O trabalho de cinco décadas na roça debaixo de sol a pino cobrou seu preço. A rotina era sempre a mesma: a agricultora Lindaura Butzke, de 78 anos, acordava cedo, tomava café e logo em seguida já estava na lida. Durante horas, trabalhava no cultivo de café, milho, feijão e pepino.
Descendente de pomeranos, de pele e olhos claros, a agricultora viu seu corpo não resistir aos anos de exposição aos raios solares intensos. "Durante muitos anos enfrentei muito sol diariamente. Com o passar do tempo, vieram as queimaduras. Eu não protegia o rosto nem o corpo", conta a moradora de Santa Maria de Jetibá.
Há 30 anos, Lindaura descobriu a primeira lesão de câncer de pele: uma pinta atrás da orelha direita. "Não sentia dor. Os médicos removeram um fragmento para biópsia, que confirmou o diagnóstico. Depois, a doença apareceu no nariz, na perna e nas costas."
Há seis anos ela faz tratamento no ambulatório de Cirurgia Plástica do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), em Vitória. "Ainda hoje trato feridas e faço o acompanhamento de lesões na pele", relata a idosa que, após décadas de trabalho no campo, aprendeu na prática a importância do uso diário do protetor solar.
Lindaura Butzke é uma das milhares de capixabas sobreviventes da epidemia do câncer de pele que acontece no Espírito Santo. "O estado vive uma epidemia da doença. Aqui o câncer de pele representa 40% de todos os casos de câncer, enquanto a média nacional é de 30%. Isto se deve ao fato de sermos uma região litorânea, com hábitos de vida ao ar livre, sol o ano todo e pela nossa população que, em grande parte, possui pele clara de descendência europeia. Outro fator é a ideia de que o sol não faz mal, além da baixa adesão ao uso do protetor solar", diz o dermatologista Ricardo Tiussi, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia/ES.
Em 2025, o programa contabilizou 2.459 consultas dermatológicas, 1.396 cirurgias e 9.274 procedimentos de crioterapia — técnica que trata lesões de pele como verrugas, ceratoses actínicas (lesões pré-cancerosas) e manchas.
Durante o atendimento na cidade em junho, foi descoberto um tumor nas costas. "O médico retirou, e após a biópsia descobriu que era o câncer mais agressivo. Não sentia nenhuma dor, só descobri por conta do atendimento".
Amarildo ainda está em tratamento. Após uma bateria de exames, vai retirar partes de novas lesões que serão levadas para biópsia. "Estou pronto para fazer o que tiver que ser feito. E agora me protejo com protetor solar e roupas adequadas com proteção UV".
Tecnologia na prevenção e detecção
Há oito anos, a tecnologia chegou para revolucionar o programa, que foi modernizado por meio do Padtech — o núcleo de tecnologia do Pad-Ufes. Ele é responsável por toda a parte tecnológica do projeto, desde o desenvolvimento de softwares até a pesquisa em inteligência artificial.
"É um projeto que desenvolve e aplica tecnologias para melhorar a assistência em saúde, especialmente na área de dermatologia. A proposta é aproximar a pesquisa acadêmica dos problemas reais enfrentados pelos profissionais e pacientes, usando recursos como inteligência artificial para tornar o atendimento mais ágil, eficiente e acessível", explica o professor André Pacheco, coordenador do projeto.
O Padtech desenvolveu tecnologia para digitalizar e organizar diferentes etapas do atendimento realizado pelo programa, desde o agendamento por profissionais de saúde dos municípios até o acompanhamento dos pacientes por meio do armazenamento de informações e imagens clínicas. "Isso tornou o fluxo de atendimento mais organizado e eficiente, sem substituir a decisão do profissional de saúde. Atendimentos que poderiam levar até 50 minutos passaram a ser realizados em 10 a 15 minutos", conta.
O uso da tecnologia na saúde foi contemplado no edital Universal de Extensão da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes). Ao todo, a iniciativa recebeu R$ 128 mil com as aprovações nas chamadas de 2022 e 2024.
128 mil
valor que o Padtech foi contemplado em 2022 e 2024 no edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes)
O grupo também desenvolveu o Dermalyze, ferramenta de inteligência artificial criada para apoiar a triagem de lesões de pele a partir de smartphones e a indicação de hipótese diagnóstica por meio de dados do dermatoscópio (equipamento médico usado por dermatologistas). "A partir de imagens e informações clínicas, o sistema estima o risco da lesão e auxilia o profissional a identificar quais casos devem receber maior atenção. Ele não substitui o diagnóstico médico, mas funciona como uma ferramenta de apoio à decisão", explica o professor.
