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Membros inferiores

Cicatrizes do diabetes: tratamento do ES é referência na prevenção de amputações

Doença afeta 20 milhões de pessoas no país. Com medicina regenerativa e cirurgia vascular, a rede pública do Espírito Santo recupera a mobilidade de pacientes e evita amputações graves

Publicado em 06 de Outubro de 2026 às 16:08

Guilherme Sillva

Publicado em 

06 out 2026 às 16:08
Alcemir Barcelos, 71 anos, mecânico geral
Diabético há 46 anos, o mecânico geral Alcemir Barcelos teve que amputar três dedos por causa da doença. Foto: Carlos Alberto Silva
Depois de quase ter a perna direita amputada por causa do diabetes, o mecânico geral Alcemir Barcelos precisou se acalmar para ouvir o médico. Naquele dia de abril, ele entendeu a gravidade das complicações da doença, com a qual convive desde os 25 anos. "Ele conversou comigo e explicou que tentaria salvar a perna, mas seria preciso amputar os três dedos. Fiquei desesperado quando ouvi", lembra.

O capixaba foi internado no Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE — São Lucas), em Vitória, com a doença descontrolada, dor na sola do pé e uma mancha preta nos dedos. "Meu pé estava quase necrosando", conta. Aos 71 anos, ele confessa que, durante boa parte da vida, não cuidou da saúde. "Tomava os remédios, mas comia de tudo e bebia. O tempo cobrou o preço", afirma.
Foi durante uma tarde de trabalho, no início deste ano, que ele começou a sentir os primeiros sinais: uma queimação insistente no pé que não passava. Dias depois, a afilhada notou a manchinha preta no dedo. "Também sentia umas pontadinhas, como se fosse uma agulha cravada no meu pé. Apertava e era como se a carne estivesse morta. Mas era suportável, eu conseguia caminhar e trabalhar", lembra.

Alcemir ficou internado por 90 dias, passou por cinco cirurgias e perdeu 15 quilos. Após a amputação dos três dedos, precisou de paciência na recuperação. "Ninguém acreditava que eu voltaria para casa. Mas lembro que ficava olhando para a foto da minha família. Eles me deram força", diz.
Alcemir Barcelos, 71 anos, mecânico geral
Alcemir ficou internado por 90 dias, passou por cinco cirurgias e perdeu 15 quilos Foto: Carlos Alberto Silva

O mecânico teve que reaprender a se equilibrar, andar e fazer o curativo diário no pé, que precisa estar sempre protegido por uma meia. Hoje, ele usa bicicleta e esteira nos exercícios de fortalecimento, e já consegue caminhar até o supermercado e dirigir por curtas distâncias.


Ele sabe que a vida não será mais a mesma. "Em breve vou usar uma prótese, como se fossem os dedos. Aprendi que, quando você cuida desde o início, a doença é passível de tratamento. Infelizmente, comigo não foi assim", diz.

Tratamento do ES é referência

Alcemir só não teve a perna amputada porque foi encaminhado ao HEUE (São Lucas), em Vitória, onde recebeu o tratamento para o diabetes realizado pela Cooperativa dos Angiologistas e Cirurgiões Vasculares do Espírito Santo (Coopangio-ES), que se tornou referência internacional.


O cirurgião vascular Eliud Garcia Duarte Junior, presidente da cooperativa e membro da Câmara Técnica de Cirurgia Vascular do Conselho Federal de Medicina, está à frente do projeto pioneiro focado em técnicas inovadoras para a prevenção de amputações de membros inferiores.


O protocolo integrado de salvamento de membros é destinado principalmente a pacientes com isquemia crônica ameaçadora de membro, pé diabético e feridas complexas com alto risco de amputação. "O tratamento pode associar cirurgia vascular, controle da infecção, desbridamento, osteodistração angiogênica, terapias celulares e regenerativas autólogas, biomateriais, terapia por pressão negativa e técnicas de offloading — ou seja, o alívio e a retirada da pressão sobre a ferida", explica o médico.   


