Nesta sexta-feira, 31 de julho, é celebrado o Dia Mundial do Orgasmo, uma data que também abre espaço para discutir um tema ainda cercado por tabus, desinformação e até frustrações. Enquanto, para algumas pessoas, o orgasmo representa o ápice da relação sexual, para outras ele simplesmente não acontece. E essa realidade é mais comum do que se imagina.
Para entender essa sensação, imagine estar no alto de uma montanha-russa. O frio na barriga aumenta, a expectativa cresce, a respiração acelera e tudo indica que a grande descida está prestes a acontecer. Mas, justamente nesse momento, o carrinho trava. A experiência é interrompida antes do clímax. Para muitas pessoas, é exatamente assim que pode ser a frustração de não conseguir chegar ao orgasmo.
Pois é assim que acontece com quem não consegue ter um orgasmo. E quando isso acontece uma vez ou duas, ok, mas se é uma situação constante, indica um problema. A dificuldade persistente ou a ausência de orgasmo, mesmo diante de estímulos adequados, é uma disfunção sexual e se chama anorgasmia. Mais do que uma questão de desempenho, trata-se de uma condição que pode afetar a autoestima, a qualidade dos relacionamentos e a saúde emocional.
Segundo a CID-11 e o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) a anorgasmia caracteriza-se pela dificuldade marcante, atraso significativo ou ausência de orgasmo, acompanhada de sofrimento clínico e persistente. Ou seja, nem toda pessoa que demora para atingir o orgasmo apresenta um transtorno. O diagnóstico depende da frequência dos sintomas, da intensidade do sofrimento e do impacto na qualidade de vida.
Essa condição pode acometer homens e mulheres, embora seja mais frequentemente na população feminina. Ela pode se manifestar de diferentes formas:
* Primária: quando a pessoa nunca experimentou um orgasmo.
* Secundária: quando já teve orgasmos anteriormente, mas deixou de tê-los.
* Situacional: acontece apenas em determinadas circunstâncias ou com determinados estímulos.
* Generalizada: ocorre em qualquer contexto sexual.
É importante destacar que cada corpo é um corpo e responde de maneiras diferentes aos estímulos. Não existe um tempo certo, um ponto de estímulo certo, ou seja não tem receita de bolo para chegar ao orgasmo, e comparar a própria experiência com padrões apresentados em filmes, redes sociais ou pornografia pode gerar expectativas irreais.
Mas afinal, por que algumas pessoas não conseguem atingir o orgasmo? As causas podem ser físicas? O emocional interfere? Existe tratamento? Sim, as causas são variadas e a compreensão da origem da dificuldade é o primeiro passo para recuperar uma vivência sexual mais saudável.
Entre as causas orgânicas mais comuns estão: alterações hormonais, especialmente na menopausa pós parto, doenças neurológicas, diabetes e doenças cardiovasculares, cirurgias pélvicas dores em geral, uso de medicamentos principalmente alguns antidepressivos, antipsicóticos e anti-hipertensivos.
Fatores psicológicos:
A mente exerce um papel decisivo na resposta sexual. Ansiedade, estresse, depressão, culpa relacionada ao ato, baixa autoestima, educação sexual repressora, medo de falhar e experiências traumáticas podem dificultar ou impedir o orgasmo.
Outro aspecto importante é a chamada ansiedade de desempenho. Quanto maior a preocupação em “precisar chegar ao orgasmo”, mais difícil pode ser relaxar e permitir que o corpo responda naturalmente aos estímulos.
Fatores sociais:
O relacionamento também influencia, questões conjugais frequentemente aparecem como fatores associados à anorgasmia. Dificuldade de comunicação, conflitos frequentes, ausência de intimidade emocional, medo de julgamento ou falta de conhecimento sobre as preferências do parceiro podem reduzir o prazer sexual. Em muitos casos, o problema não está no corpo, ou em como estimula-lo mas na qualidade da conexão do casal e na forma como ambos vivenciam a intimidade.
O tratamento existe e costuma apresentar bons resultados quando a causa é identificada. E é muito eficaz quando as pessoas envolvidas se empenham para o resultado.
E pode envolver acompanhamento com médico ginecologista, urologista ou endocrinologista para investigar causas físicas, revisão de medicamentos que possam interferir na resposta sexual, psicoterapia, especialmente quando existem fatores emocionais envolvidos, terapia sexual, que trabalha educação sexual, redução da ansiedade, autoconhecimento corporal, comunicação entre o casal e exercícios específicos para favorecer o prazer, fisioterapia pélvica, quando há alterações da musculatura do assoalho pélvico ou dor durante a relação.
É natural que, em alguns momentos da vida, o orgasmo demore mais para acontecer ou não aconteça. O problema merece atenção quando a dificuldade é persistente, ocorre de forma repetitiva e provoca sofrimento, frustração ou prejuízo nos relacionamentos.
Importante: Prazer vai além do orgasmo
Embora o orgasmo seja uma experiência prazerosa para muitas pessoas, ele não deve ser encarado como a única medida de uma vida sexual satisfatória. Sem cobranças por favor.
Quando o orgasmo deixa de acontecer não precisa ter vergonha ou medo, e o silêncio não precisa ser a única resposta. Com informação de qualidade, acolhimento e acompanhamento profissional, é possível compreender as causas da anorgasmia e recuperar uma vivência sexual mais saudável e satisfatória.
Colunista
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.