Ozório Napoleão, 85, médico aposentado, atuou na linha de frente da Fiocruz na época do início da vacinação da febre amarela
Ozório Napoleão

"Voltamos à década de 50, quando tínhamos que convencer as pessoas a se vacinar"

O lamento é do profissional da saúde aposentado, de 85 anos, que trabalhou na linha de frente do combate à Febre Amarela e à Doença de Chagas. "Na época, tínhamos que enfrentar a ignorância e as superstições que acometiam a população"

Ozório Napoleão, 85, médico aposentado, atuou na linha de frente da Fiocruz na época do início da vacinação da febre amarela
Vitória
Publicado em 22/01/2021 às 15h00

A liberação das vacinas e o início da vacinação dos grupos prioritários desponta como uma luz no fim do túnel, uma carga de esperança pra muita gente. De outro lado, existem também aqueles que desconfiam da eficácia e dão trabalho para serem convencidos a tomar as vacinas, seja ela contra a Covid-19 ou contra outras doenças que podem ser evitadas com a imunização.

Apesar das novidades que envolvem a vacinação como primeiro passo para a contenção da pandemia do novo coronavírus, a história parece ser repetir para o aposentado Ozório Napoleão Bonaparte de Lima, de 85 anos, que esteve na linha de frente durante o período inicial da vacinação contra a febre amarela, na década de 50.

Na época, Seu Ozório era servidor do - naquele período - chamado Ministério de Educação e Saúde (MES), que foi posteriormente desmembrado dando origem ao Ministério da Saúde e ao Ministério da Educação e Cultura. Atuou como vacinador no Serviço Nacional de Combate à Febre Amarela, nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. E conta ainda que também exerceu diversas outras funções na área da saúde, dentre elas a de laboratorista de análises clínicas, que exerceu no combate da Doença de Chagas no norte de Minas Gerais, no Hospital Regional de Teófilo Otoni. Atualmente, é aposentado pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão subordinado ao Ministério da Saúde.

Ozório Napoleão, 85, médico aposentado, atuou na linha de frente da Fiocruz na época do início da vacinação da febre amarela
Ozório Napoleão era técnico em laboratório pela Funasa e lembra de sua temporada como vacinador com orgulho. Crédito: Fernando Madeira

Nesta entrevista, Ozório fala sobre como foi atuar no convencimento da população na época. Confira:

Quais são os pontos mais marcantes da sua trajetória como profissional de saúde? E especificamente sobre a vacinação para Febre Amarela, como foi para o senhor participar?

Entre os fatos mais marcantes do meu trabalho, está atuar como vacinador e precisar enfrentar a ignorância e as superstições que acometiam a população na época. Me senti realizado como profissional da saúde em poder contribuir combatendo, através da vacinação, a endemia de Febre Amarela Silvestre, que comprometia a saúde da população Urbana e Rural, mas principalmente a Rural.

Na época, os mobilizadores da vacinação precisavam contar com a ajuda de padres e pastores para convencerem as pessoas a se vacinarem? Quem mais eram os aliados nessa luta?

Assim que chegávamos na cidade, apresentávamos Ofícios do Ministério da Saúde para o Prefeito, o Delegado de Polícia e também ao Pároco da Cidade, esse exercia grande influência sobre a população. Sem o apoio dessas autoridades, civil e eclesiástica, ficava inviável nosso trabalho de vacinação, já que existia certos paradigmas a serem rompidos. Acreditava-se que a vacina poderia causar infertilidade, tanto masculina quanto feminina.  Além disso, ainda tinha o medo da vacina por ignorância - acredito que por conta da desinformação.

Para o senhor, é um retrocesso o que estamos vivendo atualmente, o fato de as pessoas não acreditarem na vacina? Como isso te remete à época que você atuou?

Vamos em partes: avaliando hoje em dia o grande conteúdo que as pessoas recebem de informações através da imprensa, escrita e televisiva, redes sociais, e tantas outras fontes de informações, digamos que existe, sim, esse retrocesso. Mas há uma diferença, quando enfrentamos algo parecido na década de 50 e 60, as pessoas não tinham todas essas fontes e o preconceito com campanhas de vacinação era meramente por medo e por falta de informação.

Quais são as principais diferenças em relação à vacina entre a época da Febre Amarela e agora com a Covid-19? E as principais semelhanças, você percebe algo parecido entre os dois momentos?

É fantástico acompanhar o avanço da ciência e devo parabenizar nossos cientistas. Na época da vacinação contra  Febre Amarela Silvestre, as vacinas eram manipuladas em doses fracionadas na hora, não contávamos com seringas e agulhas descartáveis e a esterilização destes instrumentos era feita com água fervente. Hoje, as vacinas já vêm prontas para serem aplicadas com toda segurança possível.

Já as semelhanças aparecem em alguns momentos, mas principalmente relacionadas ao negacionismo da vacina.

Ozório Napoleão, 85, médico aposentado, atuou na linha de frente da Fiocruz na época do início da vacinação da febre amarela
Com saudade de reunir a família, seu Ozório está ansioso para tomar a vacina contra a Covid-19. "Se for preciso durmo na fila". Crédito: Fernando Madeira

Agora falando um pouco sobre a atualidade. Como foi e está sendo seu período de isolamento nesta pandemia? E qual é a sua expectativa para se vacinar dessa vez?

Estamos vivendo momentos difíceis, aguardando ansiosamente pela vacina. Tenho sentido falta de minhas caminhadas, do bate-papo com amigos e da minha família toda reunida. As expectativas são enormes. Eu que tanto vacinei as pessoas, agora não vejo a hora de ser contemplado com a vacina. Se for preciso durmo na fila.

Há alguma coisa que o senhor gostaria de falar como alguém que já viveu e esteve na linha de frente de um período parecido com o que estamos vivendo?

Deixo meu recado à população em geral: vacinem-se! A vacina salva vidas há anos, acreditem na ciência e não se prendam a notícias falsas. Gostaria de contar com a colaboração de todos para que, muito em breve, possamos nos aglomerar com toda a segurança.

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