Não se trata de um procedimento único. A combinação das técnicas é individualizada conforme a circulação, a extensão da lesão, a presença de infecção, o comprometimento ósseo e as condições clínicas gerais de cada paciente.

O tratamento utiliza materiais autólogos — ou seja, retirados do próprio corpo do paciente —, o que minimiza o risco de rejeição imunológica. Eliud explica que é possível empregar aspirado de medula óssea, tecido adiposo microfragmentado e componentes sanguíneos, como plasma e fibrina ricos em plaquetas. "A aplicação ocorre principalmente nos pés e nas pernas, onde se concentram as feridas diabéticas, vasculares e isquêmicas", diz o especialista.

O médico detalha que, conforme o planejamento, esses produtos podem ser aplicados no leito e nas bordas da ferida, em tecidos profundos e em áreas com menor capacidade de regeneração. "Eles também podem ser associados a enxertos autólogos, matrizes biológicas e outros biomateriais", acrescenta.

"Essas terapias não substituem a revascularização quando existe a possibilidade de realizar angioplastia ou cirurgia vascular. Elas integram o tratamento e assumem especial importância nos casos mais graves, inclusive em pacientes sem opção convencional de revascularização ou que não responderam adequadamente aos tratamentos anteriores", reforça Eliud.
Frase de Eliud


O médico ressalta que se trata de pacientes em estado extremamente grave e que a resposta não é igual para todos. Os resultados dependem da extensão da doença arterial, do controle da infecção e do diabetes, da função renal, do estado nutricional, do tabagismo e da adesão ao offloading e às demais etapas do tratamento.


"Além do protocolo específico com osteodistração angiogênica — técnica cirúrgica em que se realiza uma pequena janela controlada na cortical do osso da tíbia e se instala um dispositivo externo —, já ultrapassamos 600 pacientes tratados com diferentes modalidades de medicina regenerativa para feridas complexas", contabiliza o cirurgião.


Entre eles estão pacientes com úlceras vasculíticas graves e extremamente dolorosas, em quem o médico observou redução da dor, melhora do leito da ferida e maior possibilidade de avançar nas demais etapas do tratamento. "Também foram tratadas feridas infectadas, inclusive por bactérias multirresistentes, associando desbridamento, antibioticoterapia orientada por culturas e biomateriais com ação antimicrobiana, como determinados biovidros. Essa combinação pode contribuir para o controle da infecção e para a remissão das lesões", complementa Eliud.


A análise atual inclui 24 pacientes submetidos ao protocolo combinado de osteodistração angiogênica e terapias regenerativas. Com seis meses de acompanhamento, 17 permaneciam com o membro preservado — o que corresponde a uma taxa de salvamento de 71%. Todos esses pacientes apresentavam indicação prévia de amputação maior registrada em prontuário.


"Esse resultado se refere exclusivamente aos pacientes submetidos ao protocolo combinado e não deve ser confundido com o universo de mais de 600 pacientes tratados com outras modalidades de medicina regenerativa. Os resultados são encorajadores, mas representam uma série clínica preliminar, sem grupo de comparação, e não uma garantia individual de sucesso", pondera o cirurgião vascular.


O protocolo combinado é indicado principalmente para pacientes com isquemia crônica ameaçadora de membro, pé diabético ou feridas complexas — especialmente quando há alto risco de amputação, falha em tratamentos anteriores ou ausência de uma opção adequada de revascularização.


A indicação não é automática. Os médicos avaliam a anatomia arterial, a perfusão do membro, a extensão da ferida, a presença de infecção e o comprometimento ósseo, além da função renal, da condição cardiológica e da possibilidade de recuperação funcional.


Atualmente, o Espírito Santo conta com uma rede de assistência em terapias regenerativas e protocolos integrados de salvamento de membros, distribuída da Grande Vitória ao Norte e Sul do Estado.

