Séruns, ácidos, máscaras e outros produtos que fazem parte das rotinas de skincare de adultos também passaram a despertar o interesse das crianças, impulsionados principalmente pelo conteúdo nas redes sociais. Mas reproduzir esses hábitos na infância pode expor uma pele ainda em desenvolvimento a substâncias desnecessárias e aumentar o risco de irritações.
A dermatologista Vanessa Mussupapo, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), explica quais cuidados fazem sentido nessa fase e o que deve ficar de fora da rotina. “Na infância, a pele é mais fina, sensível e apresenta maior permeabilidade, características que exigem atenção na escolha dos produtos. Por isso, ao contrário das rotinas extensas popularizadas nas redes sociais, os cuidados básicos costumam ser suficientes: limpeza suave, hidratação e proteção solar”, explica. O orientado é que a criança pode usar sabonete mais suave, o hidratante e o filtro solar.
A popularização do skincare nas redes sociais mudou a relação de muitas pessoas com os cuidados com a pele e aproximou crianças e adolescentes de produtos desenvolvidos originalmente para o público adulto. Para a dermatologista, porém, a infância não é o momento de reproduzir rotinas elaboradas ou testar diferentes ativos.
“Na infância, menos é mais. Para usar cosméticos mesmo, com ativos específicos, só na adolescência”, explica Vanessa.
Produtos destinados à renovação ou ao tratamento da pele adulta, especialmente aqueles com ativos mais potentes, não devem fazer parte da rotina infantil sem indicação médica. Retinol e ácido glicólico, por exemplo, não são indicados para crianças.
Além de serem desnecessários para a maioria das crianças, o uso de vários produtos pode aumentar a possibilidade de irritação e dificultar a identificação da substância responsável por uma eventual reação. A recomendação é que os responsáveis priorizem produtos desenvolvidos para a faixa etária da criança e evitem incorporar tendências de skincare adulto à rotina.
A dermatologista Isabela Bastos, convidada pela Drogaria Iguatemi, diz que a pele infantil apresenta particularidades fisiológicas e não possui as mesmas necessidades da pele adulta. "O uso indiscriminado de ativos como retinoides, alfa-hidroxiácidos (AHAs), beta-hidroxiácidos (BHAs) e antioxidantes em altas concentrações pode comprometer a barreira cutânea, aumentar a perda transepidérmica de água e favorecer dermatites irritativas, sensibilização e hiperpigmentação pós-inflamatória". Segundo a especialista, a rotina nessa fase deve priorizar higienização suave, hidratação e fotoproteção, evitando ativos antienvelhecimento e esfoliantes sem indicação médica.
Quais sinais merecem atenção?
A limpeza da pele infantil deve ser feita de maneira suave, sem esfregar excessivamente. A escolha do sabonete deve considerar a idade da criança e dar preferência a formulações menos agressivas.
Depois da higiene, a hidratação ajuda a preservar a barreira cutânea e pode ser especialmente importante para crianças com tendência ao ressecamento. A escolha do produto também deve considerar as características da pele e a indicação para o público infantil.
Entre os possíveis efeitos do uso inadequado de cosméticos estão dermatite de contato, eczema, queimaduras, manchas e acne provocada pelos próprios produtos. A dermatologista Paola Yastrebov Pomerantzeff também destaca a importância da supervisão dos responsáveis e de uma rotina minimalista. “Os pais devem controlar a compra de skincare das crianças, que deve ser extremamente minimalista e focada em hidratação, quando necessária, e proteção solar. Os sabonetes devem ser suaves, de preferência syndets ou líquidos neutros, e a face deve ser lavada apenas duas vezes ao dia”, orienta.
A proteção solar contra a radiação ultravioleta é outro cuidado importante, principalmente durante atividades ao ar livre. A partir dos seis meses, o filtro solar pode fazer parte da proteção da criança em situações de exposição, como praia e piscina, de acordo com a orientação do pediatra ou dermatologista.
Para crianças menores, Paola recomenda priorizar protetores solares físicos, minerais, à base de óxido de zinco e dióxido de titânio. A escolha dos produtos deve considerar a idade e as necessidades individuais, com orientação profissional quando necessário. "Na adolescência, quando as alterações hormonais podem aumentar a oleosidade e favorecer o surgimento de acne, a avaliação dermatológica ajuda a identificar necessidades específicas e evitar tratamentos desnecessários".
O produto, no entanto, não deve ser a única medida de proteção. Roupas adequadas, chapéus, guarda-sol e a redução da exposição nos horários de maior intensidade da radiação também ajudam a proteger a pele.
Vermelhidão, coceira, descamação ou outras alterações que apareçam após a aplicação de um produto podem indicar uma reação e devem ser observadas pelos responsáveis. Caso os sintomas persistam, a orientação é interromper o uso do produto e buscar avaliação de um dermatologista.
“Se os pais tiverem dúvidas, devem procurar um dermatologista, que poderá orientar sobre os cuidados e ajudar a montar uma rotina adequada para o tipo de pele da criança”, finaliza Vanessa.