Mais da metade das mulheres brasileiras com 40 anos ou mais convivem com perda involuntária de urina. É o que aponta a pesquisa inédita “Escape do Tabu: retratos da Incontinência Urinária no Brasil”, realizada pela farmacêutica Apsen. Segundo o levantamento, 56% das entrevistadas relatam ter incontinência urinária, enquanto 87% das mulheres que apresentam a condição nunca realizaram nenhum tipo de tratamento.
O estudo ouviu 1.500 mulheres com 40 anos ou mais, das classes A, B e C, de todas as regiões do país, entre 30 de junho e 8 de julho de 2026, por meio de painel online com população conectada. Os resultados evidenciam não apenas a frequência da condição, mas também o impacto que ela pode provocar na rotina e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para falar sobre o assunto e buscar atendimento.
Entre as entrevistadas que convivem com a perda urinária, 52% afirmaram ter mudado algum hábito ou enfrentado impactos na rotina por medo de episódios de escape. As adaptações incluem o uso preventivo de protetores diários, absorventes ou fraldas, a escolha de locais levando em consideração a proximidade de banheiros, mudanças na maneira de se vestir e até a redução ou interrupção de atividades físicas, esportes e caminhadas.
O uso de produtos para evitar situações constrangedoras aparece como uma das principais estratégias: 33% das mulheres disseram utilizar protetores, absorventes ou fraldas de forma preventiva. Já 11% afirmaram planejar seus deslocamentos considerando a localização dos banheiros. Os dados indicam que, para uma parcela significativa das entrevistadas, a resposta aos sintomas tem sido adaptar a vida cotidiana e tentar esconder o problema, em vez de procurar avaliação especializada.
O impacto da condição não se limita aos aspectos físicos. Entre as mulheres com incontinência urinária mista, 29% relataram aumento de ansiedade, estresse, vergonha ou tristeza relacionados ao problema. Além disso, 33% das mulheres que convivem com perda urinária afirmaram que já esconderam ou evitaram conversar sobre o assunto com pessoas próximas.
Para a psiquiatra e especialista em Sexologia Médica Carmita Abdo, os resultados mostram que a incontinência pode interferir em diferentes dimensões da vida.
A incontinência urinária pode interferir na forma como a mulher se conduz com seu próprio corpo, com as atividades cotidianas e com seus relacionamentos. Quando uma condição de saúde limita momentos importantes da vida, como sair, trabalhar ou conviver com tranquilidade, é fundamental criar espaços de acolhimento e conversa para que ela possa buscar ajuda sem constrangimento
Carmita Abdo, psiquiatra e especialista em Sexologia Médica
A dificuldade de falar sobre o tema aparece inclusive na relação com profissionais de saúde. Entre as mulheres com mais de 50 anos que apresentam incontinência urinária, 64% disseram ter dificuldade para falar sobre o problema, inclusive com especialistas. Além disso, 54% das entrevistadas afirmaram que nenhum ginecologista, clínico geral ou outro profissional de saúde havia perguntado sobre possíveis escapes de urina durante consultas de rotina.
Segundo a médica Rebeka Cavalcanti, coordenadora do setor de Urologia Feminina do Hospital Servidores do Estado e do Departamento de Urologia Feminina da SBU-RJ, a demora em buscar avaliação é uma realidade observada também na prática clínica.
“Os resultados mostram uma realidade que observamos na prática clínica: muitas mulheres convivem com sintomas de incontinência urinária por longos períodos antes de buscar avaliação especializada. A condição pode apresentar diferentes causas e manifestações, e o diagnóstico adequado é fundamental para definir a melhor abordagem para cada paciente”, afirma.
Outro dado que chama atenção é a diferença entre o conhecimento sobre a possibilidade de tratamento e a efetiva busca por atendimento. 58% das mulheres entrevistadas sabem que a incontinência urinária pode ser tratada, mas somente 13% das mulheres que convivem com a perda urinária afirmam realizar algum tratamento.
O levantamento aponta ainda que 19% das mulheres com perda urinária não sabiam que existe tratamento especializado, que há diferentes tipos de incontinência urinária ou que o urologista também atende mulheres. Ao mesmo tempo, 79% das participantes consideram a incontinência urinária um problema de saúde que precisa de atenção.
A incontinência urinária é caracterizada pela perda involuntária de urina e pode ocorrer em diferentes fases da vida, embora seja mais frequente com o avanço da idade. A condição pode afetar o bem-estar físico e também aspectos emocionais, psicológicos e sociais. Por isso, especialistas destacam a importância de investigar os sintomas e identificar a causa antes de definir a abordagem adequada.
Os resultados da pesquisa foram apresentados junto ao lançamento do movimento “Escape do Tabu”, iniciativa criada pela Apsen para ampliar a discussão sobre incontinência urinária. A campanha tem como embaixadora Helô Pinheiro, que participa de conteúdos voltados à conscientização sobre o tema.
Conhecida pela associação histórica à imagem da Garota de Ipanema, Helô, hoje aos 83 anos, foi escolhida para falar sobre envelhecimento ativo, autonomia e qualidade de vida. Na campanha, ela aborda também a importância de não deixar que o constrangimento relacionado à perda urinária limite atividades cotidianas.
Ao longo da minha vida, aprendi que liberdade está nos pequenos momentos: caminhar, viajar, encontrar pessoas, aproveitar cada experiência. Mas sei que muitas pessoas deixam de fazer coisas que gostam por causa da incontinência urinária, muitas vezes por vergonha ou por acharem que precisam lidar com isso sozinhas
Helô Pinheiro, empresária e ex-modelo
A participação da artista está inserida em uma estratégia de comunicação que pretende levar a discussão para além do ambiente médico. Segundo a proposta apresentada pela organização, o movimento contará com conteúdos educativos e ações de comunicação nas plataformas digitais.
Para Renata Spallicci, vice-presidente executiva da Apsen, o levantamento ajuda a dimensionar o silêncio em torno do problema.
“O Escape do Tabu nasce da compreensão de que informação de qualidade é um dos principais caminhos para transformar a realidade dos pacientes. Queremos estimular uma conversa aberta sobre a incontinência urinária, reduzir o estigma e mostrar que ninguém precisa conviver em silêncio com uma condição que possui diagnóstico e tratamento”, afirma.
*A repórter viajou para São Paulo a convite da Apsen.