Na Grande Vitória, o trabalho é desenvolvido no Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE/São Lucas), referência e centro principal dessa experiência. No Norte, os protocolos são aplicados no Hospital Estadual Sílvio Avidos, em Colatina. Já no Sul, os atendimentos acontecem na Unidade Integrada de Jerônimo Monteiro.

"Essa distribuição permite levar a assistência para mais perto dos pacientes, reduzir deslocamentos e estabelecer uma linha estadual de atendimento para pessoas com pé diabético, isquemia crônica ameaçadora de membro e feridas complexas", conclui Eliud Duarte.
Após contrair uma bactéria

A comerciante Rosineia Ribeiro Alvarez, de 61 anos, vive com o diabetes tipo 2 há 10 anos. Regrada com a alimentação e atenta a todos os cuidados possíveis, ela jamais imaginou sofrer consequências graves por conta da doença.


Foi durante uma feira de gastronomia em Guarapari, em janeiro deste ano, que tudo mudou. Usando sandália rasteira, ao pisar no chão de areia do local, ela contraiu uma bactéria. "Senti um arranhão no pé e foi por ali que a bactéria entrou. Eu não sentia dor, mas o pé inchou na hora e formou uma bolha", conta.

Rosineia Ribeiro Alvarez, 61 anos, comerciante
Após contrair uma bactéria no pé, Rosineia Ribeiro Alvarez teve que amputar os cinco dedos do pé direito Foto: Carlos Alberto Silva
Preocupada, a comerciante procurou atendimento médico e logo foi encaminhada para o HEUE/São Lucas, onde ficou internada durante um mês e oito dias. Nos primeiros dias de internação, recebeu a notícia de que precisaria amputar dois dedos do pé direito: o dedão e o dedo mínimo.

"O problema afetou dois dedos, que ficaram pretinhos, mas decidi amputar todos os dedos do pé direito para evitar desfechos piores. Ao ver que ficariam só três, achei que não ficaria legal e que não conseguiria usar a prótese. Foi uma decisão muito difícil, fiquei bastante abalada", lembra. No caso dela, a amputação evitou que a infecção se espalhasse pelo corpo. Ao longo do processo, o apoio do marido, dos filhos e das irmãs foi fundamental.

Ao todo, a comerciante passou por cinco cirurgias. "As duas últimas foram procedimentos de raspagem para retirar o restante da infecção. Não vou precisar de novas intervenções porque a ponta do pé já fechou completamente", comemora.


Atualmente, ela utiliza uma órtese no pé para apoio, alinhamento, correção de deformidades e melhora do movimento ao caminhar. "Estou usando a sandália Baruk, um calçado ortopédico projetado para o pós-operatório de cirurgias nos pés. Vou continuar com ela até a pele ficar bem resistente para receber a prótese de silicone confeccionada em impressora 3D, com todos os dedos. Ninguém vai perceber a diferença", conta a comerciante.


Cheia de planos e com a autoestima renovada, Rosineia não deixou de frequentar o salão de beleza, continua trabalhando em sua banca de revistas em Cariacica e aproveitando os momentos ao lado dos netos. "Foi fundamental para a minha autoestima continuar cuidando do cabelo, da sobrancelha e de tudo a que tenho direito", celebra.

Amputações por diabetes

À medida que o diabetes avança no Brasil — com cerca de 20 milhões de pessoas convivendo com a doença e estimativa de atingir 21,5 milhões de adultos de 20 a 79 anos até 2030 —, o impacto de suas complicações cresce no mesmo ritmo.


