O mecânico teve que reaprender a se equilibrar, andar e fazer o curativo diário no pé, que precisa estar sempre protegido por uma meia. Hoje, ele usa bicicleta e esteira nos exercícios de fortalecimento, e já consegue caminhar até o supermercado e dirigir por curtas distâncias.
Ele sabe que a vida não será mais a mesma. "Em breve vou usar uma prótese, como se fossem os dedos. Aprendi que, quando você cuida desde o início, a doença é passível de tratamento. Infelizmente, comigo não foi assim", diz.
Alcemir só não teve a perna amputada porque foi encaminhado ao HEUE (São Lucas), em Vitória, onde recebeu o tratamento para o diabetes realizado pela Cooperativa dos Angiologistas e Cirurgiões Vasculares do Espírito Santo (Coopangio-ES), que se tornou referência internacional.
O cirurgião vascular Eliud Garcia Duarte Junior, presidente da cooperativa e membro da Câmara Técnica de Cirurgia Vascular do Conselho Federal de Medicina, está à frente do projeto pioneiro focado em técnicas inovadoras para a prevenção de amputações de membros inferiores.
O protocolo integrado de salvamento de membros é destinado principalmente a pacientes com isquemia crônica ameaçadora de membro, pé diabético e feridas complexas com alto risco de amputação. "O tratamento pode associar cirurgia vascular, controle da infecção, desbridamento, osteodistração angiogênica, terapias celulares e regenerativas autólogas, biomateriais, terapia por pressão negativa e técnicas de offloading — ou seja, o alívio e a retirada da pressão sobre a ferida", explica o médico.
O médico ressalta que se trata de pacientes em estado extremamente grave e que a resposta não é igual para todos. Os resultados dependem da extensão da doença arterial, do controle da infecção e do diabetes, da função renal, do estado nutricional, do tabagismo e da adesão ao offloading e às demais etapas do tratamento.
"Além do protocolo específico com osteodistração angiogênica — técnica cirúrgica em que se realiza uma pequena janela controlada na cortical do osso da tíbia e se instala um dispositivo externo —, já ultrapassamos 600 pacientes tratados com diferentes modalidades de medicina regenerativa para feridas complexas", contabiliza o cirurgião.
Entre eles estão pacientes com úlceras vasculíticas graves e extremamente dolorosas, em quem o médico observou redução da dor, melhora do leito da ferida e maior possibilidade de avançar nas demais etapas do tratamento. "Também foram tratadas feridas infectadas, inclusive por bactérias multirresistentes, associando desbridamento, antibioticoterapia orientada por culturas e biomateriais com ação antimicrobiana, como determinados biovidros. Essa combinação pode contribuir para o controle da infecção e para a remissão das lesões", complementa Eliud.
A análise atual inclui 24 pacientes submetidos ao protocolo combinado de osteodistração angiogênica e terapias regenerativas. Com seis meses de acompanhamento, 17 permaneciam com o membro preservado — o que corresponde a uma taxa de salvamento de 71%. Todos esses pacientes apresentavam indicação prévia de amputação maior registrada em prontuário.
"Esse resultado se refere exclusivamente aos pacientes submetidos ao protocolo combinado e não deve ser confundido com o universo de mais de 600 pacientes tratados com outras modalidades de medicina regenerativa. Os resultados são encorajadores, mas representam uma série clínica preliminar, sem grupo de comparação, e não uma garantia individual de sucesso", pondera o cirurgião vascular.
O protocolo combinado é indicado principalmente para pacientes com isquemia crônica ameaçadora de membro, pé diabético ou feridas complexas — especialmente quando há alto risco de amputação, falha em tratamentos anteriores ou ausência de uma opção adequada de revascularização.
A indicação não é automática. Os médicos avaliam a anatomia arterial, a perfusão do membro, a extensão da ferida, a presença de infecção e o comprometimento ósseo, além da função renal, da condição cardiológica e da possibilidade de recuperação funcional.
A comerciante Rosineia Ribeiro Alvarez, de 61 anos, vive com o diabetes tipo 2 há 10 anos. Regrada com a alimentação e atenta a todos os cuidados possíveis, ela jamais imaginou sofrer consequências graves por conta da doença.
Foi durante uma feira de gastronomia em Guarapari, em janeiro deste ano, que tudo mudou. Usando sandália rasteira, ao pisar no chão de areia do local, ela contraiu uma bactéria. "Senti um arranhão no pé e foi por ali que a bactéria entrou. Eu não sentia dor, mas o pé inchou na hora e formou uma bolha", conta.
Ao todo, a comerciante passou por cinco cirurgias. "As duas últimas foram procedimentos de raspagem para retirar o restante da infecção. Não vou precisar de novas intervenções porque a ponta do pé já fechou completamente", comemora.
