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Pediatras receitam: crianças precisam de mais contato com a natureza

Manual fala dos benefícios para o desenvolvimento infantil

Publicado em 03/08/2019 às 19h41
Segundo especialistas, quanto mais tempo ao ar livre, melhor para a saúde física e mental das crianças. Crédito: Shutterstock
Segundo especialistas, quanto mais tempo ao ar livre, melhor para a saúde física e mental das crianças. Crédito: Shutterstock

Imagina levar seu filho ao pediatra e sair de lá com uma receita médica com a seguinte orientação: brincar na pracinha todo dia. A cena hipotética ilustra uma preocupação real dos especialistas com a saúde das crianças.

Eles estão recomendando que os pequenos tenham mais contato com a natureza. Pelo menos uma hora por dia. Melhor ainda se forem duas horas diárias. Em vez de área kids do shopping, a praia, o parque, um dia de cachoeira, visitar uma fazenda ou sítio.

Essas dicas estão no manual lançado em maio deste ano pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). A publicação tem como objetivo fornecer orientações para pediatras, educadores e famílias sobre a importância do convívio junto ao meio ambiente para a saúde e bem-estar das crianças.

“A ideia do manual partiu da percepção de uma necessidade da sociedade. Pesquisas vão se acumulando, mostrando a importância da natureza para criança. Então, fizemos esse chamamento através dos pediatras, que são pessoas de referência para as famílias”, explica um dos autores, o pediatra Daniel Becker.

Parece óbvia a recomendação. Mas, se os médicos resolveram fazer esse alerta aos adultos, é porque o hábito de curtir o lazer ao ar livre vem se perdendo nessa geração.

CONTATO

“As crianças têm muito pouco contato com a natureza nos espaços urbanos, por questões de segurança, de degradação… Muitas áreas periféricas nem sequer têm espaços recreativos naturais. Então fizemos essa chamada, que foi muito bem recebida.”

O que se vê, diz Daniel, é a garotada confinada em casa e até na escola. “A maioria das escolas brasileiras, tanto públicas quanto privadas, têm espaços muito exíguos, pouca área aberta e mais pátios pequenos e cimentados. A criança na vida escolar dela tem pouquíssimo contato com a natureza. Existem excessões, mas são poucas.”

Qual a dose necessária? “Não há uma recomendação precisa. Mas sabemos que quanto mais tempo a criança passar ao ar livre, melhor. No mínimo uma hora por dia. Em alguns contextos isso é meio irreal, por problemas de disponibilidade dos pais ou responsáveis, de acessibilidade, insegurança... O ideal é que fossem em torno de duas horas por dia”, orienta.

Não é preciso ir para o meio da floresta ou nas Cataratas do Iguaçu. “Bastam algumas árvores, um pôr do sol, uma calçada arborizada, uma pracinha com terra, bichinhos”.

Os benefícios são incontáveis, segundo o médico: “A natureza convida para a atividade física saudável, enquanto espaços fechados convidam para o sedentarismo. A criança ama a natureza quando exposta a ela. Se encanta e parte para correr, brincar, pular, explorar, descobrir. Isso é maravilhoso”, valoriza!

O verde é benéfico para a saúde geral delas. “Esse contato é capaz de reduzir problemas de sono, alergias, infecções, melhora o desempenho escolar, a memória. Reduz a hiperatividade, o déficit de atenção. Há benefícios até espirituais, pois a natureza afasta das telas, do seu narcisismo natural, traz a criança para uma vivência mais transcendente. E a natureza precisa das crianças! É importante deixar que convivam com a natureza, que vivenciem a natureza, para que possam, quando forem adultas, defender como ativistas. A gente só defende o que a gente ama, e só ama o que conhece”, finaliza Daniel.

"Tem um mundo real lá fora para ser explorado”, aconselha médico

Diva Ribeiro com os netos Marina, Caio e Gabriela. Crédito: Vitor Jubini
Diva Ribeiro com os netos Marina, Caio e Gabriela. Crédito: Vitor Jubini

De férias, vindos de São Paulo, onde moram com os pais, os netos de Diva Ribeiro, 62 anos, curtiam um dia de brincadeiras em um parque, em Vitória, na última semana. Gabriela, de 6 anos, quis subir nas pedras. Mariana, de 2 anos, logo correu atrás da prima. E o pequeno Caio, de 1 aninho, também se animou.

“Atividade ao ar livre é muito importante! Eles acabam correndo na grama, subindo no balanço, ou seja, fazem exercício. Estamos querendo levá-los à praia também, só esperando o tempo melhorar”, comentou Diva, olhando para o céu meio nublado.

Médico e professor de neurologia infantil na Unifesp, Marcelo Masruha, destaca que esse tipo de lazer é fundamental para os pequenos, como orientam os pediatras.

“Achei um chamado muito importante! É preciso tentar botar mais natureza no dia a dia das crianças, mais realidade na vida de nossos filhos. É uma reflexão que os pais devem fazer”.

Para o especialista, a geração atual está muito afastada da realidade. “Nosso meio urbano atual é muito artificial. As crianças nem sabem mais de onde vem o alimento. Só sabem que ele ‘aparece’ na prateleira do supermercado, ao contrário das crianças do meio rural, que sabem que o tomate precisa ser plantado e depois colhido, que os animais precisam da água da chuva para não morrerem de sede”, diz Marcelo Masruha.

O problema é que esse novo estilo de vida vem trazendo problemas sérios, tanto físicos quanto psicológicos.

TRANSTORNOS 

“Quanto mais se afasta a criança da realidade para o meio artificial, mais propensa ela fica a distorções, a transtornos, como o transtorno de ansiedade e o alimentar. E a gente já vê muitos adolescentes insatisfeitos, imediatistas, que é algo fruto dessa vida artificial da cidade, potencializado com as redes sociais. Eles ficam muito no Youtube. Acabou a energia elétrica, entram em pânico. Mas tem um mundo real lá fora a ser explorado”, observa ele.

VERDE QUE FAZ BEM

Os benefícios

Doenças

O convívio com a natureza, desde a infância, melhora o controle de doenças crônicas – como diabetes, asma e obesidade –, diminui o risco de dependência ao álcool e a outras drogas

Mais vitamina

Proporciona bem-estar mental, equilibra os níveis de vitamina D e diminui significativamente o número de visitas ao médico

Mais ganhos

Brincar ao ar livre estimula todos os sentidos, permite um aprendizado mais ativo e explorador, favorece os vínculos sociais, inspira momentos de concentração, estimula a atividade física, contribui para a conservação da natureza

Recomendações

Lugares

Entende-se por natureza locais como pátios, ruas, canteiros, jardins, praças e parques, praias e lagoas, hortas urbanas, escolares ou domiciliares. E inclui também as áreas protegidas remotas e sem interferência humana, que propiciam experiências tão abundantes quanto a natureza desses lugares

Tempo de lazer

- Levar a criança para brincar no parquinho mais próximo pelo menos uma hora por dia ou fazer um passeio ou caminhada num jardim ou na orla de uma praia ou lagoa

- Fazer um piquenique num parque diferente uma vez ao mês

- Assistir ao pôr do sol e ao início da noite e procurar estrelas

- Passar o final de semana ou período de férias em algum lugar natural ou onde as crianças e os adolescentes possam se locomover com autonomia e liberdade

Fontes: Sociedade Brasileira de Pediatria e Instituto Alana (Programa Criança e Natureza)

 

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