Caracterizado pelo excesso de açúcar no sangue, o diabetes já figura como a principal causa de amputação não traumática em membros inferiores no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Dados referentes ao período de janeiro a agosto de 2023 mostram que a doença provocou pelo menos 6.982 amputações de pernas e pés pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — uma média alarmante de 28 casos por dia.   

dados diabetes


O angiologista Fabio Fernandes e Silva, da Unimed Sul Capixaba, explica que o diabetes — principalmente quando não mantido sob controle por longo período — pode causar danos progressivos aos vasos sanguíneos e aos nervos. "Isso reduz a circulação e a sensibilidade dos pés, favorecendo o surgimento de feridas que passam despercebidas e têm grande dificuldade de cicatrização. Quando há infecção grave, déficit circulatório importante ou destruição dos tecidos, a amputação pode se tornar necessária", alerta.


Esse volume de amputações está diretamente associado ao pé diabético, complicação que envolve alterações neurológicas, vasculares e estruturais nos membros inferiores. O quadro aumenta o risco de feridas de difícil cicatrização e infecções graves que, nos estágios mais severos, podem evoluir para a perda tecidual e a necessidade de remoção cirúrgica.


O diabetes favorece o risco de amputação porque reúne fatores que agem de forma combinada nos membros inferiores: a neuropatia (perda de sensibilidade), a doença vascular periférica, a dificuldade na cicatrização e a vulnerabilidade a infecções. Quando esses elementos se somam, um trauma aparentemente insignificante — como um pequeno arranhão ou uma bolha — pode evoluir rapidamente para um quadro grave.

Frase de Fabio Fernandes


O médico explica que o objetivo central é remover o tecido inviável e controlar a infecção, preservando, sempre que possível, a maior extensão funcional do membro.

Por que o diabetes favorece as amputações


Sistema imunológico: com a glicose cronicamente alta, o sistema de defesa do organismo perde eficiência. As células imunológicas não atuam com a devida rapidez e força, tornando o corpo mais vulnerável a infecções graves.


Entupimento das artérias das pernas: o sangue não flui com tanta facilidade pelo local que está lesionado e diminui a capacidade de cicatrização.


Neuropatia diabética: é a perda progressiva da sensibilidade nos nervos periféricos. Como a dor funciona como um alarme natural de proteção do corpo, o paciente pode se machucar, pisar em algo perfurante ou desenvolver uma bolha sem nem perceber a lesão.

O angiologista destaca que um dos principais sinais de alerta é a insuficiência circulatória nos membros inferiores. O diabetes acelera o desenvolvimento da doença arterial periférica (DAP), que provoca o estreitamento e a obstrução das artérias, reduzindo drasticamente o fluxo de sangue e oxigênio para pernas e pés. "Esse comprometimento vascular pode se manifestar por meio de dor ao caminhar (claudicação), sensação de pés frios, alterações na cor e na textura da pele e extrema dificuldade de cicatrização", detalha Fabio Fernandes.


Já a neuropatia periférica ocorre quando os nervos sofrem danos progressivos, provocando sintomas como formigamento, sensação de queimação, dormência, perda da sensibilidade e até dores intensas nos pés. A complicação é particularmente perigosa porque o paciente pode sofrer um corte, uma queimadura ou um machucado sem sentir qualquer desconforto, permitindo que a lesão passe despercebida e evolua rapidamente para um quadro infeccioso grave.


"A grande maioria das feridas em pacientes diabéticos não evolui para uma amputação. O risco real depende da combinação de fatores como a profundidade da lesão, a presença de infecção, o grau de comprometimento da circulação, o controle da glicemia e a rapidez na resposta ao tratamento", pondera o médico.

dados diabetes


Apesar da gravidade do quadro, o angiologista reforça que existem casos em que o tratamento clínico — associado ou não a pequenas intervenções cirúrgicas — é plenamente capaz de cicatrizar os ferimentos. "Quando identificada precocemente, a lesão pode ser tratada com cuidados locais, controle rigoroso da glicemia, curativos especializados, medicamentos adequados e, em alguns casos, pequenos procedimentos para desbridamento do tecido comprometido. Se houver déficit circulatório, também se realiza uma intervenção para restaurar o fluxo sanguíneo", explica Fabio Fernandes.
O que é a doença

O diabetes mellitus é uma doença crônica na qual o corpo não produz insulina ou não consegue utilizar adequadamente o hormônio — produzido pelo pâncreas e responsável pela manutenção do metabolismo da glicose.

