O plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo
(Ales), na atual legislatura, pode ser considerado bastante conservador e,
predominantemente, de direita. Nos próximos quatro anos, ficará ainda mais.
Essa é a primeira conclusão que podemos tirar do resultado que saiu das urnas
no Espírito Santo, no último domingo (4).
A segunda conclusão é que podemos esperar, desde o início do
mandato, um plenário superaquecido, que tem tudo para virar palco de embates
muito acalorados entre dois extremos ideológicos, reproduzindo no microcosmo da
Ales a polarização que se apoderou da política nacional na última década e que
ganhou novo fôlego nas eleições deste ano.
De um lado, teremos a bancada do Partido Liberal (PL), que
voltará a ser a maior do Legislativo Estadual, a partir de fevereiro. Repetindo
aqui o excelente resultado obtido nas eleições legislativas no Brasil inteiro –
e confirmando a inflexão do eleitorado brasileiro em direção à extrema direita –,
o partido da família Bolsonaro elegeu 6 deputados estaduais no Espírito Santo e
terá sozinho 20% das 30 cadeiras. Será a bancada dos “Vingadores” (Advengers).
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Por que “Vingadores”? Primeiro, porque seis é exatamente o número de personagens originais do grupo nos quadrinhos. Segundo, em referência à definição dada pela revista “The Economist” para Flávio Bolsonaro em manchete publicada na semana passada: “O próximo presidente do Brasil será um nepobaby vingativo ou um trêmulo esquerdista” (Brazil’s next president will be either a vengeful nepo-babyor a doddering leftie).
Após quatro anos fora do poder e com Jair Bolsonaro preso por tentativa de
golpe e outros crimes, o bolsonarismo quer revanche.
Do outro lado do plenário, teremos as três Guerreiras do
L-Pop: Camila Valadão (PSol), reeleita para o segundo mandato como a candidata
mais votada da Assembleia, e as vereadoras petistas Karla Coser, de Vitória, e
Açucena, de Cariacica, que chegarão para o primeiro mandato. Três é exatamente
o número de guerreiras do conjunto na animação coreana ganhadora do Oscar.
As três são jovens, têm pouco tempo de política (Camila e Karla
exercem mandatos desde 2021; Açucena, desde 2025) e se assemelham pelo perfil
combativo. Em minoria absoluta no plenário, é provável que protagonizem duros embates
com os “Vingadores”.
Na verdade, a esquerda ficou encurralada em um canto do
plenário. Dos 30 eleitos, só quatro são considerados declaradamente de
esquerda: além das três “guerreiras”, o petista Julio da Fetaes, representante
dos pequenos trabalhadores agrícolas do Espírito Santo – com perfil não tão “aguerrido”.
A bancada do PT aumentará, de 2 para 3 deputados, mas ainda estará em ampla
minoria.
Enquanto isso, à bancada do PL, poderão se somar deputados
eleitos por outras siglas, mas também com perfil bastante conservador. Entre
eles, o vereador de Vitória Davi Esmael (Republicanos), aliado de longa data de
Lorenzo Pazolini e ex-presidente da Câmara, onde, desde o mandato passado, protagoniza
enfrentamentos com vereadores do PT, como a própria Karla Coser. Possível
ensaio do que está por vir...
Para conter os ânimos, garantir o respeito ao decoro e
manter a condução dos trabalhos de maneira equilibrada, será preciso um próximo
presidente, sucessor de Marcelo Santos (União) – eleito deputado federal –, que
tenha ao mesmo tempo pulso firme, muito jogo de cintura, o respeito dos pares e
boa interlocução com todos, incluindo os dois polos em disputa, que equivalem a
1/3 dos deputados.
A questão é que, quando olhamos o painel completo dos 30
eleitos, destacam-se poucos deputados que reúnam, ao mesmo tempo,
características como experiência, equilíbrio, capacidade de articulação e
espírito de liderança. Gandini (Podemos) é um. Mazinho dos Anjos (MDB) é outro.
Vandinho Leite (MDB) também pode ser incluído aqui, embora certamente mais à
direita. E a lista não vai muito além disso.
O roteiro desse filme não prevê muito equilíbrio mesmo, não... Promete ser um filme de guerra, ou, no mínimo, um thriller de ação.
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