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20 anos da Lei Maria da Penha

Agressão, morte, perseguição: uma mulher sofre violência no ES a cada 27 minutos

Dados do Anuário de Segurança mostram que o Estado contabilizou cerca de 19 mil registros de violência contra mulheres em 2025

Publicado em 07 de Agosto de 2026 às 08:33

Nicoly Reis

Publicado em 

07 ago 2026 às 08:33
Todas elas
Violência contra a mulher é objeto de mapeamento no anuário  Arte A Gazeta/Canva

O tempo necessário para preparar um café, ouvir algumas músicas ou enfrentar um pequeno congestionamento é o mesmo intervalo em que uma mulher é vítima de violência no Espírito Santo. Em média, a cada 27 minutos, um novo caso é registrado pelas forças de segurança do Estado.


O dado levantado a partir do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que, mesmo 20 anos depois da sanção da Lei Maria da Penha, o combate às violências doméstica e de gênero são desafios ainda muito longe de serem sanados.


Ao longo de 2025, o Estado capixaba registrou cerca de 19 mil ocorrências de ameaça, lesão corporal em contexto de violência doméstica, perseguição (stalking), violência psicológica e feminicídio, média de aproximadamente 52 casos por dia.

A ameaça é o primeiro sinal de alerta

Entre todas as ocorrências analisadas, o crime de ameaça continua sendo o mais frequente. Foram 14.673 registros em 2025, o equivalente a cerca de 40 casos por dia, ou um a cada 36 minutos. O volume representa aproximadamente oito em cada dez registros entre os crimes analisados.


Para a chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher (DIV-Deam), delegada Cláudia Dematté, a violência doméstica é resultado de uma cultura machista.


"Infelizmente, a violência doméstica e familiar contra a mulher é uma realidade que ainda está presente em nossa sociedade e decorre de uma cultura machista e patriarcal historicamente enraizada. A violência contra a mulher não escolhe idade, classe social ou condição econômica", afirma. 


A delegada destaca que ampliar o acesso à informação, fortalecer a rede de proteção e incentivar as denúncias são medidas fundamentais para romper o ciclo da violência.

Quando a violência deixa marcas no corpo

Os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica somaram 2.689 casos em 2025, aumento de 2,88% em relação ao ano anterior. Em média, houve uma ocorrência a cada três horas e 15 minutos no Espírito Santo.


Embora seja uma das formas mais conhecidas da violência doméstica, a agressão física costuma ser antecedida por outros comportamentos abusivos.


A socióloga e advogada criminalista Layla Freitas explica que pesquisadores têm utilizado cada vez mais o conceito de "espiral da violência", em substituição à ideia de ciclo da violência. Segundo ela, a violência não segue uma sequência previsível e pode se intensificar rapidamente.

A violência não acontece de forma linear. Ela pode começar com um comportamento controlador, evoluir rapidamente para agressões graves ou até mesmo culminar em um feminicídio. Por isso, é fundamental identificar os primeiros sinais e buscar ajuda imediatamente

Layla Freitas, socióloga e advogada criminalista

O avanço da perseguição

O crime de perseguição, conhecido como stalking, registrou 1.067 ocorrências em 2025, alta de 15,61% em relação ao ano anterior. Em média, houve um registro a cada oito horas e 12 minutos.


Para Layla Freitas, o crescimento desse tipo de crime reforça que a perseguição deve ser encarada como um importante sinal de alerta, já que frequentemente está inserida no contexto da violência doméstica.


"A gente não consegue falar de stalking sem falar de violência doméstica. Grande parte desses casos acontece dentro desse contexto, e esse comportamento precisa ser tratado como um indicativo de risco, não como demonstração de afeto", frisa.

A violência psicológica

O levantamento também contabilizou 536 registros de violência psicológica em 2025, crime tipificado na Lei Maria da Penha desde 2021. Os casos equivalem a uma ocorrência a cada 16 horas e 20 minutos.


Segundo a coordenadora do projeto de extensão Fordan da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Rosely Pires, esse tipo de violência pode ocorrer por meio de humilhações, ameaças, manipulação, isolamento, controle financeiro, chantagens e outras condutas que provoquem dano emocional ou prejudiquem a autonomia da vítima. Embora nem sempre deixe marcas visíveis, ela pode anteceder episódios de violência física e outras formas de agressão.

O desfecho mais extremo 

No topo dessa escalada está o feminicídio, crime que representa o assassinato de mulheres em razão do gênero. Em 2025, o Espírito Santo registrou 35 feminicídios consumados, média de uma mulher assassinada a cada dez dias.

O número representa redução de 15,18% em relação ao ano anterior.


Além dos casos consumados, houve 66 tentativas de feminicídio, o equivalente a um caso a cada cinco dias.


Embora os indicadores apresentem redução em relação a 2024, Layla e Rosely destacaram que os números continuam evidenciando a gravidade da violência de gênero e a necessidade de fortalecer ações preventivas para impedir que situações de violência doméstica evoluam até o desfecho mais grave.

Descumprimento de medidas protetivas

Outro indicador aparece no descumprimento das medidas protetivas de urgência (MPUs). Foram 3.435 registros, alta de 28,46% em relação ao ano anterior. Uma medida judicial destinada a proteger uma vítima foi desrespeitada a cada duas horas e 33 minutos. 

As medidas protetivas são previstas na Lei Maria da Penha (publicada em 7 de agosto de 2006) e têm como objetivo impor restrições ao agressor para preservar a integridade física e psicológica da vítima. Entre essas limitações, estão o afastamento do lar e a proibição de aproximação ou contato.


Para Layla Freitas, a alta desse indicador merece atenção porque o descumprimento da medida pode representar um agravamento do risco enfrentado pela vítima.


"Hoje conseguimos uma resposta muito mais rápida para a concessão da medida protetiva. Mas ela precisa ser efetivamente cumprida. Quando isso não acontece, abre-se espaço para que a violência evolua para situações ainda mais graves", afirma.


Na avaliação da delegada Cláudia Dematté, além da resposta policial, o enfrentamento da violência doméstica passa pela prevenção e pelo fortalecimento da rede de proteção.


"Precisamos continuar trabalhando na desconstrução de valores machistas ainda existentes, ao mesmo tempo em que fortalecemos os mecanismos de proteção e incentivamos as mulheres a denunciarem. Quanto mais informação, acolhimento e confiança na rede de proteção, maiores são as possibilidades de romper o ciclo da violência e responsabilizar os autores", afirma.

Como denunciar 

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Veja mapa de serviços de proteção à mulher em todas as cidades do ES

Mulheres em situação de violência podem buscar ajuda pelos seguintes canais:


  • Polícia Militar: 190 (em situações de emergência);

  • Central de Atendimento à Mulher: Ligue 180, serviço gratuito, disponível 24 horas;

  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams): responsáveis pelo registro das ocorrências, solicitação de medidas protetivas e acolhimento especializado;


Em caso de risco iminente, a orientação é procurar imediatamente uma unidade policial ou acionar familiares e pessoas de confiança.

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