               

A falta de insulina provoca uma deficiência na metabolização da glicose e, consequentemente, diabetes. A doença é caracterizada por altas taxas de açúcar no sangue (hiperglicemia) de forma permanente.


"A insulina é o hormônio responsável por permitir a entrada da glicose nas células para a geração de energia. A persistência da glicose elevada — decorrente do mau controle da doença — leva a complicações crônicas, como disfunção renal, problemas de visão, comprometimento da circulação, danos aos nervos e maior risco de doenças cardiovasculares", explica a endocrinologista Iara do Vale.

                                      

Os principais sintomas do diabetes incluem fome e sede excessivas, aumento na frequência urinária (inclusive no período noturno) e perda de peso involuntária. O paciente também pode apresentar fraqueza, fadiga, náuseas e vômitos, formigamento nos pés e pernas, infecções frequentes, visão turva e feridas com dificuldade de cicatrização.

Tipos de diabetes


A endocrinologista ressalta que os principais fatores de risco para a doença incluem histórico familiar, excesso de peso, sedentarismo, envelhecimento, alimentação inadequada, hipertensão e colesterol elevado. "Diretrizes clínicas apontam que fatores genéticos e ambientais atuam de forma combinada. Portanto, mudanças no padrão alimentar e a prática regular de atividade física desempenham um papel decisivo na prevenção e no controle da doença — especialmente no diabetes tipo 2, que corresponde à vasta maioria dos casos", explica Iara do Vale.


Em ritmo acelerado e considerado alarmante por especialistas, a prevalência do diabetes deve mais que dobrar no mundo e atingir 1,3 bilhão de pessoas até 2050 — o equivalente a cerca de 13% da população global, considerando a estimativa de 9,7 bilhões de habitantes das Nações Unidas para o período.

                                        

A estimativa integra um estudo publicado na revista científica The Lancet, conduzido por pesquisadores do estudo Global Burden of Disease (GBD) e liderado pelo Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington (IHME, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

A importância dos exames de sangue
Exames de sangue são essenciais para detectar precocemente o diabetes, assim como condições prévias — como pré-diabetes e resistência à insulina —, que elevam expressivamente o risco da doença. No pré-diabetes, embora os níveis de glicose no sangue estejam acima do normal, a condição geralmente pode ser revertida com adequações no estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada e prática regular de exercícios.

Já a resistência à insulina — bastante comum em pessoas com excesso de peso — ocorre quando as células não respondem adequadamente à ação do hormônio. Como consequência, o pâncreas passa a produzir doses cada vez maiores de insulina para tentar compensar a falha, um processo que, se não for interrompido a tempo, evolui para o diabetes tipo 2.

O diagnóstico é estabelecido pelo médico com o auxílio de exames laboratoriais — principalmente a glicemia de jejum, a curva glicêmica (teste oral de tolerância à glicose) e a hemoglobina glicada —, que avaliam as taxas de açúcar no sangue sob diferentes abordagens. A glicemia de jejum mede o nível de glicose após um período de oito a doze horas sem alimentação, sendo o teste mais simples e amplamente utilizado na rotina médica.

O exame de curva glicêmica avalia a resposta do organismo após a ingestão de uma solução concentrada de glicose, sendo indispensável para o diagnóstico do diabetes gestacional e casos duvidosos. A hemoglobina glicada (HbA1c), por sua vez, reflete a média da glicemia nos últimos dois a três meses, funcionando não apenas no diagnóstico, mas como a principal ferramenta para o acompanhamento do controle metabólico a longo prazo. O conjunto desses testes garante a precisão diagnóstica e orienta o manejo terapêutico adequado.

