primeiros sinais e a recorrerem aos mecanismos de proteção disponíveis. “Quebre o ciclo da violência. Procure ajuda, denuncie.”