Atualmente, ela utiliza uma órtese no pé para apoio, alinhamento, correção de deformidades e melhora do movimento ao caminhar. "Estou usando a sandália Baruk, um calçado ortopédico projetado para o pós-operatório de cirurgias nos pés. Vou continuar com ela até a pele ficar bem resistente para receber a prótese de silicone confeccionada em impressora 3D, com todos os dedos. Ninguém vai perceber a diferença", conta a comerciante.
Cheia de planos e com a autoestima renovada, Rosineia não deixou de frequentar o salão de beleza, continua trabalhando em sua banca de revistas em Cariacica e aproveitando os momentos ao lado dos netos. "Foi fundamental para a minha autoestima continuar cuidando do cabelo, da sobrancelha e de tudo a que tenho direito", celebra.
À medida que o diabetes avança no Brasil — com cerca de 20 milhões de pessoas convivendo com a doença e estimativa de atingir 21,5 milhões de adultos de 20 a 79 anos até 2030 —, o impacto de suas complicações cresce no mesmo ritmo.
Caracterizado pelo excesso de açúcar no sangue, o diabetes já figura como a principal causa de amputação não traumática em membros inferiores no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Dados referentes ao período de janeiro a agosto de 2023 mostram que a doença provocou pelo menos 6.982 amputações de pernas e pés pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — uma média alarmante de 28 casos por dia.
O angiologista Fabio Fernandes e Silva, da Unimed Sul Capixaba, explica que o diabetes — principalmente quando não mantido sob controle por longo período — pode causar danos progressivos aos vasos sanguíneos e aos nervos. "Isso reduz a circulação e a sensibilidade dos pés, favorecendo o surgimento de feridas que passam despercebidas e têm grande dificuldade de cicatrização. Quando há infecção grave, déficit circulatório importante ou destruição dos tecidos, a amputação pode se tornar necessária", alerta.
Esse volume de amputações está diretamente associado ao pé diabético, complicação que envolve alterações neurológicas, vasculares e estruturais nos membros inferiores. O quadro aumenta o risco de feridas de difícil cicatrização e infecções graves que, nos estágios mais severos, podem evoluir para a perda tecidual e a necessidade de remoção cirúrgica.
O diabetes favorece o risco de amputação porque reúne fatores que agem de forma combinada nos membros inferiores: a neuropatia (perda de sensibilidade), a doença vascular periférica, a dificuldade na cicatrização e a vulnerabilidade a infecções. Quando esses elementos se somam, um trauma aparentemente insignificante — como um pequeno arranhão ou uma bolha — pode evoluir rapidamente para um quadro grave.
O médico explica que o objetivo central é remover o tecido inviável e controlar a infecção, preservando, sempre que possível, a maior extensão funcional do membro.
Por que o diabetes favorece as amputações
Sistema imunológico: com a glicose cronicamente alta, o sistema de defesa do organismo perde eficiência. As células imunológicas não atuam com a devida rapidez e força, tornando o corpo mais vulnerável a infecções graves.
Entupimento das artérias das pernas: o sangue não flui com tanta facilidade pelo local que está lesionado e diminui a capacidade de cicatrização.
Neuropatia diabética: é a perda progressiva da sensibilidade nos nervos periféricos. Como a dor funciona como um alarme natural de proteção do corpo, o paciente pode se machucar, pisar em algo perfurante ou desenvolver uma bolha sem nem perceber a lesão.
O angiologista destaca que um dos principais sinais de alerta é a insuficiência circulatória nos membros inferiores. O diabetes acelera o desenvolvimento da doença arterial periférica (DAP), que provoca o estreitamento e a obstrução das artérias, reduzindo drasticamente o fluxo de sangue e oxigênio para pernas e pés. "Esse comprometimento vascular pode se manifestar por meio de dor ao caminhar (claudicação), sensação de pés frios, alterações na cor e na textura da pele e extrema dificuldade de cicatrização", detalha Fabio Fernandes.
Já a neuropatia periférica ocorre quando os nervos sofrem danos progressivos, provocando sintomas como formigamento, sensação de queimação, dormência, perda da sensibilidade e até dores intensas nos pés. A complicação é particularmente perigosa porque o paciente pode sofrer um corte, uma queimadura ou um machucado sem sentir qualquer desconforto, permitindo que a lesão passe despercebida e evolua rapidamente para um quadro infeccioso grave.
"A grande maioria das feridas em pacientes diabéticos não evolui para uma amputação. O risco real depende da combinação de fatores como a profundidade da lesão, a presença de infecção, o grau de comprometimento da circulação, o controle da glicemia e a rapidez na resposta ao tratamento", pondera o médico.