O principal objetivo é apoiar profissionais de saúde na triagem e identificação precoce de lesões suspeitas, especialmente aqueles que não possuem formação específica em dermatologia, como os agentes comunitários de saúde.
O software analisa imagens das lesões e informações clínicas para estimar o risco e indicar quais casos precisam de uma avaliação especializada com maior prioridade. "Em um estudo realizado em oito cidades do interior do Espírito Santo, avaliamos a ferramenta com profissionais da atenção básica e mais de 90% avaliaram positivamente o uso do Dermalyze. A proposta é levar uma tecnologia de apoio à decisão para locais onde o acesso a especialistas pode ser mais limitado", diz André. O estudo foi publicado em um dos jornais da prestigiada coleção de periódicos científicos publicados pela Nature.
O professor destaca, porém, que apesar dos resultados positivos, o Dermalyze ainda não está em plena operação no atendimento do Pad-Ufes. "A ferramenta depende de aprovação regulatória da Anvisa, e esse processo está em andamento".
O câncer de pele é o tipo mais frequente no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, o tumor representa cerca de 30% de todos os casos malignos registrados no país. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), os diagnósticos cresceram cerca de 1.500% em dez anos — passando de pouco mais de quatro mil, em 2014, para mais de 72 mil, em 2024. No Espírito Santo, em 2023, houve cerca de 5.410 novos casos de câncer de pele não melanoma entre os capixabas, representando uma incidência de aproximadamente 128,9 casos por 100 mil habitantes.
São dois grandes grupos de cânceres de pele: o grupo Melanoma e o grupo Não Melanoma. Os Não Melanoma são representados, principalmente, pelo carcinoma basocelular e pelo carcinoma espinocelular. "Estes dois juntos respondem por 95% de todos os cânceres de pele. Entretanto, o melanoma, por ser mais agressivo, é responsável por 40% de todas as mortes por câncer de pele no Brasil", explica Ricardo Tiussi.
O grupo não melanoma se apresenta como uma "feridinha" que não cicatriza, forma crosta que se desprende e sangra com facilidade — às vezes, assemelhando-se a uma "cabeça de alfinete" no início.
O outro é o melanoma, que representa apenas 3% dos cânceres malignos da pele e é o mais grave, devido ao alto potencial de provocar metástase (a disseminação para outros órgãos). "O melanoma é semelhante a uma 'pinta' ou 'sinal' de coloração enegrecida, muitas vezes com mais de uma cor, bordas irregulares, formato assimétrico e crescimento rápido", diz o médico.
85% dos brasileiros ignoram o filtro solar
A dermatologista Giane Giro explica que a exposição à radiação solar é a principal causa do câncer de pele. A radiação UVB promove um dano direto ao DNA, enquanto a UVA contribui com danos indiretos e para a formação de radicais livres.
"Tanto a exposição cumulativa ao longo da vida quanto as queimaduras solares eventuais na infância e adolescência contam como fator de risco para os diferentes tipos de câncer de pele. Além disso, o histórico de exposição às câmaras de bronzeamento artificial potencializa o risco para o câncer de pele", diz.
Além da exposição ao sol, outros fatores podem estar relacionados ao câncer de pele, como predisposição genética, imunossupressão, exposição a produtos químicos (como arsênico e alcatrão), úlceras crônicas, cicatrizes de queimadura e tabagismo.
Os sinais da doença variam conforme o tipo de câncer de pele. O carcinoma basocelular pode se apresentar como uma lesão elevada ou nódulo na pele, com um brilho perolado, às vezes com pequenos vasos aparentes. "Também pode se apresentar como uma lesão plana e avermelhada ou uma placa semelhante à cicatriz. Algumas lesões podem ser pigmentadas ou ferir e apresentar episódios de sangramento", ressalta Giane Giro.
O carcinoma espinocelular se apresenta como uma lesão elevada e áspera, podendo ter a base avermelhada. Essa lesão pode sangrar e ulcerar, deixando uma ferida que não cicatriza.
O melanoma se apresenta como uma mancha pigmentada com bordas irregulares e cor variável, que muda de tamanho, forma ou cor ao longo do tempo. "Ele pode surgir de uma pinta já existente ou começar onde não existia lesão prévia. Geralmente, o paciente não relata sintomas associados", reforça a médica.
A dermatologista conta que o melanoma em estágio avançado apresenta metástases e os sintomas variam de acordo com o local para onde a doença se disseminou. Dor óssea, tosse, sintomas neurológicos, perda de apetite e aumento de gânglios linfáticos no corpo são exemplos de manifestações que podem surgir — às vezes, antes do diagnóstico da lesão primária na pele. "Por isso é importante observar qualquer lesão nova, já que o melanoma pode ter evolução rápida e deve ser tratado o mais precocemente possível por meio da excisão cirúrgica da lesão inicial, antes da progressão da doença".
