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"Na porta da escola". Confira a crônica de Maria Sanz Martins

"É preciso ter sotaque genuíno, ter nobreza de árvore e origem simples, e até mesmo ter apetite para desobedecer a ordem estabelecida"

Publicado em 26/11/2018 às 14h32
Confira a crônica "na porta da escola" de Maria Sanz Martins . Crédito: Unsplash
Confira a crônica "na porta da escola" de Maria Sanz Martins . Crédito: Unsplash

Todos os dias, na porta da escola, a mãe dizia ao menino: “Ó, mamãe quer que você dê o seu melhor, filho”. Ao que ele sorria concordando, depois dava nela um beijo e avançava pelo corredor olhando os ladrilhos do piso, sem nunca entender ao certo o que ela queria.

Para ele, “melhor” era alguma coisa além do seu alcance, alguma coisa que não o pertencia, alguma coisa que era do Felipe – o melhor da corrida -, ou do Gustavo, como repetia a professora de matemática todo dia.

Percebe? A orientação amorosa de sua mãe, na prática, surtia como um drops de angústia que demorava pra dissolver na boca... Ardia. Especialmente porque quando o menino tentava ser "o melhor" da ocasião, como achava que sua mãe queria, acabava chamando atenção, criando confusão ou enfiando os pés pelas mãos.

Talvez essa orientação sobre ser/dar nosso “melhor” devesse vir sempre de alguém que realmente entenda o que seja isso. Porque quando a orientação parte de alguém que ainda tem uma visão vulgar sobre esse termo, o problema está feito.

É preciso ter sotaque genuíno, ter nobreza de árvore e origem simples, e até mesmo ter apetite para desobedecer a ordem estabelecida – é preciso grandeza de espírito para passar adiante o que isso seja... O que, por sinal, é complicadíssimo. Mas, não tem jeito, para ensinar é preciso saber. Do contrário, a confusão se perpetua e o convívio segue sendo dolorido, como nos acostumamos a ver.

Pessoalmente, não sei ainda. Mas desconfio. “Melhor” é palavra vaidosa, grande e orgulhosa. “Melhor” é lugar que abunda para um, enquanto toma do outro; é lugar que aparta. “Melhor” é extravagante, é caricato.

A mãe que amorosamente pede que o menino dê seu melhor na escola, sem perceber, está propondo um desafio, alguma coisa próxima de uma conquista, algo de vencer, um estado momentâneo durante o dia... Quando, na verdade, o que ela realmente almeja é o desenvolvimento da semente, o crescimento constante da força natural que existe naquele pequenino ser.

Ele, por sua vez, se confunde porque sabe que é muito, muito difícil vencer... do Gustavo, na tabuada; do Felipe, na corrida, e, sobretudo, dele mesmo (especialmente porque não entende o que isso significa).

De modo que ao invés de incentivar os pequenos na busca dos privilégios concedidos aos "melhores", devemos alimentar o potencial de alegria, amizade, colaboração e crescimento que está dentro deles. Agindo como os raios de sol que incidem sobre cada faixo de grama verde, insistindo: cresce! Cresce! Ou a chuva que molha, repetindo sempre: cresce, floresce, meu menino!

Finalmente, podemos ser o “melhor” entre bilhões de “melhores”. Mas para isso precisaremos compreender que também "somos mais um". Tudo e apenas isso. Que somos especiais e melhores e triviais e ordinários dentro do mesmo momento.

Pensando bem, talvez a mãe na porta da escola devesse dizer: “Filho, seja você” – o mais especial e o mais comum ao mesmo tempo.

Quem sabe assim, libertos deste querer externo que os obriga a vencer, eles teriam espaço suficiente para se desenvolver.

 

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