O diabetes mellitus é uma doença crônica na qual o corpo não produz insulina ou não consegue utilizar adequadamente o hormônio — produzido pelo pâncreas e responsável pela manutenção do metabolismo da glicose.
A falta de insulina provoca uma deficiência na metabolização da glicose e, consequentemente, diabetes. A doença é caracterizada por altas taxas de açúcar no sangue (hiperglicemia) de forma permanente.
"A insulina é o hormônio responsável por permitir a entrada da glicose nas células para a geração de energia. A persistência da glicose elevada — decorrente do mau controle da doença — leva a complicações crônicas, como disfunção renal, problemas de visão, comprometimento da circulação, danos aos nervos e maior risco de doenças cardiovasculares", explica a endocrinologista Iara do Vale.
Os principais sintomas do diabetes incluem fome e sede excessivas, aumento na frequência urinária (inclusive no período noturno) e perda de peso involuntária. O paciente também pode apresentar fraqueza, fadiga, náuseas e vômitos, formigamento nos pés e pernas, infecções frequentes, visão turva e feridas com dificuldade de cicatrização.
A endocrinologista ressalta que os principais fatores de risco para a doença incluem histórico familiar, excesso de peso, sedentarismo, envelhecimento, alimentação inadequada, hipertensão e colesterol elevado. "Diretrizes clínicas apontam que fatores genéticos e ambientais atuam de forma combinada. Portanto, mudanças no padrão alimentar e a prática regular de atividade física desempenham um papel decisivo na prevenção e no controle da doença — especialmente no diabetes tipo 2, que corresponde à vasta maioria dos casos", explica Iara do Vale.
Em ritmo acelerado e considerado alarmante por especialistas, a prevalência do diabetes deve mais que dobrar no mundo e atingir 1,3 bilhão de pessoas até 2050 — o equivalente a cerca de 13% da população global, considerando a estimativa de 9,7 bilhões de habitantes das Nações Unidas para o período.
A estimativa integra um estudo publicado na revista científica The Lancet, conduzido por pesquisadores do estudo Global Burden of Disease (GBD) e liderado pelo Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington (IHME, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.
Como cuidar dos pés e prevenir amputações
• A hidratação é essencial para evitar calos e rachaduras;
• O paciente deve tirar um tempo para examinar o pé à procura de qualquer ferida, bolha ou corte;
• É importante que o paciente peça ajuda caso identifique algo fora do normal e nunca tente retirar calos, estourar bolhas ou limpar úlceras;
• Por causa da falta de sensibilidade na região, o paciente não deve cortar as unhas sozinho;
• É essencial também evitar sapatos e meias apertadas para não comprometer a circulação;
• Não é indicado andar descalço, especialmente fora de casa;
• Mantenha o diabetes sob controle, com alimentação saudável, controle dos medicamentos e prática de atividade física.
Um ano depois, ela teve a metade de outro dedo amputado, o que a forçou a se afastar do trabalho. "Comecei a ter dificuldades, porque é o dedão que sustenta o pé, e eu já não tinha ele. Então eu mancava, não aguentava subir escadas, porque doía a perna toda", lembra. Tempos depois, teve mais um dedo amputado, somando três dedos perdidos.
Já tratando das consequências do diabetes no pé, Sônia desenvolveu um abscesso na sola. "Era como se fosse um calo que estourou e abriu dois buracos: um embaixo dos dedos e outro no calcanhar. Com isso, eu não conseguia mais colocar o pé no chão", recorda.
A aposentada teve que ser internada no hospital. "O médico disse: 'vamos cuidar primeiro do calcanhar, porque se atingir o osso e o nervo, teremos que amputar a sua perna — do joelho para baixo'. Ouvir aquilo foi muito doloroso para mim", desabafa.
Sônia ficou internada durante dois meses, período em que passou pela colocação de um fixador externo — equipamento utilizado em situações em que o paciente necessita de estabilização imediata e alinhamento ósseo. O dispositivo imobiliza a estrutura, permitindo a regeneração dos tecidos e facilitando o tratamento de feridas e infecções complexas. "O médico olhava sempre e dizia que estavam estudando o meu caso. Esse tratamento evitou que eu amputasse a perna da coxa para baixo", destaca.
Por conta da complicação na perna, ela teve que se aposentar. Sônia, que mora com a mãe e um sobrinho, gosta de costurar roupas. Hoje, usa apenas sandálias abertas, faz curativos diariamente e utiliza uma meia especial para proteger o pé direito. Apesar de não conseguir fazer caminhadas muito longas, segue reaprendendo a rotina: "Tive que reaprender a ter equilíbrio", confessa. Dois dias após a entrevista, ela passou pelo procedimento de remoção do fixador externo.