Já o carcinoma basocelular e o espinocelular avançados têm sintomas decorrentes do crescimento local, com lesões grandes, ulceradas e que invadem estruturas mais profundas. "O espinocelular pode ter risco de metástases, principalmente para os gânglios linfáticos próximos da lesão".
Giane Giro ressalta que a exposição solar cumulativa ao longo da vida está mais associada aos carcinomas basocelular e espinocelular, enquanto a exposição intermitente intensa (com queimaduras) está mais ligada ao melanoma.
"Pessoas com grande número de nevos (pintas) ou com presença de nevos atípicos são mais suscetíveis ao melanoma".
A principal medida de prevenção do câncer de pele é reduzir a exposição à radiação solar, especialmente de forma intensa e prolongada. O uso diário de protetor solar de amplo espectro com FPS 30 ou superior, com reaplicação adequada, deve ser associado a outras medidas de fotoproteção, como uso de roupas, chapéus e óculos de sol. Além disso, o bronzeamento artificial deve ser evitado.
"Apesar de ser mais frequente em pessoas de pele clara, o câncer de pele pode ocorrer em todas as raças e etnias; por isso, o uso de protetor solar está indicado inclusive para as pessoas de fototipos mais altos, como a pele negra", explica Giane.
Além das medidas de prevenção, o diagnóstico precoce é fundamental. A visita anual ao dermatologista para o exame de pele — bem como a consulta imediata diante de qualquer lesão suspeita — é decisiva para a identificação da doença em estágios iniciais.
Pacientes que têm múltiplos nevos podem realizar o exame de mapeamento corporal para seguimento das pintas e diagnóstico do melanoma nos estágios iniciais. "Pessoas que tiveram exposição crônica ao sol durante a vida e que apresentam ceratoses actínicas devem tratar essas lesões. As ceratoses actínicas são lesões pré-cancerosas e têm possibilidade de evoluir para carcinoma espinocelular. Existem vários métodos para tratamento desse tipo de ceratose, como crioterapia e medicamentos tópicos, evitando a evolução para o câncer de pele".
O tratamento cirúrgico é o padrão-ouro na maioria dos casos de câncer de pele, como o realizado pelo PAD. Nos tumores em estágio avançado, radioterapia ou tratamentos sistêmicos, como imunoterapia e terapia-alvo, podem ser indicados.
A dermatologista conta que, após a retirada do câncer de pele, com margens livres, ainda existe a chance de recidiva da mesma lesão e também do aparecimento de novos tumores em outros locais.
"Por isso, existe um tempo de seguimento mais frequente que varia conforme o tipo e o estágio do câncer, podendo ser necessário por vários anos. Depois desse período em que ele pode ser considerado curado, o paciente permanece com consultas anuais para identificar possíveis novas lesões", diz Giane.
A mudança de hábitos com redução da exposição à radiação solar é um cuidado importante para prevenir um novo câncer de pele. A fotoproteção adequada é essencial para reduzir o risco de carcinomas e também apresenta evidências de redução do risco de melanoma.
A consulta com o dermatologista voltada para o exame dermatológico completo deve ser feita pelo menos uma vez ao ano. O autoexame da pele pode ser feito mensalmente para identificar novas lesões e, se necessário, antecipar a consulta para avaliação de qualquer sinal ou mancha suspeita.
Anita Schneinder, de 71 anos, aprendeu, ao longo da vida, a se proteger contra o sol. Moradora de Santa Maria de Jetibá, ela começou a trabalhar na roça aos 13 anos.
"O trabalho é sempre duro. Uso chapéu grande ou boné, além de calça comprida como forma de proteção contra o sol. Hoje só saio com protetor solar, mas antigamente a gente não tinha acesso", conta.
Foi observando uma manchinha que cresceu durante dois anos que ela descobriu o câncer de pele. A identificação ocorreu durante uma consulta médica, e Anita foi logo encaminhada para o atendimento do PAD na cidade. "A médica falou que parecia um melanoma. Eu já sabia o que significava; tomei um susto".
O melanoma é o mais raro entre eles, mas é o tipo mais agressivo: pode evoluir com metástases e apresenta alto risco de mortalidade. É fundamental fazer o diagnóstico precoce, quando as chances de cura ultrapassam 90%.
Foi o que aconteceu com Anita, que logo começou o tratamento. "Fiquei com medo, mas em janeiro fui encaminhada para o ambulatório em Vitória. Já fiz duas cirurgias; agora fui encaminhada para a oncologia. Tenho duas irmãs que também tiveram a doença e o rosto ficou deformado. Sei que vou me curar", conta a mãe de seis filhos, que vive da plantação de pimentas.