Mais do que contar quantas vezes um casal transa, é pensar como está o desejo, a intimidade, a comunicação e o prazer dentro dessa relação. Pois o ato pode ser mecânico e não prazeroso para muitos que pensam em quantidade. A inquietação que sempre vejo nos casais vem com a questão de: quantas vezes por semana um casal deveria fazer sexo? A pergunta parece simples, mas tem tantas camadas que pode estar mirando para o lugar errado.
Já percebeu que frequência sexual costuma ser tratada como uma espécie de termômetro do relacionamento? Se o casal transa muito, está tudo bem. Se transa pouco, tem algum problema. E a sensação é que relação é só pautada em sexo e mesmo que fosse, a sexualidade a dois é mais complexa do que uma contagem semanal.
Não existe uma frequência sexual universal que determine se um relacionamento é saudável. Casais podem ter ritmos diferentes ao longo da vida — e até dentro da própria relação. Filhos, trabalho, estresse, alterações hormonais, envelhecimento, problemas de saúde, medicamentos e mudanças na dinâmica do relacionamento podem modificar o desejo e a frequência sexual.
“Uma vida sexual saudável não é necessariamente uma maratona de atividades sexuais. É aquela em que existe espaço para desejo, prazer, consentimento, intimidade e comunicação. O problema aparece quando a vida sexual passa a ser fonte de sofrimento, cobrança ou obrigação”.
Uma pesquisa publicada no Journal of Sexual Medicine, com 126 casais jovens, investigou justamente a relação entre frequência sexual, comunicação e satisfação. Os pesquisadores encontraram associação entre frequência sexual e satisfação sexual, mas, quando o assunto era satisfação com o relacionamento, a comunicação sexual teve papel mais importante do que a frequência.
Isso ajuda a desmitificar a ideia : de que existe uma quantidade ideal de sexo que todos os casais deveriam alcançar. Na prática, dois casais podem ter frequências completamente diferentes e, ainda assim, apresentar uma vida sexual satisfatória. O que faz diferença é se os dois estão confortáveis com essa dinâmica.
Um dos desafios mais comuns dentro dos relacionamentos aparece quando os parceiros possuem níveis diferentes de desejo. Um quer mais frequência. O outro, menos. Um gostaria de experimentar coisas novas. O outro prefere manter os mesmos hábitos. Um sente falta de intimidade; o outro não percebe que existe um problema.
A diferença de desejo, é algo comum e por si só, não significa que exista algo errado com um dos parceiros. O problema pode surgir quando essa diferença não consegue ser negociada e passa a produzir rejeição, cobrança, culpa ou mágoa.
O casal não precisa necessariamente ter o mesmo nível de desejo o tempo inteiro. O importante é conseguir conversar sobre a diferença sem transformar o parceiro que deseja menos em ‘problemático’ ou aquele que deseja mais em ‘tarado”.
Quando a relação sexual acontece por prazer, desejo, curiosidade, conexão ou vontade de compartilhar uma experiência, ela tende a ser vivenciada de maneira diferente daquela que acontece por medo de perder o parceiro, para evitar uma discussão ou simplesmente para cumprir uma obrigação. Isso não significa que todo encontro sexual precise começar com um desejo intenso. O desejo pode mudar durante a aproximação e a intimidade. Mas existe uma diferença importante entre dar espaço para o desejo aparecer e sentir-se pressionado a fazer sexo.
O desejo precisa de espaço e infelizmente é comum achar que o desejo sexual precisa aparecer espontaneamente para que o sexo seja bom. Ele pode ser construído, incentivado e até mesmo empurrado. Com conversas, fantasias, leituras, filmes mais sensuais…etc. Em relacionamentos longos, nem sempre o desejo surge espontaneamente. Talvez ele precise de ajuda para aparecer como o contato, o carinho, a conversa, o beijo ou outras formas de intimidade que a pessoa se identifique.
No meu consultório trabalho uma ferramenta com os casais chamada “mapa erótico” onde identifica quais gatilhos ativam psicologicamente cada um dos parceiros e como estimulam. Geralmente o gatilho de um não é o gatilho do outro.
Também ajuda com a comunicação sexual que na maioria é falha e isso é ótimo, pois temos a oportunidade de compreender que desejo e excitação podem funcionar de maneiras diferentes e que a sexualidade não precisa seguir sempre a mesma sequência. É importante diferenciar ‘não estou com vontade agora, mas tenho abertura para me aproximar e descobrir como me sinto’ de ‘não quero e estou me sentindo pressionada’. São situações completamente diferentes.
Ter uma vida sexual movimentada, saudável não significa necessariamente buscar experiências cada vez mais ousadas e nem transar todos os dias. Significa ter conexão, intimidade suficiente para perguntar ao parceiro o que ele gostaria de experimentar. Falar sobre uma fantasia. Mudar a rotina. Criar um momento de intimidade sem esperar que ele aconteça espontaneamente. Redescobrir o próprio corpo. Experimentar novas formas de carinho.
Mais do que uma determinada frequência, alguns elementos aparecem como importantes para a qualidade da vida sexual:
- Consentimento: os dois podem escolher participar ou não.
- Comunicação: existe liberdade para falar sobre sexo.
- Prazer: o encontro sexual não é centrado apenas na obrigação de satisfazer o outro.
- Respeito aos limites: fantasias e desejos podem ser conversados sem pressão.
- Intimidade: existe espaço para conexão emocional e física.
- Flexibilidade: o casal consegue adaptar a sexualidade às diferentes fases da vida.
- Curiosidade: existe abertura para descobrir e redescobrir o que funciona para os dois.
- Ausência de cobrança por uma “performance” sexual: sexo não precisa ser uma prova de amor nem uma obrigação conjugal.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja “quantas vezes vocês fazem sexo?”, mas sim:
“A vida sexual que vocês têm hoje é a vida sexual que os dois gostariam de ter?”
Se a resposta for não, a questão deixa de ser simplesmente aumentar a frequência. Pode ser necessário entender o que mudou, quais são as necessidades de cada parceiro e o que está impedindo que o casal construa uma sexualidade mais satisfatória.
E, em alguns casos, conversar com um profissional especializado pode ajudar o casal a sair do ciclo de cobrança e encontrar novas formas de negociar desejo, intimidade e prazer.
Porque uma vida sexual saudável não é aquela que parece perfeita por fora.
É aquela em que os dois conseguem encontrar espaço para desejar, conversar, escolher, experimentar, colocar limites e sentir prazer juntos.
Caro leitor
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.