Para prevenir o diabetes ou reduzir significativamente o risco de suas complicações, é indispensável adotar hábitos de vida saudáveis. Isso inclui priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados (como frutas, legumes, verduras, grãos integrais e sementes), praticar atividades físicas regularmente, não fumar e evitar ou limitar o consumo de bebidas alcoólicas.

Como cuidar dos pés e prevenir amputações

• A hidratação é essencial para evitar calos e rachaduras;


• O paciente deve tirar um tempo para examinar o pé à procura de qualquer ferida, bolha ou corte;


• É importante que o paciente peça ajuda caso identifique algo fora do normal e nunca tente retirar calos, estourar bolhas ou limpar úlceras;


• Por causa da falta de sensibilidade na região, o paciente não deve cortar as unhas sozinho;


• É essencial também evitar sapatos e meias apertadas para não comprometer a circulação;


• Não é indicado andar descalço, especialmente fora de casa;


• Mantenha o diabetes sob controle, com alimentação saudável, controle dos medicamentos e prática de atividade física.

A aposentada Sônia Mara Santos, de 63 anos, descobriu o diabetes aos 42, enquanto trabalhava como técnica de laboratório em um hospital da Grande Vitória. "Não sabia que tinha a doença. Descobri através de um problema na visão. Estava no serviço e, ao olhar para a televisão, vi tudo embaçado. Fui para o pronto-socorro, fiquei de repouso e, após os exames, recebi o diagnóstico de diabetes", relembra.

Desde então, a capixaba convive com as complicações da doença. Oito anos após o diagnóstico, ela começou a sentir os sinais mais graves na perna direita. "A perna doía demais. As veias estavam começando a entupir, só que não liguei muito. Em 2019, peguei uma bactéria e tive que amputar o primeiro dedo do pé direito. Foi muito difícil ouvir essa notícia do médico, era uma parte do meu corpo", conta.
Sonia Mara dos Santos, ela participou do tratamento e evitou amputar membros inferiores
Sonia Mara dos Santos descobriu o diabetes aos 42 anos. Como consequência da doença teve que amputar dois dedos e meio da perna direita Foto: Ricardo Medeiros

Um ano depois, ela teve a metade de outro dedo amputado, o que a forçou a se afastar do trabalho. "Comecei a ter dificuldades, porque é o dedão que sustenta o pé, e eu já não tinha ele. Então eu mancava, não aguentava subir escadas, porque doía a perna toda", lembra. Tempos depois, teve mais um dedo amputado, somando três dedos perdidos.


Já tratando das consequências do diabetes no pé, Sônia desenvolveu um abscesso na sola. "Era como se fosse um calo que estourou e abriu dois buracos: um embaixo dos dedos e outro no calcanhar. Com isso, eu não conseguia mais colocar o pé no chão", recorda.


A aposentada teve que ser internada no hospital. "O médico disse: 'vamos cuidar primeiro do calcanhar, porque se atingir o osso e o nervo, teremos que amputar a sua perna — do joelho para baixo'. Ouvir aquilo foi muito doloroso para mim", desabafa.


Sônia ficou internada durante dois meses, período em que passou pela colocação de um fixador externo — equipamento utilizado em situações em que o paciente necessita de estabilização imediata e alinhamento ósseo. O dispositivo imobiliza a estrutura, permitindo a regeneração dos tecidos e facilitando o tratamento de feridas e infecções complexas. "O médico olhava sempre e dizia que estavam estudando o meu caso. Esse tratamento evitou que eu amputasse a perna da coxa para baixo", destaca.


Por conta da complicação na perna, ela teve que se aposentar. Sônia, que mora com a mãe e um sobrinho, gosta de costurar roupas. Hoje, usa apenas sandálias abertas, faz curativos diariamente e utiliza uma meia especial para proteger o pé direito. Apesar de não conseguir fazer caminhadas muito longas, segue reaprendendo a rotina: "Tive que reaprender a ter equilíbrio", confessa. Dois dias após a entrevista, ela passou pelo procedimento de remoção do fixador externo.

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