Na cama, muitos casais parecem seguir um roteiro silencioso e programado, que começa com beijos alinhados a toques em lugares já descritos e em pouco tempo entra em jogo a penetração e a corrida para o orgasmo. Será que esse caminho marcado com foco no ponto alto, não está deixando de experimentar justamente aquilo que faz a conexão acontecer? O prazer da experiência. Em uma cultura que valoriza o desempenho e a chegada ao orgasmo, desacelerar, explorar os sentidos e respeitar o tempo de cada parceiro pode tornar o ato mais prazeroso e satisfatório.
Para muitos, o sexo foi ensinado a partir de um roteiro relativamente previsível: desejo, excitação, penetração e orgasmo e nesse modelo, beijos, carícias e outras formas de estímulos costumam ser classificados como preliminares, como se fossem apenas uma preparação para aquilo que realmente importa. Mas será que essa maneira não contribui para que muitos casais tenham pressa ou rotina na hora do prazer?
O resultado é uma vida cada vez mais acelerada, cansada e com cobranças por desempenhos, a intimidade pode acabar reduzida a uma sequência de etapas que precisam ser cumpridas. O tempo dedicado ao toque diminui, a atenção se volta para o resultado e o encontro sexual corre o risco de se transformar em mais uma tarefa.
É nesse contexto que o significado de preliminares precisa ganhar uma nova perspectiva: não como uma obrigação ou uma fórmula para melhorar o sexo, mas como uma oportunidade de explorar o corpo, perceber as próprias sensações e descobrir o que proporciona prazer a cada parceiro.
A proposta não é substituir um roteiro por outro, mas ampliar as possibilidades. O sexo não precisa seguir uma sequência predeterminada, e o orgasmo não deve ser encarado como a única medida de sucesso de um encontro íntimo.
Para entender como as pessoas enxergam isso, perguntei aos meus seguidores do Instagram o que é preliminares para eles: e a resposta foi de beijos e carícias antes do ato a tudo que estimula. Alguns foram mais detalhistas com foco no oral em partes íntimas e outros relataram a importância da conexão construída durante o dia.
“Uma boa conversa pela manhã, um mimo durante o dia, à noite um jantar. O restante é consequência”, escreveu um dos seguidores. Outro destacou que as preliminares podem começar nas primeiras horas do dia: “Desde o bom dia, não é apenas um ato sexual, mas uma forma de amar antes do sexo em si”. Para alguns casais, a antecipação, a atenção e a demonstração de afeto fazem parte da construção do clima de intimidade.
Embora essas manifestações nas redes sociais não representem necessariamente a experiência de todos os casais, elas ajudam a ilustrar uma questão importante: o desejo não está restrito ao quarto. Ele também pode ser influenciado pela qualidade da convivência, pela forma como os parceiros se tratam e pelo espaço que encontram para expressar suas vontades.
É importante destacar que o desejo nem sempre aparece de forma espontânea e precisamos entender como isso funciona - desejo espontâneo e desejo responsivo.
O desejo espontâneo é aquele que surge aparentemente sem um estímulo imediato como no início das relações onde a novidade e a paixão despertam o desejo. Já o desejo responsivo pode aparecer ou aumentar durante uma experiência agradável, como um beijo, uma carícia ou um momento de intimidade, ou seja ele precisa ser trabalhado para aparecer.
Isso significa que algumas pessoas não começam o encontro sexual sentindo uma vontade intensa, mas podem experimentar o desejo à medida que se envolvem em estímulos prazerosos. Estímulos esses que chamamos aqui de preliminares.
A comunicação é uma “preliminar” muito poderosa. Falar sobre a sexualidade ainda pode ser desconfortável para muitos casais. Expressar preferências, pedir um toque diferente ou dizer que determinada prática não está proporcionando prazer exige abertura e confiança.
Entretanto, a comunicação sexual é uma das dimensões importantes para compreender a satisfação nos relacionamentos. Uma meta-análise publicada no Journal of Family Psychology, em 2022, reuniu 93 estudos e dados de 38.499 pessoas que estavam em relacionamentos.
Os pesquisadores encontraram uma associação positiva entre comunicação sexual, satisfação sexual e satisfação com o relacionamento. A qualidade da comunicação apresentou associações mais fortes com esses resultados do que simplesmente conversar com maior frequência. Meta-análise sobre comunicação e satisfação sexual.
Isso sugere que não basta falar sobre sexo: também importa como o casal conversa. Diálogos sem acusações, escuta atenta e respeito aos limites podem ajudar os parceiros a compreender melhor suas necessidades e expectativas. Em vez de perguntar apenas se o outro gostou, vale explorar questões como: “O que faz você se sentir mais à vontade?”, “Que tipo de toque você prefere?” ou “Existe algo que gostaria de experimentar comigo?”. Essas conversas podem acontecer fora do momento sexual, quando ambos estiverem confortáveis para falar.
Vou deixar umas dicas para você colocar em prática:
Comece antes de chegar no quarto - no bom dia ou como você dormiu? Mostre zelo e carinho, um elogio que não precisa ser picante mas sensual.
Redescubra o beijo - explore outras formas, até um estalinho em um momento inesperado é prazeroso.
Explore outras partes do corpo - não fique prezo só as partes íntimas, a pele e o maior órgão sexual.
Transforme o toque em um jogo - pegue um batom ou gel comestível e peça a pessoa para sinalizar onde quer ser tocada e como.
Crie um ambiente favorável - coloque uma música, ofereça uma bebida que a pessoa gosta, uma vela ou um cheiro pode tornar tudo diferente.
Tire o orgasmo como objetivo - ele vai acontecer, o importante para a conexão é o prazer do momento.
Sem pressa, ok? No fim, o mais importante não é a duração do encontro, mas a presença e claro a maneira como o casal compreende o prazer. Em vez de se preocupar exclusivamente com o que vem depois, os parceiros podem aprender a valorizar o que acontece durante todo o percurso.
Caro leitor
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.